Triple Bottom Line (3BL)

Primeiro as pessoas e depois a economia e as empresas. Este tem sido o mote dominante desde que a pandemia alterou por completo, tanto a nível pessoal como profissional, as nossas vidas.

Habituámo-nos a olhar para um contador diário que espelha a perda de vidas humanas, o aumento ou o decréscimo do número de infetados e com maior ou menor agilidade gerimos o trabalho, a família, a ansiedade e sobretudo tentamos manter viva a esperança de um regresso a uma normalidade que desconhecemos por completo e que nada nem ninguém consegue, para já e com rigor científico, antecipar como é que será.

O homem é um animal de hábitos, por isso não é de estranhar que o nível de rapidez e de adaptação às exigências que a pandemia e o contexto obrigam sejam, na maior parte dos casos, surpreendentes pela positiva. Se o melhor dos cenários não se alterar, significa que depois de cuidarmos das pessoas teremos de tratar da economia e das empresas. Pois ao contrário do que uma vacina poderá fazer pela erradicação do vírus, dificilmente o regresso à nova normalidade será rápido como o efeito que uma vacina teria caso a injetássemos na grande maioria das empresas, que por estes dias se reinventam e fazem os possíveis e os impossíveis para se manterem à tona de água.

Uma das frases mais conhecidas de Peter Drucker refere que em gestão não há outra escolha senão antecipar o futuro e este é um exercício crucial para as empresas, para os governos, para as famílias e para todos aqueles que de alguma forma têm a capacidade de influenciar o presente e o futuro, pois uma estratégia de curtíssimo prazo assente apenas num processo de sobrevivência poderá não ser a melhor opção.

Ser um animal de hábitos significa que, caso o regresso à normalidade seja mais rápido e acima da melhor das expectativas, poderemos correr o risco de esquecer com alguma ligeireza o que passámos durante esta pandemia e não tirar as lições certas. Podemos correr o risco de nos esquecermos rapidamente do que perdemos durante a quarentena e estarmos mais focados em recuperar o tempo e tudo o que não fizemos. Esse será o caminho errado pois para as empresas, governos e demais instituições o mais correto seria, por exemplo, aproveitar a oportunidade para corrigir prioridades e alinhar a performance das empresas e das sociedades pelo conceito de Triple Bottom Line (3BL), ou seja, realinhar as estratégias de acordo com o tripé da sustentabilidade social, ambiental e financeira.

Este modelo assenta no princípio de que o lucro, por si só, não é a única razão de ser das empresas e que há mais para além deste indicador. O modelo assenta no pressuposto de que quanto maior a interligação de uma empresa com estes três pilares maior será o reconhecimento, a transparência e o envolvimento de todos os stakeholders. O conceito data de 1990, mas hoje mais do que nunca a aplicabilidade é sem dúvida uma oportunidade até porque as empresas que seguiram este conceito estão a ficar mais próximas dos seus clientes e da comunidade em geral, garantem a sua sustentabilidade durante mais tempo e certamente que conseguem ultrapassar crises como esta com outra capacidade ou pelo menos com outro reconhecimento público, reconhecimento esse que mais cedo ou mais tarde se torna um aliado no momento da retoma.

A sustentabilidade das pessoas, das famílias, das empresas e das nações tornou-se um ativo que não tem preço pelo que não tirar as lições certas da situação atual, não apostar na sociedade, no planeta, na responsabilidade social corporativa, nas pessoas e em tudo o que perdemos e ainda vamos perder devido à pandemia é um erro colossal.

Normalmente só sabemos o que temos quando não o temos, por isso não podemos esperar por outra armadilha destas para corrigir tudo o que puder ser corrigido em prol dos pilares que nos sustentarão no futuro.


Por Afonso Carvalho, CEO do Grupo Egor

 

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