4 efeitos que a COVID-19 pode provocar no cérebro

Seis meses após a pandemia da COVID-19, ainda estamos a aprender muito sobre a doença. “Existem hoje relatos detalhados de doenças cerebrais em pessoas com doença pulmonar relativamente leve, naquelas que estão gravemente doentes e também em recuperação”, começa por explicar Michael Zandi, neurologista e professor da UCL (University College London) num artigo para o website do Fórum Económico Mundial.

O professor identifica quatro tipos de efeitos que o vírus parece produzir quando se trata do cérebro e dos nervos. Primeiro, um estado confuso (conhecido como delírio ou encefalopatia), às vezes com psicose e distúrbios da memória. Segundo, a inflamação do cérebro (conhecida como encefalite). O que inclui a encefalomielite disseminada aguda (ADEM), juntamente com os efeitos do baixo oxigénio no cérebro. O terceiro efeito são coágulos sanguíneos, levando a derrame (inclusive em pacientes mais jovens). E, por fim, o quarto efeito é a possibilidade de dano dos nervos do corpo, causando dor e dormência.

“Até ao momento, os padrões destes efeitos parecem semelhantes em todo o mundo. Algumas dessas doenças são fatais e, para aqueles que sobrevivem, muitas terão consequências a longo prazo”, defende o também consultor em neurologia.

Ora, isto levanta uma questão importante: a COVID-19 será associado a uma grande epidemia de doença cerebral, da mesma maneira que a pandemia de influenza de 1918 ficou ligada à epidemia de encefalite letárgica (doença do sono) que ocorreu até à década de 1930.

O que está a acontecer na cabeça das pessoas?

Em primeiro lugar, algumas pessoas com COVID-19 dizem ter pensamentos confusos e desorientação. Felizmente, em muitos casos, é de curta duração. Mas ainda não sabemos os efeitos a longo prazo do delírio causado e se podem surgir problemas de memória a longo prazo ou mesmo demência em algumas pessoas.

 

Todos os possíveis efeitos no cérebro e no sistema nervoso têm potencial para trazer danos a longo prazo e podem acumular-se num indivíduo. “Mas precisamos de saber mais sobre o que está a acontecer no sistema nervoso das pessoas antes que possamos prever com precisão quaisquer efeitos a longo prazo.”

Uma maneira de descobrir é examinar as cabeças dos pacientes usando técnicas de imagem cerebral, como a ressonância magnética. Num estudo, os padrões encontrados incluíram sinais de inflamação e uma chuva de pequenas manchas de sangramento, geralmente nas partes mais profundas do cérebro. Algumas dessas descobertas são semelhantes às observadas em mergulhadores ou em doenças de altitude, o que pode ser sinal da profunda falta de oxigénio no cérebro em alguns pacientes com COVID-19.

A pandemia por influenza de 1918 pode ter matado de 50 a 100 milhões de pessoas. No entanto, desapareceu da nossa memória coletiva. Não é comum ligar aquela pandemia a um surto de doença cerebral.

A encefalite e a doença do sono foram associadas a surtos anteriores de influenza entre as décadas de 1580 e 1890. Mas a epidemia de encefalite letárgica do século XX começou em 1915, antes da pandemia de gripe, e continuou até à década de 1930; portanto, um vínculo direto entre os dois permaneceu difícil de provar.

As consequências deste evento global têm muitas lições ao que se está a passar agora na época da COVID-19. Uma, é claro, é que podemos ver danos cerebrais generalizados após a pandemia por coronavírus.

Mas, o mais importante, é também lembrar o impacto político e social das pandemias e a necessidade de ajudar as pessoas vulneráveis ​​que sofrem de doenças à posteriori. A COVID-19 já expôs disparidades no acesso à assistência médica. As sociedades estão a ser julgadas sobre como protegem e tratam as pessoas de maior risco – e isso incluirá pessoas com doenças neurológicas decorrentes da COVID-19.

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