5 Desafios para o futuro emergente, segundo Pedro Duarte (CIP)

Se por um lado a Pandemia causou uma crise global económica e de saúde pública sem precedentes, ela também veio acelerar de forma inequívoca o avanço tecnológico, provocando um enorme salto na digitalização das sociedades nos seus variados setores económicos e sociais.

A pergunta que hoje se faz é: De que forma Portugal vai conseguir adaptar-se e aproveitar as oportunidades desse avanço tecnológico, sem ficar para trás?


Perante uma plateia de especialistas na área da Tecnologia e conselheiros da revista Líder, Pedro Duarte, Presidente do Conselho Estratégico para a Economia Digital da CIP, fez um enquadramento geral da temática da Transição Digital em Portugal, a propósito da sua intervenção no encontro online Leading Tech, promovido pela Líder, identificando dificuldades e oportunidades nesse caminho e referindo os cinco principais desafios que o País vai enfrentar nos próximos tempos.

Três dificuldades

  1. Atualmente Portugal enfrenta a questão de ter talento em número suficiente para responder às necessidades emergentes. Apesar da boa qualificação e formação que é feita no nosso país, esta não existe numa escala que vá preencher as exigências do mercado no curto prazo;
  2. A questão da capitalização das empresas, e respetiva falta de capital, traz dificuldades na capacidade de investimento para que essa transição seja possível;
  3. Tradicionalmente, Portugal tem uma cultura que Pedro Duarte descreve como de “aversão ao risco”, o que num momento em que é preciso mudar tanta coisa em tão pouco tempo, não havendo um espírito mais ousado de querer arriscar a encontrar coisas novas, trará dificuldades ao País fazendo com que “provavelmente perca a corrida”.

Três vantagens competitivas

  1. O digital é um negócio onde apesar de tudo “há poucas barreiras à entrada”, e em que o efeito de escala que é necessário para muitos negócios, e a sua facilidade ou dificuldade de acesso, é em Portugal muito facilitada. Hoje, os recursos mais valiosos são os bens intangíveis como algoritmos, dados, software e propriedade intelectual, ou seja, bens em que não é necessário recorrer ao capital fixo, o que seria à partida uma dificuldade na nossa economia.
  2. No mundo tecnológico, Portugal não tem o “problema de periferia”. O que antes foi um entrave ao desenvolvimento económico, agora não impede o País de estar em ligação com todo o globo, numa situação privilegiada entre os EUA e a Ásia. E o que em outros tempos pode não nos ter beneficiado, como os recursos naturais ou o contexto envolvente, são hoje fatores que ajudam Portugal a atrair talento e capital.
  3. Se do ponto de vista “cultural” os portugueses não são tradicionalmente um povo que goste de arriscar, Pedro Duarte destaca a enorme virtualidade de uma “flexibilidade cognitiva”, que é a nossa capacidade de adaptação às situações mais imprevisíveis. Quando algo não corre como estava planeado ou previsto, Portugal tem desenvolvido ao longo de anos uma capacidade única de “desenrascar” – e isso pode ser uma vantagem na transição digital. O que se vai exigir numa fase de mudanças tão bruscas e rápidas, e também difíceis de prever, é que exista uma capacidade de adaptação e flexibilidade, e aí Portugal, em comparação com países no norte da Europa, tem uma maior vantagem.

Após esta visão mais detalhada acerca das especificidades da revolução digital no País, Pedro Duarte apresentou os cinco grandes desafios que com o envolvimento dos setores público e privado, para além da comunidade, devem representar uma aposta para Portugal:

  1. Competências – A qualificação das pessoas é um fator crítico; Portugal só conseguirá vencer se tiver capacidade de ter talento, isso traz consigo novos negócios e captação de investimento estrangeiro.
  2. Infraestruturas – Outro ponto fulcral é o da conectividade, e em Portugal, nomeadamente na questão da cobertura 5G, está-se “um passo atrás” do que já deveria ser esperado.
  3. Ecossistema – Portugal deve apostar num ambiente acolhedor ao desenvolvimento do negócio tecnológico e digital, num sistema de “data economy” e com capacidade de integrar cadeias de valor globais. Só assim será possível o sucesso para as empresas e os negócios, sem esquecer a retenção e atração de pessoas e capital que deve ser feito pela diferenciação (o que já está a acontecer nos países do leste da Europa).
  4. Estado – É notória uma maior sensibilidade pela parte dos decisores políticos, nomeadamente no que se refere à alocação ao digital do Plano de Recuperação e Resiliência, na renovação e digitalização da Administração Pública. Para Pedro Duarte, este é um ponto crucial, pois tendo em conta a dívida pública portuguesa, se não se criar mais eficiência na gestão dos dinheiros públicos, Portugal “não terá hipótese de subsistir”. Para além de que um Estado que dá o exemplo propicia que a economia siga esse modelo no sentido de se tornar mais digital e atrair investimento.
  5. Coesão social – Este novo momento que Portugal está a viver, sob o ponto de vista tecnológico, vai gerar mais riqueza e crescimento económico, mas também pelos chamados “network effects”, se nada for feito essa riqueza será concentrada em apenas alguns. Pedro Duarte adverte, que “pelo cariz da velocidade com que esta disrupção está a acontecer, vai haver setores da sociedade que vão ficar para trás”. Se antes, e em outros saltos tecnológicos, havia uma geração para se adaptar e outra para adotar, hoje tudo acontece numa década. É por isso essencial do ponto de vista de comunidade ter a perceção que é preciso impedir que “haja quem fique para trás”, no risco de se resvalar para um País de vencedores e vencidos, em que os que vencem ganham muito e os que perdem ficam em maior desvantagem.

Artigos Relacionados: