5 Lições de pandemias passadas

A COVID-19 é a mais recente de uma longa série de pandemias que moldaram o curso da história. Pensa-se que a gripe espanhola de 1918-19 tenha levado a uma maior cooperação global em torno da preparação para pandemias.

A epidemia também levou a uma expansão do papel do Estado nos cuidados de saúde, que a COVID-19 também desencadeou. Pensa-se que a Peste Negra de 1347-51 tenha estimulado grandes mudanças económicas e tecnológicas. Uma das lições que devemos aprender é que as pandemias ao longo da história mostraram que os mais pobres são os que mais sofrem.

Será que a febre amarela mudou o curso da história dos EUA? Existiria hoje uma cooperação global em matéria de doenças sem o legado da “gripe espanhola”? Será que também a COVID-19 irá reordenar o nosso mundo? Embora a pandemia de hoje seja única e o futuro seja incerto, os surtos do passado sugerem formas de responder agora para alcançar melhores resultados amanhã.

Eis cinco lições retiradas de pandemias passadas, segundo o World Economic Forum.

  1. Aumento da cooperação global na saúde

Entre 1918-19, uma epidemia mortal de gripe, conhecida como gripe espanhola, varreu o globo, infetando cerca de meio bilião de pessoas. Estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas tenham morrido. No entanto, desta tragédia surgiram instituições que nos apoiam hoje.

No início dos anos 20, a divisão de saúde da Liga das Nações foi criada em resposta à gripe espanhola. A partir desta, e de outras organizações mais pequenas, nasceu a Organização Mundial de Saúde, em 1946. Em 1952, foi criada uma Rede Mundial de Vigilância da Gripe.

De acordo com o professor em Geoestratégia, Nayef Al-Rodhan, doenças como a HIV, A/H1N1 e Ébola estimularam a cooperação internacional. “Como outras pandemias”, escreve na Global Policy, “o recente surto de COVID-19 trará transformações significativas”.

Saiba mais sobre o que aconteceu na gripe espanhola aqui.

 

  1. Esperar o inesperado

Mais imprevisíveis são as mudanças de geopolítica que podem dar-se após grandes convulsões globais. Segundo Frank M. Snowden, professor de História da Medicina na Universidade de Yale e autor de “Epidemias e Sociedade: Da Peste Negra ao Presente”, o curso da história mundial pode ter sido profundamente moldado pelas epidemias de febre amarela do século XVIII.

“Quando Napoleão enviou a grande armada para restaurar a escravatura no Haiti, a rebelião dos escravos teve sucesso porque os escravos de África tinham imunidade que os europeus brancos que estavam no exército de Napoleão não tinham”, disse Snowden ao The New Yorker. “Levou à independência do Haiti.”

“Foi isso que levou à decisão de Napoleão de abandonar a projeção do poder francês no Novo Mundo e, portanto, de concordar, com Thomas Jefferson, em 1803, com a compra da Louisiana, que duplicou o tamanho dos EUA.”

Mais no passado está a peste Antonina (165-180 d.C.). Esta pandemia atingiu duramente o Império Romano, matando cerca de 5 milhões de habitantes, e pensa-se que tenha contribuído para o colapso da Pax Romana (a Paz Romana) – o que tinha sido o auge do poder romano. Foi no período após esta praga que o Cristianismo ganhou uma influência crescente.

 

3.Um Estado interventivo

Em todo o mundo, os governos gastaram milhões para combater a COVID-19, aumentando a intervenção estatal para apoiar os desempregados, por exemplo. Mas qual é a probabilidade desta intervenção do setor público se manter quando a pandemia tiver passado?

De acordo com Laura Spinney, autora de Pale Rider: The Spanish flu of 1918 and How It Changed the World, existem precedentes de cuidados de saúde liderados pelo Estado que assumem uma nova importância. “Deu um grande impulso ao conceito de medicina para a sociedade, que nenhum país tinha ainda conseguido organizar”, disse Spinney ao podcast World Vs Virus do World Economic Forum.

O que aconteceu foi que o mundo realizou que uma pandemia é uma crise global de saúde que tem de ser tratada ao nível da população e não ao nível do indivíduo. “A Rússia foi a primeira, seguida pelas nações da Europa Ocidental, a pôr em prática sistemas de saúde socializados. Depois vem a epidemiologia, a procura de padrões e causas e efeitos nos cuidados de saúde”.

 

4.Acelerar as tecnologias e economias

A peste bubónica – ou Peste Negra – de 1347-51 foi devastadora. Considerada a pandemia mais mortífera da história da humanidade, pensa-se que tenha matado cerca de 200 milhões de pessoas – cerca de 50% de toda a população da Europa. Levaria mais de 200 anos para que a população do continente recuperasse. E as mudanças que desencadeou e acelerou foram profundas – particularmente para os trabalhadores.

Antes desta peste, uma população crescente em Inglaterra tinha salários baixos e rendas altas. Pensa-se que, na sequência da pandemia, o salário terá aumentado até 40%. Isto, por sua vez, pode ter desencadeado uma série de outras mudanças, incluindo inovações industriais para poupar na mão-de-obra e equilibrar o aumento das despesas salariais.

Estes acontecimentos poderão ter lançado as sementes da revolução industrial tecnológica que iria ter impacto em todo o mundo. No século XIV, os salários mais elevados podem ter mudado os estilos de vida: mais dinheiro para conseguir melhor alimentação.

5.Os pobres são os que mais sofrem

As pandemias podem ser um grande nivelador. Em 1918, semanas antes do fim da Primeira Guerra Mundial, o então Primeiro Ministro britânico, David Lloyd George, adoeceu com gripe espanhola. Em 2020, o atual Primeiro-Ministro britânico Boris Johnson foi levado para o hospital depois de ter apanhado COVID-19.

No entanto, como Laura Spinney observa, olhar para o nível populacional em 1918 revela uma lição histórica diferente. “Há uma disparidade muito clara: quem está em risco são os mais pobres, mais vulneráveis, os que têm menos acesso aos cuidados de saúde, os que trabalham mais horas seguidas, os que vivem em espaços com mais pessoas juntas.”

“Este efeito é forte em todas as pandemias e, infelizmente, é provável que sejam os países em desenvolvimento que mais sairão prejudicados da pandemia de coronavírus.”

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