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Sociedade

700 milhões ficaram para trás. A cidade ficou inteligente, mas esqueceu-se de ser habitável

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27 Agosto, 2026 | 12 minutos de leitura

Mais de 2,2 mil milhões de pessoas vivem hoje nas cidades da Ásia e do Pacífico, número que deverá chegar aos 3,4 mil milhões até 2050. Ao mesmo tempo, cerca de 697 milhões vivem em bairros informais e mais de 65% dos trabalhadores urbanos estão na economia informal.

As cidades estão a crescer para cima, para fora e, em certos lugares, para dentro de si mesmas, como organismos desmedidos que já não sabem muito bem onde acaba a rua e começa a periferia, onde termina o espaço público e principia o domínio privado, ou em que momento a convicção de prosperidade se converteu numa corrida cada vez mais extenuante para simplesmente conseguir permanecer no lugar onde essa prosperidade acontece.

Mais de 2,2 mil milhões de pessoas vivem hoje nas áreas urbanas da Ásia e do Pacífico e, até 2050, outras 1,2 mil milhões deverão juntar-se-lhes, num movimento que levará cerca de 48 milhões de pessoas por ano para as cidades da região. O número, por si só, parece pertencer à aritmética de uma civilização distante, mas traduz uma transformação bastante concreta: bairros que se alargam, terrenos que se valorizam, linhas de transporte que avançam para territórios antes periféricos, edifícios que nascem onde ontem havia terrenos baldios e, sobretudo, milhões de pessoas a procurar na cidade aquilo que durante séculos se procurou noutros lugares: trabalho, segurança, educação, saúde e a possibilidade, sempre algo quimérica, de viver um pouco melhor do que a geração anterior.

O Asian Development Bank estima que mais de metade da população urbana mundial já viva nesta região e adverte, no seu mais recente relatório sobre o futuro urbano da Ásia-Pacífico, que o crescimento só poderá ser verdadeiramente sustentável se não aprofundar as fracturas que já atravessam as cidades.

É precisamente essa contradição que o World Economic Forum coloca no centro da discussão: as cidades são os lugares onde a riqueza se concentra, mas também aqueles onde a desigualdade pode adquirir uma forma particularmente visível, porque a distância entre quem beneficia da prosperidade e quem a sustenta deixa de ser uma abstracção estatística e passa a caber numa mesma avenida. Pode estar um restaurante sofisticado num piso térreo e, algumas centenas de metros mais adiante, uma comunidade a viver em condições precárias; pode existir uma torre de escritórios equipada com a mais recente tecnologia e, na rua, alguém a vender comida numa banca improvisada; vendem-se apartamentos avaliados em milhões e, a pouca distância, famílias inteiras a dividir uma habitação exígua. A cidade torna-se assim uma espécie de espelho aumentado da sociedade: não inventa necessariamente as desigualdades, mas concentra-as, aproxima-as e torna impossível fingir que não existem.

O lugar onde a riqueza encontra a escassez

A grande promessa da cidade moderna sempre esteve ligada à concentração. Juntar pessoas significava juntar competências, conhecimento, capital, comércio e oportunidades. A cidade tipo resplandece que uma ideia pode encontrar rapidamente quem a financie.  Uma empresa deve ser capaz de encontrar trabalhadores, assim como um trabalhador pode encontrar emprego. Até na educação, uma universidade aproximar-se-ia de investigadores e uma inovação podia viajar de uma cabeça para outra com uma rapidez impossível numa sociedade dispersa. Foi essa proximidade que transformou cidades como Londres, Nova Iorque, Tóquio, Singapura, Seul ou Xangai em centros de uma economia que deixou de caber dentro das fronteiras nacionais.

Mas a mesma concentração que multiplica oportunidades também torna escassos os recursos que permitem aproveitá-las. A terra não cresce ao ritmo da população, a habitação não acompanha necessariamente a procura e os sistemas de transporte podem tornar-se tão congestionados que aquilo que no mapa parece uma proximidade de poucos quilómetros se converte, na vida quotidiana, em duas horas de viagem. A consequência é uma espécie de paradoxo urbano: quanto mais atractiva se torna determinada cidade, mais pessoas deseja atrair e, simultaneamente, mais difícil pode ser para uma parte dessas mesmas pessoas viver perto dos lugares onde o trabalho e os serviços se encontram.

O problema da habitação é, neste contexto, muito mais do que uma questão de preços. O World Cities Report 2026, da UN-Habitat, estima que até 3,4 mil milhões de pessoas em todo o mundo não tenham acesso a habitação segura, adequada e estável, enquanto mais de mil milhões vivem em assentamentos informais e slums. O défice global de habitação passou de 251 milhões de unidades em 2010 para 288 milhões em 2023, numa evolução que acompanha décadas de urbanização rápida, investimento insuficiente e pressão crescente sobre o solo urbano.

Há uma palavra particularmente importante no diagnóstico das Nações Unidas: localização. Uma casa não é apenas uma estrutura onde se dorme. O lugar onde se encontra determina, em larga medida, quanto custa chegar ao emprego, quanto tempo se perde no caminho, que escolas estão disponíveis para os filhos, que hospitais ficam ao alcance, que qualidade do ar se respira e até que capacidade existe para resistir a uma emergência. O relatório da UN-Habitat nota que a expansão urbana entre 1975 e 2025 ocorreu a um ritmo quase duas vezes superior ao crescimento populacional, produzindo cidades mais extensas e de baixa densidade, com maiores custos de infra-estrutura e uma tendência para empurrar trabalhadores de baixos rendimentos para periferias afastadas dos empregos e dos serviços.

A distância, nesse caso, passa a ser uma forma de desigualdade.

A cidade que se vê e a cidade que a sustenta

Talvez seja necessário olhar para uma cidade não apenas a partir do seu centro financeiro, dos seus bairros históricos ou dos arranha-céus que aparecem nas fotografias aéreas, mas a partir das pessoas que entram nela todas as manhãs para a pôr a funcionar. São essas pessoas que conduzem os autocarros, limpam os quartos de hotel, cozinham nos restaurantes, entregam encomendas, constroem edifícios, cuidam de crianças e idosos, recolhem resíduos e mantêm abertas durante todo o dia as pequenas engrenagens sem as quais a metrópole sofisticada rapidamente descobriria a sua própria fragilidade.

E uma parte considerável desse trabalho continua a acontecer fora da economia formal. O relatório de 2026 do ADB, elaborado em parceria com a Comissão Económica e Social das Nações Unidas para a Ásia e o Pacífico e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, identifica três fracturas urbanas que se reforçam mutuamente na região: o acesso desigual à habitação e aos serviços, a prevalência do emprego informal e a exposição desigual aos riscos ambientais.

A informalidade tem aqui uma importância que ultrapassa a estatística laboral. Quem trabalha sem contrato está frequentemente mais exposto à perda súbita de rendimento, possui menor acesso à protecção social e encontra maiores dificuldades para enfrentar uma doença, um acidente ou uma crise económica. E quando essa precariedade coincide com uma habitação insegura, transportes deficientes e exposição a fenómenos climáticos extremos, deixa de haver problemas separados: há uma única condição de vulnerabilidade, construída por várias camadas que se sobrepõem.

É por isso que a desigualdade urbana não pode ser compreendida apenas através do rendimento. Duas pessoas podem ganhar salários relativamente próximos e, ainda assim, viver cidades completamente diferentes se uma delas tiver uma casa adequada, transporte eficiente, serviços públicos próximos e uma rede de protecção familiar, enquanto a outra tiver de atravessar diariamente a metrópole, viver num espaço sobrelotado e enfrentar cada imprevisto como uma ameaça existencial.

A pobreza, afinal, também se mede pelo tempo.

Quando o clima deixa de ser paisagem

A crise climática acrescentou outra dimensão à velha desigualdade urbana, porque o calor, a poluição, as cheias e os fenómenos meteorológicos extremos não se distribuem de forma equitativa e, sobretudo, porque a capacidade de cada pessoa para se proteger deles depende profundamente dos recursos de que dispõe.

Uma família com dinheiro pode procurar uma casa melhor isolada, instalar ar condicionado, mudar temporariamente de cidade ou simplesmente deixar de trabalhar ao ar livre durante uma onda de calor. Um trabalhador informal que dependa do rendimento diário não possui necessariamente nenhuma dessas possibilidades. Se vender na rua, fizer entregas ou trabalhar numa obra, o calor não é uma variável meteorológica que possa observar no telemóvel: é uma condição física a que o corpo terá de obedecer.

A cidade, por isso, pode transformar a crise climática numa experiência profundamente desigual.

O relatório do ADB sobre futuros urbanos inclusivos coloca precisamente a resiliência ambiental ao lado da habitação e do trabalho como uma das grandes frentes de combate à desigualdade urbana na Ásia-Pacífico, destacando iniciativas que passam pela melhoria da qualidade do ar, gestão de resíduos, infra-estruturas mais resilientes e soluções concebidas com a participação das próprias comunidades.

A lógica é importante porque rompe com uma certa ideia de sustentabilidade demasiado confortável, segundo a qual bastaria substituir automóveis, instalar painéis solares e construir edifícios energeticamente eficientes para que a cidade se tornasse automaticamente mais justa. Não se torna. Um edifício verde pode continuar a ser inacessível para quem tem baixos rendimentos; um bairro arborizado pode tornar-se precisamente mais caro à medida que melhora; uma nova linha de transporte pode aproximar uma periferia do centro e, ao mesmo tempo, aumentar o valor do solo até expulsar os habitantes que originalmente beneficiaram dela.

A melhoria urbana possui, portanto, uma espécie de paradoxo inscrito no próprio sucesso: aquilo que torna um lugar melhor pode também torná-lo mais caro.

O futuro não caberá num painel de controlo

É aqui que a discussão sobre as chamadas smart cities começa a ganhar uma dimensão menos tecnológica e mais política. A inteligência artificial, os sensores, os sistemas de mobilidade conectada e a análise permanente de dados podem tornar as cidades mais eficientes, mas eficiência e justiça não são sinónimos. Um sistema pode saber exactamente onde está um congestionamento sem saber porque razão uma determinada população vive tão longe do emprego; pode calcular o consumo energético de um edifício sem compreender que as pessoas que vivem num bairro vizinho não conseguem suportar o preço da electricidade; pode antecipar uma inundação sem resolver a razão pela qual as famílias mais pobres continuam a viver precisamente nas zonas onde a água chega primeiro.

A própria UN-Habitat reconhece, no seu relatório global de 2026 sobre o ODS 11, que as novas tecnologias, a observação da Terra e a inteligência artificial estão a ampliar extraordinariamente a capacidade de monitorizar as cidades, mas também sublinha a persistência de falhas importantes nos dados, sobretudo quando se trata de perceber desigualdades ao nível das cidades e dos bairros e de identificar correctamente as populações mais vulneráveis.

O erro de uma certa imaginação tecnológica do futuro é acreditar que aquilo que não conseguimos resolver por falta de informação será inevitavelmente resolvido quando tivermos informação suficiente. Mas muitas desigualdades não persistem porque ninguém as consegue medir. As causas são diversas, como os interesses económicos, escolhas políticas e relações de poder que tornam a sua resolução difícil. Não há algoritmo que substitua essa decisão.

A cidade como pacto

O artigo do World Economic Forum parte da Ásia, mas a questão que deixa no ar não pertence apenas a Jacarta, Banguecoque,  Mumbai ou Deli. Pertence a praticamente todas as cidades que estão a tentar conciliar crescimento económico, habitação, sustentabilidade e qualidade de vida. E talvez seja por isso que o caso asiático seja tão revelador: a região concentra uma parte enorme do crescimento urbano futuro e tem diante de si a oportunidade, ainda relativamente rara, de não repetir integralmente os erros das cidades que cresceram antes dela. O relatório do ADB fala justamente em transformar a urbanização de uma fonte de desigualdade num motor de oportunidade, recorrendo a habitação liderada pelas comunidades, protecção social, emprego digno e soluções ambientais adaptadas aos contextos locais.

Há, nisso, uma ideia velja que merece ser recuperada: uma cidade não é apenas um mercado de solo, nem uma máquina de circulação de pessoas, nem uma colecção de edifícios mais ou menos belos. É uma forma de convivência. E uma forma de convivência pressupõe alguma coisa que o urbanismo contemporâneo, por vezes demasiado enamorado da eficiência, parece esquecer: a ideia de que os lugares pertencem também àqueles que não possuem dinheiro suficiente para os comprar.

A questão asiática é também  sobre aquilo que entendemos por progresso. Durante décadas, medimos o avanço das cidades pelo número de edifícios construídos, pela extensão das redes de transporte, pelo volume de investimento estrangeiro, pela produtividade, pelo preço do imobiliário e pela capacidade de atrair empresas. São indicadores úteis, mas contam apenas uma parte da história. Uma cidade pode enriquecer enquanto expulsa os seus habitantes mais pobres;  modernizar-se enquanto torna mais precária a vida daqueles que a mantêm aberta; pode tornar-se mais verde enquanto transforma os seus parques e bairros renovados em lugares financeiramente inacessíveis.

As cidades asiáticas terão de construir habitação para centenas de milhões de pessoas, redes de transporte capazes de acompanhar uma urbanização vertiginosa, infraestruturas preparadas para um clima cada vez mais hostil e sistemas de trabalho capazes de proteger quem hoje permanece na margem da economia formal. Poderão fazê-lo como se estivessem apenas a gerir crescimento ou poderão aproveitar a escala dessa transformação para perguntar, antes de mais nada, que espécie de cidade querem legar.

 

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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