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«A arquitetura também deve tratar da morte e do luto», diz Maria João Correia, fundadora do Segmento Urbano

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27 Março, 2026 | 9 minutos de leitura

A morte raramente entra pela porta da arquitetura. Está nas cidades, nos cemitérios que ocupam parcelas inteiras do tecido urbano, nas memórias que ficam presas aos lugares, nas despedidas que acontecem perto das lápides e caminhos de terra. Ainda assim é um tema que quase nunca se discute quando se fala de desenhar o espaço onde vivemos. Talvez porque preferimos olhar para a arquitetura como horizonte e futuro – casas novas, bairros que crescem, cidades que se expandem – e não como o cenário inevitável dos ciclos da vida, onde também cabem o luto, o rasto e a ausência. Mas há quem defenda que fechar os olhos a essa dimensão é ignorar uma parte essencial da experiência humana. É aqui que entra Maria João Correia.

Fundadora e diretora executiva do atelier Segmento Urbano desde 2006, a arquiteta tem vindo a desenvolver aquilo a que chama ‘Arquitetura do Ser’, uma abordagem que coloca as pessoas, as suas emoções, necessidades e fragilidades, no centro do processo de decisão arquitetónica. Com projetos em Portugal e Angola, que atravessam habitação, reabilitação urbana, investimento imobiliário e estratégia territorial, Maria João Correia construiu ao longo de quase duas décadas um percurso onde convivem visão empresarial e sensibilidade humanista. Em 2025, o reconhecimento internacional chegou com o prémio WAFX do World Architecture Festival, atribuído ao projeto conceptual Echoes of the Void, nas Furnas – uma proposta que, precisamente, aborda aquilo que a arquitetura raramente quer tocar: a morte, o luto e o espaço que damos à memória. Nesta conversa, fala-se de cidades, de inovação, de liderança e de futuro, mas regressa-se sempre à mesma ideia inicial: a de que a arquitetura, se quiser realmente servir as pessoas, não pode escolher apenas as partes confortáveis da vida.

 

Fundou o Segmento Urbano em 2006 e construiu um ateliê multidisciplinar. Que visão esteve na origem deste projeto e como evoluiu até hoje?

A visão que esteve na origem do projeto foi fazer arquitetura, mas no sentido mais amplo da arquitetura.

O Segmento Urbano nasceu com uma necessidade muito concreta desde o início: desenhar um condomínio residencial com um problema muito específico e com uma solução também ela singular. E foi exatamente aí que começámos a perceber aquilo que eu acredito ser a essência da arquitetura, que é resolver problemas de forma estruturada, criativa, sensível.

Hoje, lidero uma estrutura que cruza arquitetura, urbanismo, engenharia e construção, e essa complexidade não nos retira identidade; antes, acrescenta níveis, camadas, dimensões que fazem sentido para uma arquitetura que deve ser abrangente, humanista e integrada. A arquitetura pode desenhar um aeroporto, um quiosque ou um sistema urbano complexo; é esta abrangência que sempre quisemos explorar no Segmento Urbano, incorporando desde o urbanismo, engenharia, construção, até áreas como neurociência, formação e investigação.

 

O ateliê atingiu cerca de 1,5 milhões de euros em 2025. Quais as decisões estratégicas que sustentam este crescimento?

As decisões estratégicas continuam a ser consistentes com aquilo que sempre fizemos: colocar o Segmento Urbano na vanguarda da arquitetura do seu tempo. Isso significa soluções adequadas aos problemas dos dias de hoje – mudanças climáticas, aquecimento global, gestão do território, mobilidade urbana, capacitação de equipas – e preparar a organização para o futuro, incorporando novas tecnologias como inteligência artificial. Cada projeto, cada concurso, cada metodologia que introduzimos não é apenas um retorno financeiro imediato; é investimento na equipa, na capacidade de antecipar tendências e de responder à complexidade crescente do ambiente construído. Crescer, para nós, nunca foi só uma questão de números, é consequência de uma estratégia coerente com a nossa filosofia.

 

Defende a chamada ‘Arquitetura do Ser’. O que significa na prática liderar a partir desta ideia?

Significa tratar a arquitetura como uma disciplina ampla, humanista e profundamente centrada nas pessoas. Parte sempre de uma necessidade humana, do abrigo, da proteção, e evolui para funções complexas – edifícios, castelos, palácios, e hoje cidades e sistemas urbanos.

Não é arquitetura de autor no sentido egoísta; é arquitetura que desenvolve soluções para grupos de pessoas, para necessidades concretas, sempre com empatia e atenção às dimensões físicas e emocionais de quem vai habitar os espaços. Isso implica escuta ativa, capacidade de perceber emoções, contextos sociológicos, limites e potencialidades de cada indivíduo, seja na equipa ou nos utilizadores finais.

 

Os projetos internacionais em Angola, como o Condomínio Palmeiras ou o Masterplan do Kikuchi, trazem desafios diferentes. Muda a forma de liderar?

Não, muda apenas o contexto e as pessoas. Cada projeto tem tempos, ambientes e locais diferentes, e isso exige que a liderança se adapte às características humanas. Algumas pessoas de projeto exigem mais acompanhamento, outras menos; as pessoas de obra têm contextos sociológicos e culturais distintos. Mas a essência da liderança não muda: é compreender que cada ser humano é diferente, tem necessidades e capacidades distintas, e que cabe ao líder perceber isso, criar condições para que possam aprender, crescer e contribuir. A experiência internacional, aliás, é uma oportunidade enorme para aprender e testar metodologias, mas a base continua a ser sempre humana.

 

Pode dar exemplos de decisões difíceis enquanto líder?

Sim, várias. Uma das mais complexas é permitir que um líder de projeto tome decisões menos perfeitas para que aprenda por si, mesmo sabendo que isso implica riscos. É um exercício de paciência e de confiança, porque requer tolerar erros alheios, aceitar que as decisões não sejam exatamente como eu faria, mas entender que isso fortalece a equipa e prepara o futuro. Outra decisão difícil é recusar projetos que não se alinham com os nossos valores ou sistemas, mesmo quando poderiam gerar retorno financeiro. Ao longo de 20 anos, estas decisões repetem-se, multiplicam-se, e exigem sempre ponderação entre ética, estratégia e impacto humano.

 

Criaram conceitos como o Land Staging. Como surgiu e qual o impacto?

O Land Staging surgiu de perguntas que nos faziam constantemente: «O que dá para fazer aqui?» e «Quanto custa?». Notámos que havia um gap enorme entre o anúncio de um terreno e a compreensão do que era possível construir, e isso fazia perder tempo, dinheiro e energia a todos. Desenvolvemos metodologias que permitem ler PDMs, legislação e centenas de variáveis territoriais, antecipando decisões e dando clareza a proprietários, compradores e projetistas. É uma otimização brutal de tempo, custos e informação, que coloca a arquitetura na vanguarda da decisão estratégica e transforma a forma como o setor lida com o território.

 

O Build Lab aposta na formação de novos profissionais. Qual o papel da liderança nesse contexto?

É absolutamente central. O setor da construção e arquitetura é mal estruturado em termos de formação. Capacitar jovens e profissionais em contexto real é essencial porque, mesmo com inteligência artificial, há tarefas que requerem decisão humana, responsabilidade e sensibilidade. Formar profissionais capazes de interpretar sistemas complexos, adaptar-se e inovar é construir o futuro do setor, preparando-o para os desafios tecnológicos, sociais e ambientais que se aproximam.

 

Qual o papel da inovação contínua na diferenciação do atelier?

A inovação contínua é essencial. Inteligência artificial, drones, exoesqueletos, ferramentas avançadas – tudo isto permite otimizar processos e libertar capacidades humanas para decisões complexas que não podem ser automatizadas. Mas não é só tecnologia: é também inovar em processos, em metodologias, em formas de liderar e de integrar equipas. Só assim conseguimos manter competitividade e relevância, enquanto continuamos a cumprir a nossa missão de arquitetura humanista.

 

O projeto Echoes of the Void foi distinguido com o prémio WAFX. O que representa este reconhecimento?

Para mim, representa imenso, sobretudo porque é um projeto sobre algo que a arquitetura normalmente evita: a morte e o luto. Trata de assuntos que a sociedade e muitas vezes os arquitetos fecham os olhos e não querem abordar. Mas a arquitetura deve tratar disso também, porque cemitérios, memoriais, espaços de despedida são parte da cidade, são parte da vida das pessoas.

Foi uma decisão minha, em diálogo com a equipa, participar neste projeto. Permitiu que todos aprendessem imenso, a lidar com uma temática complexa, emocional e socialmente sensível. Ser reconhecidos como um dos projetos mais visionários do mundo foi muito gratificante, porque reflete precisamente aquilo que perseguimos na Arquitetura do Ser: usar o espaço construído não apenas para abrigar, mas também para tocar, para curar, para acompanhar o ser humano em momentos de perda. A arquitetura tem capacidade de gerar ansiedade, mal-estar, mas também pode ser terapêutica, curativa, um instrumento de cuidado e humanidade. É isso que significa aplicar princípios de neuroarquitetura e arquitetura humanista a projetos conceptuais e reais.

 

É uma paixão antiga, a arquitetura?

No sentido em que eu a entendo, sim. Criar espaços onde as pessoas possam viver, ir ao jardim, ao parque, mas também desenhar sistemas invisíveis que estruturam a vida de cada dia. Não é sobre cores, sobre coberturas ajardinadas ou linhas puras; é sobre criar ambientes que moldam experiências, que podem apoiar a saúde física e mental, que têm impacto na vida real das pessoas. É paixão por perceber o que cada espaço provoca, pelo bem-estar, pelo conforto, pela funcionalidade e, acima de tudo, pelo impacto humano que a arquitetura tem.

 

Como vê o futuro das cidades em Portugal?

Vejo uma expansão horizontal, mais do que vertical, porque crescer para cima tem limitações físicas, legais e ambientais. As pessoas tendem a procurar qualidade de vida, contacto com natureza, equilíbrio entre trabalho e bem-estar, e isso leva a uma descentralização gradual, ainda que lenta. A arquitetura deve antecipar estas necessidades, desenhar cidades e espaços que promovam saúde, segurança e conforto, e integrar tecnologia, natureza e urbanismo de forma harmoniosa.

 

Quais os próximos desafios estratégicos do Segmento Urbano?

O foco será consolidar sistemas de leitura territorial em Portugal, partilhar know-how com outros ateliês, imobiliárias e promotores, expandir internacionalmente e estruturar metodologias que integrem arquitetura, estratégia e inovação. Não se trata apenas de projetos emblemáticos, mas de criar um legado de práticas e conhecimento que reduzam risco e aumentem qualidade.

 

Pessoalmente, o que ainda quer construir enquanto líder?

Equipas felizes, capazes de equilibrar produção, bem-estar e aprendizagem contínua. Continuar a estudar como a arquitetura pode servir o ser humano, ajudar a atingir potencialidades máximas na vida, no conforto, na felicidade e na dignidade das pessoas que vivem nos espaços que criamos.

A arquitetura, na sua essência, deve ser um instrumento de cuidado, inclusão e transformação positiva.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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