A crescente fragmentação geoeconómica está a impor um custo pesado à economia mundial. Segundo um relatório divulgado esta quinta-feira pelo Fórum Económico Mundial, em parceria com a Oliver Wyman, as perdas anuais de produção já variam entre 213 mil milhões e 307 mil milhões de dólares (183 mil milhões de euros a 264 mil milhões), enquanto a inflação global sofre um agravamento estimado entre 0,2 e 0,3 pontos percentuais.
O estudo, intitulado Deepening Divides: The Cost of a More Fragmented Financial System, conclui que as tensões geopolíticas, as preocupações com a segurança económica e a redefinição das relações comerciais entre as principais economias aceleraram um processo de fragmentação que está a transformar os sistemas globais de comércio, investimento e finanças.
Ao contrário do que se verificava há alguns anos, os efeitos destas divisões já não se limitam aos tradicionais rivais geopolíticos. O relatório sublinha que as novas barreiras comerciais e financeiras afetam também economias historicamente alinhadas, como os Estados Unidos, a União Europeia, o Canadá, o Japão e a Coreia do Sul.
Segundo os autores, o recurso crescente a tarifas, restrições ao investimento e medidas de retaliação durante 2025 e 2026 marcou um ponto de viragem para a economia global. Estas políticas estão a aumentar os custos das empresas e a criar maior incerteza nas operações transfronteiriças.
«O sistema financeiro mundial tem enfrentado pressões crescentes decorrentes da fragmentação geopolítica e económica», afirmou Matthew Blake, diretor-geral e responsável pelo Centro para os Sistemas Financeiros e Monetários do Fórum Económico Mundial. Apesar disso, considera que os mercados têm demonstrado capacidade de adaptação e que os decisores políticos têm evitado, de forma geral, medidas suscetíveis de comprometer a confiança no sistema financeiro internacional.
Cenários mais severos podem custar 6,9 biliões de dólares
Os autores alertam, contudo, para a possibilidade de os custos aumentarem significativamente caso a atual tendência se aprofunde. Num cenário de fragmentação mais intensa, as perdas globais poderão atingir 6,9 biliões de dólares, o equivalente a 6,4% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.
O impacto não se limita aos indicadores macroeconómicos. A fragmentação está também a afetar diretamente o rendimento das famílias. O relatório estima que as atuais políticas reduzam o poder de compra em diversas economias, sendo os Estados Unidos um dos casos mais evidentes. Os salários reais poderão ser inferiores em 0,33% para trabalhadores pouco qualificados, 0,49% para trabalhadores com qualificações médias e 0,66% para trabalhadores altamente qualificados.
Para Daniel Tannebaum, partner e líder global da área de combate ao crime financeiro da Oliver Wyman, a principal preocupação das empresas é a falta de previsibilidade.
«Nas conversas com líderes empresariais de todo o mundo, a mensagem é consistente: o que as empresas mais precisam neste momento é de previsibilidade, e não a estão a obter», afirmou. Na sua perspetiva, a ausência de regras claras sobre tarifas, sanções e outras medidas económicas está a aumentar os riscos para o investimento, o crescimento e a estabilidade financeira.
Mercados emergentes enfrentam os maiores riscos
Os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento surgem como os mais vulneráveis ao agravamento da fragmentação financeira.
De acordo com o relatório, os países que se encontram fora dos principais blocos geopolíticos poderão sofrer perdas de produção equivalentes a 10,7% do PIB num cenário extremo, muito acima da média global de 6,4%.
A dependência de fluxos internacionais de capital e o menor desenvolvimento dos mercados financeiros internos tornam estas economias particularmente expostas a um sistema global menos integrado.
África é apontada como um exemplo desta dualidade. Por um lado, a dependência de financiamento externo pode tornar o acesso ao capital mais caro e imprevisível. Por outro, iniciativas de integração regional, como a Zona de Comércio Livre Continental Africana e o Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidação (PAPSS), poderão reforçar a resiliência do continente e criar novas oportunidades de crescimento.
Cinco medidas para limitar os danos
Apesar de considerar improvável uma inversão rápida do processo de fragmentação, o Fórum Económico Mundial defende que os governos ainda dispõem de instrumentos para reduzir os seus impactos. Eis as cinco medidas apresentadas:
Estabelecer princípios comuns para proteger o sistema financeiro contra a fragmentação, incluindo a preservação do Estado de direito e da independência da política monetária, a limitação da apreensão de ativos soberanos e a proteção da integridade dos dados governamentais;
Acordar normas que orientem a utilização de instrumentos de ação económica externa, promovendo os objetivos de segurança nacional e resiliência sem comprometer o crescimento global;
Garantir a previsibilidade das políticas públicas para sustentar os fluxos de investimento e assegurar o funcionamento contínuo dos mercados de capitais e financeiros transfronteiriços;
Manter a interoperabilidade entre os sistemas de pagamento e as moedas digitais, preparando simultaneamente as empresas para um ambiente geoeconómico cada vez mais fragmentado;
Impulsionar iniciativas de integração regional, como a Zona de Comércio Livre Continental Africana e o Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidação, bem como apoiar o desenvolvimento de mercados de capitais nacionais e regionais, incluindo a União Europeia de Poupança e Investimento.
O relatório recomenda igualmente o aprofundamento de iniciativas de integração regional e o desenvolvimento dos mercados de capitais nacionais e regionais, como forma de reforçar a estabilidade financeira num contexto internacional cada vez mais fragmentado.
Os autores concluem que, embora as divisões geoeconómicas pareçam destinadas a permanecer no médio prazo, políticas coordenadas e previsíveis poderão ajudar a evitar que os custos económicos se agravem ainda mais.


