Ao norte de Moçambique existe um arquipélago com cerca de 30 ilhas - as Quirimbas. A maior Ilha e mais populosa é a ilha do Ibo, «uma das mais singulares realizações das aventuras portuguesas no Índico», e um repositório do passado luso-asiático. Há entrevistas que começam com perguntas, esta começa com uma memória presente.
Em 2010 vivi nesta ilha, o lugar onde há 20 anos a Fundação Ibo realiza o seu trabalho de desenvolvimento e cooperação. A conversa com Luis Álvarez Mora, presidente da instituição, aconteceu remotamente entre Cascais e Barcelona. Ao fim de 16 anos de uma carreira na Banca de gestão de patrimónios, Luis Álvarez Mora deixou o rebuliço da cidade e foi até Moçambique, onde tudo aconteceu, conforme nos diz, por “casualidade”. A génese da Fundação Ibo está no não-assistencialismo, isto é, assumem uma posição contraditória ao modus operandi da maioria das organizações humanitárias que se estabelecem em África. A missão é dar o impulso para desenvolver, crescer e depois “ir embora”.
Quando morei no Ibo, ainda não havia rede elétrica (a central elétrica foi inaugurada em 2015) tal como não havia um horário de saída dos barcos – acontecia quando a maré assim o permitisse. Luis Álvarez Mora conta que um dos primeiros cooperantes da Fundação, ao ir viver para a ilha pediu de início um gerador. Passados uns dias ligou: «Olha, não me mandes um gerador, manda-me antes um atlas das estrelas».
Qual foi a motivação de criar a Fundação Ibo há mais de 20 anos?
No final dos anos 90, início dos anos 2000, deixei de trabalhar ainda muito jovem e encontrei-me com recursos. Com alguns amigos formei um grupo de trabalho para canalizar um pouco do altruísmo que todos nós temos e África atraía-nos muito. Queríamos fazer algo em Moçambique e ter chegado ao Ibo foi um pouco por acaso, pois uma pessoa desse grupo tinha um filho a trabalhar num hospital em Manica. Na primeira viagem que fizemos, tivemos a casualidade ou a coincidência, de nos termos encontrado no mesmo hotel com o então governador da província de Cabo Delgado. Nessa altura, tínhamos uma ideia, que depois descartámos, de fazer um hotel para canalizar os lucros para a luta contra a malária e a pobreza. Nós não nos apresentávamos tanto como uma ONG, mas como investidores com consciência para Moçambique. De uma certa forma, e o país estava em época de eleições, esse senhor aproveitou para ‘vender’ a ideia de fazermos um hotel no Ibo, onde iriam dar muitos postos de trabalho. Ele enganou-nos, fez-nos assinar um acordo e foi um ponto sem retorno. Percebemos que fazer um hotel naquela altura não era prioritário, porque não havia absolutamente nada no Ibo. Havia sim muita desnutrição, não havia rede elétrica, não sabíamos o que fazer, e a verdade é que não sabíamos nada sobre desenvolvimento ou cooperação.
Como foi que começaram?
Honestamente, é preciso dizer isso, atiramo-nos para uma piscina sem saber a temperatura da água. E fomos indo em modo de tentativa erro. Começamos por construir uma pequena escola e quando voltámos, seis meses depois, não tínhamos lá ninguém, estava cheia de cabras. Isto é um exemplo de como fomos aprendendo as coisas. Vimos e aprendemos a teoria da ‘responsabilidade correspondente’, ou seja, fazemos uma escola, mas vocês é que colocam lá os alunos – aí disseram-nos que não tinham carteiras, nem cadeiras. Então ocorreu-nos renovar uma carpintaria que existia desde a época dos portugueses e colocámos os antigos mestres da carpintaria e alguns aprendizes a fazer as carteiras para a escola. Após um ano e meio começou a fazer sentido, porque os próprios alunos participaram na construção do espaço.
Percebemos que antes de construir um hotel, ou de fazer qualquer coisa, a prioridade era a nutrição, o estímulo das pessoas, um pouco de higiene. Porque, repito, não havia absolutamente nada, as pessoas estavam muito deprimidas, nem sequer circulava dinheiro, era tudo à base de trocas. E aos poucos fomos construindo o Centro Nutricional, depois fizemos uma Escola de Ofícios, e agora estamos com muitos projetos. A Carpintaria é sustentável, a Escola funciona muito bem, ensinamos eletricidade, trabalhos em alvenaria e damos aulas de inglês. Depois, finalmente começamos a construir um Hotel muito pequeno. Isso levou-nos a dar aulas e formações em hotelaria e turismo que foram um grande sucesso. Foi maravilhoso porque as pessoas nunca tinham visto um copo de água ou de vinho, e aprenderam a servir vinho. No final, quando abrimos o Hotel, que esteve a funcionar durante um ano, tínhamos 20 pessoas a trabalhar, fardadas, capazes.
Qual foi a vossa motivação para realizar um projeto num lugar tão recôndito?
Éramos quatro pessoas, que depois se tornaram patronos da fundação, alguns saíram, vieram outros, mas esse foi o núcleo que criou uma fundação de cooperação num local sem eletricidade, sem nada. E, portanto, é quase como digo, loucura. Costumo dizer que, como não sabíamos que era impossível, conseguimos. E claro, tem a ver com a idade, que quanto mais jovens, mais inconscientes. Temos mais ânimo, vontade de fazer coisas. Eu tinha 48 anos, agora tenho 71. Este projeto nasceu como uma crítica às Organizações Não Governamentais, ou seja, do lado sempre muito assistencialista. Nós vínhamos do setor privado, procurávamos um local para desenvolver com ferramentas da empresa privada, com incentivos, mas não queríamos ser assistencialistas, nunca demos esmola. Às vezes sim, mas o princípio da Fundação era não ser assistencialista. E dentro dessa motivação, vimos o Ibo como um microcosmos, porque uma das nossas ideias, e o meu verdadeiro sonho é dentro de algum tempo, porque tudo é muito lento, conseguir tirar conclusões que possam ser replicáveis num outro lugar. Considero que o que foi feito em África foi muito mal feito. Usaram montanhas de dinheiro, e não é um problema de dinheiro, é um problema de gestão – e é aqui que estamos todos com muita dificuldade. Temos uma pequena parte, como dizia, de assistencialismo, porque não há outra solução, mas continuamos a conservar o nosso ADN que incentiva as pessoas a acabarem por ser donas dos seus pequenos negócios, a ser proprietários do seu destino.
A ideia do microcosmos é pelo Ibo ter uma população pequena e relativamente estável, mesmo agora com a situação dos deslocados. O Centro Nutricional fica ao lado da Escola de Ofícios e das Oficinas de Costura das mulheres, tudo fica perto e as sinergias entre os diferentes projetos são muito grandes. Por exemplo, quando ensinamos informática, essa pessoa provavelmente vai para o Centro Nutricional gerir os dados dos utentes. No final, queremos tirar conclusões que possam contribuir para o que é a cooperação internacional, que, do nosso ponto de vista, tem sido um grande fracasso em África. Pode parecer um pouco utópico, mas é por isso que estamos realmente a lutar, e isso faz parte da motivação.

Passados 20 anos, dois furacões (Kenneth e Idai), e ainda com uma crise latente em relação à situação de terrorismo no norte do País, como estão as coisas?
Na ilha nunca houve nenhum ataque, houve alguns em Matemo, na ilha vizinha, mas no Ibo não. O Ibo é um marco histórico, um lugar especial em Moçambique. Neste momento, os militares ocuparam a Fortaleza de São João Baptista, ou seja, a ilha está militarizada, mas as pessoas levam uma vida normal. Quanto à população atual, quando chegámos havia 15 ou 20 mil pessoas, mas houve épocas em que não sabemos e o governo também não fazia essas contagens. O Ibo sempre foi um refúgio para as pessoas do Continente, houve muitos deslocados e pessoas que foram para outros lugares. É difícil saber, mas houve momentos em que os 15 mil se tornaram em 50 mil, ou seja, é tremendo! Isso causou, e continua a causar, uma grande pressão no Centro Nutricional. As pessoas chegam sem nada, com crianças desnutridas, e temos aí um trabalho muito intenso. De um ponto de vista positivo, costumo dizer que temos uma vantagem, como o Ibo sempre foi uma ilha de pescadores, e estes deslocados são mais agricultores, os nossos projetos agrícolas melhoraram. As pessoas sabem plantar, entendem de sementes, e isso reforçou os projetos agrícolas, que são cada vez mais importantes. Um dos outros aspetos do desenvolvimento é através da arte e da cultura, e antes da ocupação da Fortaleza pelos militares, fizemos um Museu Marítimo, que agora está fechado, criado por um colaborador que tinha sido diretor do Museu Marítimo de Barcelona. Este espaço tem os diferentes modelos de embarcações, fotografias com o processo de construção dos barcos de pesca, transportes, e isso elevou muito a autoestima das pessoas, porque têm os seus barcos expostos.
Qual é o vosso principal valor?
O maior valor da Fundação é que permanecemos lá onde estamos há 20 anos. Passámos por dois ciclones, com várias tempestades fortes, mas quando foi o Kenneth (2019), que praticamente destruiu toda a ilha, pensei “todo o nosso trabalho foi por água abaixo”. Mas depois vi que as pessoas estavam mais preparadas e aptas para enfrentar esta desgraça. Sim, perdemos tudo, mas lutámos muito para não ir embora.
E agora como está o turismo?
Atualmente é zero, e foi esse o problema. Tivemos de fechar o nosso Hotel, pois o turismo em toda a zona acabou completamente e as ONG também foram embora. Nós fomos dos poucos que ficamos, e agora somos o braço executor de outras organizações, como a Cruz Vermelha ou a UNICEF. Quando, por exemplo, querem fazer poços, pedem à Fundação, pois nós somos a referência no Ibo para essa logística e construção.
O pior já passou?
Sim, o pior já passou. Temos uma ameaça que é o terrorismo, ninguém sabe o que pode acontecer, mas o que era mais difícil, nós já fizemos. Graças à inconsciência de que falávamos antes, fizemos o mais difícil, que é estar sempre presentes. Não vamos embora, temos toda a confiança da administração e do povo, fazemos parte da comunidade. E isso foi difícil de conquistar, porque no início havia muita desconfiança, como que “chegam aqui uns espanhóis que não sabem nada de nada” e agora compreendem-nos.
Dos projetos que têm em mãos qual destaca como o maior desafio e qual poderia ser replicado em outras localidades e territórios de Moçambique e África?
Começámos por fazer projetos diferentes, o Centro Nutricional, a Escola de Ofícios, Carpintaria, o Hotel, embora esteja fechado, o Centro da Mulher, com oficinas de costura. E pensávamos que eram projetos separados, mas agora a nossa ideia é que tudo é um único projeto. Ou seja, todos estes projetos por si só não valem nada. As ONG fazem projetos em educação porque acreditam que é importante, mas não é verdade! Só com educação não se vai a lado nenhum, ou só com nutrição não se desenvolve. O mesmo com o empoderamento das mulheres. É uma combinação de tudo, e essa combinação é o que permite o desenvolvimento. Nesse quadro de projetos, o maior desafio está nos meios de subsistência, o que significa que queremos formar as pessoas, e estamos a fazê-lo, mas é difícil formar para que tenham a sua pequena loja, o seu pequeno comércio. Ou possam estudar fora para criar algo. Isso é o que nos custa mais, os pequenos negócios que vão dar vida ao que ensinámos. Não incentivamos o associativismo, mas concedemos alguns microcréditos, o que ainda não está consolidado. Esse é o nosso maior desafio, mas sem boa nutrição, sem boa higiene, boa formação e assim por diante, nada funciona!
Qual é o objetivo central da Fundação Ibo?
A nossa missão é irmos embora! Quero dizer, nós não queremos ficar lá para sempre. Isto pode parecer um pouco utópico – queremos dar um impulso a esta sociedade para que ela possa funcionar sozinha. Temos um patrono que diz sempre que o nosso objetivo é “irmos embora”. A ideia é que eles caminhem sozinhos que todos tenham meios de subsistência, é por isso que estamos a lutar. É um caminho longo, em 20 anos avançámos pouco porque as coisas são muito difíceis, e certamente será necessária a continuidade de muitos mais anos para tal.
No passado mês de novembro a Fundação esteve na Sociedade de Geografia de Lisboa, onde apresentou os resultados da parceria com a STET juntamente com o lançamento do livro e a exposição Mwani, um povo do mar. Está previsto essa mostra regressar a Lisboa?
Sim, vamos voltar em fevereiro a Lisboa, ao Corte Inglês, com a mostra de Joan Alemany Llovera que apresenta uma visão da cultura Mwani, uma comunidade com tradições marítimas ancestrais e uma identidade muito ligada à costa norte de Moçambique. Os Mwani são navegadores bastante nómadas, não só do Ibo, mas das ilhas adjacentes e de todo o arquipélago das Quirimbas. É uma etnia muito especial, pois navega da mesma forma há 600 anos, com os mesmos materiais, o mesmo tipo de barcos.
A parceria entre a STET e a Fundação Ibo representa um investimento contínuo na capacitação profissional dos jovens de Cabo Delgado, entre os 15 e os 25 anos, e contribui para o desenvolvimento sustentável e criação de oportunidades de emprego na região. Entre março e julho de 2025, houve um programa de formação de mecânica, motores, soldadura, segurança no trabalho e competências pessoais. Dos principais resultados a maioria dos formandos (88%) concluíram o curso com sucesso, registaram melhoria de competências técnicas e académicas e foram iniciados processos de ligação com empresas para estágios e empregabilidade, incluindo TWIGG, Perhestia Trading, Nacala Logistics e Luwire. A colaboração com a STET tem sido impressionante, não são um doador qualquer, é uma organização que está absolutamente comprometida com a nossa Escola de Ofícios. Enviou-nos máquinas, ferramentas de trabalho, formação para os manuais de instrução e como arranjar as máquinas. É uma empresa que não só nos dá apoio financeiro, mas que está muito comprometida com as aulas e com a escola profissional, especialmente com a mecânica.



