A COVID-19 é um imbróglio para quem lidera

Um sábio economista foi contratado pelo cauto governante. Um dia, o cauto governante perguntou ao sábio economista se haveria ou não uma recessão. O sábio disse ao governante que sim – haveria uma recessão. O governante tomou medidas drásticas e impopulares, pelo que a recessão não ocorreu. Sentindo-se enganado, o cauto governante despediu o economista. Este tipo de paradoxo está presente em inúmeras decisões de liderança. Ao tomar uma decisão difícil e impopular, o líder evita um resultado perigoso. A posteriori, como o perigo não se concretiza, os liderados e os observadores podem considerar que a medida drástica não era, afinal, necessária. Imagine-se o líder de um país que toma medidas extremas para proteger os cidadãos da COVID-19, daí resultando uma pequena quantidade de vítimas. Este sucesso poderia, a posteriori, ser usado para acusar o líder de que se excedeu nas medidas e foi híper reativo! Naturalmente, esta acusação não emergirá na atual crise porque a experiência dos outros países não deixa dúvidas sobre a necessidade de medidas drásticas. Mas imagine-se o que ocorreria se a crise estivesse circunscrita a um só país. Este paradoxo não tem solução: é necessário viver com ele. Após uma decisão ser tomada, sabemos as suas consequências, mas não sabemos o que ocorreria se decisão alternativa tivesse sido tomada. Os líderes organizacionais enfrentam, frequentemente, paradoxos do mesmo teor.

É possível que o leitor interprete esta discussão como estéril. Não creio que o seja. Se não reconhecermos como normal a inevitável presença dos paradoxos na vida dos humanos em sociedade, continuaremos menos capazes de minorar riscos. Eis um exemplo. Em 2018, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou uma lista de agentes patogénicos que necessitariam de atenção científica urgente. Todos eram vírus, nenhum era tratável ou alvo de vacina, e todos poderiam transformar-se em pandemias mortíferas. Após discussão, os especialistas da OMS acrescentaram uma nova condição: a “Doença X”, uma possível epidemia internacional séria causada por um agente patogénico então desconhecido. Foi também sugerido que se trabalhasse para enfrentar essa possibilidade.

O próprio Bill Gates, no âmbito da sua atividade filantrópica, acentuou (abril de 2018) que uma “uma ampla e letal pandemia” poderia ocorrer “durante as nossas vidas”. Gates apelou a um esforço global coordenado para combater essa potencial catástrofe. Alertou para a necessidade de um sistema de deteção precoce, assim como para a criação de melhores ferramentas e a implementação de uma resposta sistémica. E sugeriu que o mundo se preparasse para uma pandemia do mesmo modo que os militares se preparam para a guerra. Gates, que se intitula como otimista (no sentido de acreditar que a sociedade humana seria capaz de se preparar para a “próxima grande pandemia”), dava assim mostras do seu … pessimismo. Há, na sua abordagem, uma combinação paradoxal de otimismo e pessimismo – aquela de que porventura necessitamos para enfrentar mais eficazmente a próxima crise (sim, a próxima!).

Este paradoxo está associado a outro, acima citado: se se tivessem alocado doses massivas de recursos à prevenção da “Doença X”, e a intervenção tivesse sido eficaz, poderiam emergir argumentos de que essa intervenção fora excessiva e híper reativa! Agora que a doença tem um nome e uma face real, é fácil afirmar que não – que todos compreenderíamos a necessidade dessas medidas drásticas. Mas faça o leitor um exercício: imagine o que teria ocorrido se, no dia 1 de janeiro de 2020, com base na evidência chinesa e nos alertas da OMS e de Gates, um líder político tivesse aventado a necessidade de declarar o Estado de Emergência.

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Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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