A cunha portuguesa

Já se sabia que o Governo português manifestou a sua “não concordância” com a escolha independente de uma candidata para o cargo de procuradora europeia. O que não se sabia é que, como dizia a imprensa deste fim de semana, a carta em que era defendido outro candidato, menos bem classificado, continha erros no CV. Não sei porquê mas isto fez-me lembrar dois textos com que contactei no período natalício.


Um é o livro agora editado pela Guerra e Paz que se chama Anatomia da cunha portuguesa. Baseado na tese de doutoramento de João Ribeiro-Bidaoui, o livro faz a análise da proveta instituição informal. Uma justificação comum para o recurso à cunha é a ineficiência do sistema, o abuso do poder do burocrata, a necessidade de reciprocidade. Mesmo reconhecendo que o seu uso pode gerar favorecimento, a cunha é sempre justificada. Por aquele que a usa.

Li também A aventura do jeito, uma crónica de Miguel Esteves Cardoso. Nela se conclui que o nosso povo pode não ser dado a encontrar grandes remédios para as coisas mas está sempre pronto para dar um jeitinho. Para desenrascar qualquer coisa. Não é certamente por acaso que chamar enrascado a um português é uma grande ofensa. Um português enrascado é como um inglês sem sentido de humor britânico ou um italiano que não usa as mãos para falar, uma anormalidade. Voltando ao procurador, se o recurso ao jeitinho chega lá acima, então temos de discordar de Ribeiro-Bidaoui quando diz que não há fatalidade na cunha. Há pois: é fatal como o destino. Como diz o MEC, o nosso jeitinho é plurissecular. Permito-me acrescentar que, no caso português, caminha mesmo para o pluri-milenarismo.

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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