A desconfiança nas instituições e a emergência do populismo

Não é por acaso que é em situações de crise que o populismo tem a oportunidade de crescer. As crises são, por definição, momentos difíceis. E como momentos difíceis que são, deixam as pessoas frustradas com o status quo e mais vulneráveis aos vendedores de banha da cobra. Agora o leitor imagine uma “crise” que dura há 40 anos e que, ano após ano o leva a uma estagnação ou mesmo perda de poder de compra, enquanto que para “alguns”, as coisas nunca estiveram tão boas? Como se sentiria? Zangado? Revoltado? Bem-vindo ao mundo do antissistema.

A crescente massa de pessoas que vai ficando para trás com o aumento das desigualdades, fica à mão de semear dos partidos/movimentos antissistema. No que diz respeito a Portugal, o PCP há muito que perdeu a aura de solução e vive num paradigma anacrónico que morreu com a queda do muro de Berlim. O Bloco de Esquerda, o partido antissistema que mais lutou nos últimos anos para ser sistema, perdeu a aura e, à boleia de partidos (?) como o Livre, colaram à esquerda que poderia cativar estes descontentes, uma imagem de quem se esqueceu que a condição económica continua a ser um fator de discriminação muito maior do que raça ou género. Sobra o Chega.

Isto não tem a ver com o conteúdo dos programas. Ninguém acredita neles. É nisto que resulta a falta de confiança das pessoas nas instituições. Nos debates perguntam a Andre Ventura qual a sua ideia para a Europa e ele põe a cassete do costume e não diz nada que não seja bater no status quo. Que é o que as pessoas querem ouvir. Não é muito diferente do fenómeno que levou Trump ao poder. Ele também concorreu com um programa de cortar impostos aos ricos e benefícios aos pobres. Em que estrato económico ganhou mais votação face a Obama vs Romney? Precisamente nos mais pobres. Porquê? Porque mais uma vez as pessoas já não acreditam em programas. Acreditam em imagens que são construídas pelos próprios e pelos canais de comunicação social. Empatizam com sentimentos e não com programas. E quem era Trump? Era o candidato que dizia que iria secar o pântano que era a capital dos EUA. Que ia prender Hillary Clinton – aquela que era provavelmente a candidata a presidente mais bem preparada da história dos EUA mas, por isso mesmo, um símbolo maior do sistema dos últimos 40 anos que essas massas sentem que lhes falhou.

Existe uma larga parte da população cujos pais foram os primeiros a sair da quinta e a irem para as cidades. Estudaram qualquer coisita e foram trabalhar para o steel mill. Compraram frigoríficos, televisões, carros e passavam férias na Florida. Ascenderam à classe média. A geração a seguir, que nasceu nos anos 60-70, fez exatamente o que fizeram os pais. Acabaram o liceu e foram para a fábrica. E caíram da classe média para o fundo da distribuição. Estão zangados e são fortemente antissistema. A globalização trouxe enormes ganhos de bem-estar, mas obviamente teve fortes efeitos redistributivos. 90% dos americanos aumentaram cerca de 15% o seu rendimento real em 40 anos. 50% dos americanos estão hoje piores do que estavam nos anos 70. CEO que nos anos 70 ganhavam cerca de 15 a 18 salários medianos da sua empresa, ganham agora 300. A classe média (medida como o intervalo definido por um desvio padrão para cima e para baixo relativamente ao rendimento mediano) encolheu de cerca de 57% das famílias para cerca de 45%.

Obviamente que isto é tudo acerca dos EUA. Mas muitas das dinâmicas são semelhantes, apesar de alguns timings diferentes. Quando se vê nas sondagens que o Chega está perto dos 10%, será isto reflexo de uma viragem à extrema direita do povo português? Do aumento do racismo e xenofobia? Ou será efeito da degradação económica de boa parte da população? Que é antissistema e que não encontra à esquerda quem lhes sinta as dores? É por aqui que André Ventura tem crescido. Com o paradoxal apoio de uma esquerda que não percebe que é mais fácil uma mulher negra e estrangeira, mas rica, conseguir ficar a dever 570 milhões à banca, do que o Zé Manuel, homem branco mas pobre. É óbvio que raça, orientação sexual e género são fatores de discriminação. Infelizmente. Mas para que possamos sobreviver ao populismo, não se esqueçam da classe.


Por Pedro Brinca, professor na Nova SBE

[O artigo pode ser lido na íntegra na edição de outubro, em banca, da revista Líder]

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