A era do controleiro

As novas tecnologias digitais e a Covid-19 vieram reavivar a curiosa figura do controleiro. O controleiro é aquele que em nome de algum bem maior aconselha os outros sobre aquilo que eles devem fazer. Por bem e para seu (deles) bem. O controleiro sabe o que é melhor para si e para os outros. Por isso não hesita em pastorear a turba na direção de prados mais verdes. Já todos tivemos as nossas experiências com controleiros, que assumem várias formas:

  • O chefe autocrata que sabe o que é bom para os seus “colaboradores”;
  • O vizinho que espreita por trás da cortina para ir dizer aos nossos pais o que fizemos quando eles não estavam em casa – por tanto gostar de nós, naturalmente;
  • O navegador das redes sociais que se indigna com as injustiças do mundo mas que beneficia do status quo contra o qual se manifesta;
  • Os signatários de abaixo-assinados que lutam contra as ideias erradas – porque as ideias diferentes das suas só podem ser erradas e perigosas;
  • O beato que descortina os pecados dos outros mas justifica e perdoa os seus;
  • O jornalista transformado em catequista;
  • O professor universitário feito propagandista, que em vez de explicar o mundo prefere corrigi-lo;
  • Tendo tido a oportunidade de ensinar em Cuba, ouvi ainda o caso dos comités de bairro que vão de rua em rua lembrar que em dia de eleição é preciso ir votar – no partido certo, claro, que também não havia muito por onde escolher.

O que define a figura do controleiro é a sua inclinação para meter o nariz onde não é chamado e o facto de, em nome das suas superiores crenças, querer obrigar os outros a fazer e a dizer aquilo que ele quer, em vez de deixar os outros fazerem o que lhes apetece. Entre as superempresas do capitalismo neoliberal e as vanguardas da nova intelligentsia política radical, a escolha é pouco atraente, com super-controleiros de todos os lados. Escrevi aqui a semana passada sobre os novos vigilantes oficiais do discurso do ódio. Serão a guarda avançada da espécie. Com meios com que os seus antecessores nunca sonharam vão-se tornar mais fortes. Estamos pois a entrar na idade de ouro do controleiro. Para bem de todos, naturalmente. Agora sim, podemos dormir descansados.

Para um olhar sobre este admirável mundo novo:

Zuboff, S. (2019). The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: Profile Books.

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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