A grande divergência

A China anunciou há um par de semanas a proibição de futebolistas tatuados nas suas seleções de futebol. A medida assume que os jogadores devem ser um bom exemplo para a sociedade. A diretiva é comunicada num documento com o título “Sugestões para o fortalecimento da gestão de futebolistas”. Esta indicação vem em linha com outras do partido único chinês, como por exemplo as que visam defender a masculinidade dos rapazes. O fortalecimento da nação leva o Estado a interferir de forma explícita nas liberdades pessoais, definindo o que é permitido e o que é proibido.

A Ocidente trilha-se a via oposta. Enquanto a Oriente se afirma o nacionalismo, a Ocidente as ortodoxias culturais desafiam qualquer sentido de orgulho pátrio. Os países ocidentais são por isso apresentados como os locais onde se realizaram todas as malfeitorias do mundo, cabendo por isso aos contemporâneos assumir as culpas da História.

É possível que os dois caminhos estejam errados. O primeiro, com os seus excessos centrípetos é um ataque à liberdade individual. O segundo, com excessos centrífugos, arrisca-se a deslaçar qualquer vínculo coletivo, substituindo a comunidade nacional por tribos sem capacidade de comunicarem entre si. As sociedades democráticas não devem ter excesso de forças centrípetas nem centrífugas: devem equilibrá-las. As sociedades abertas aceitam as vozes radicais (todas e não apenas as mais próximas) porque estas têm um papel importante, mas não se deixam amedrontar por elas.

Importa por isso discordar dos fundamentalistas de todas as crenças e rejeitar tão vigorosamente quer a intromissão de um Estado que tudo regula quer a pressão dos arautos das novas igrejas laicas da Verdade Universal, a qual desejam impor à força. A uns e a outros é bom afirmar: Não, obrigado.


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

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