A influência da ciência no combate às alterações climáticas

Na atualidade, cerca de 80% das fontes primárias globais de energia, são combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás natural. Durante o século XVIII e parte do século XIX, não havia qualquer conhecimento de que a utilização, em larga escala, dos combustíveis fósseis para gerar energia traria um problema ambiental. Só no século XIX, após a descoberta do efeito de estufa pelo físico e matemático francês Joseph Fourier em 1824, se concluiu que existem na atmosfera alguns gases com efeito de estufa, ou seja, que absorvem e emitem radiação infravermelha – dióxido de carbono, vapor de água, metano e outros. No final do século XIX, Svante Arrhenius, um cientista sueco, sabendo que a combustão dos combustíveis fósseis emite grandes quantidades de dióxido de carbono para a atmosfera, calculou qual seria o aumento da temperatura média global, provocado pela duplicação da concentração do CO2 na atmosfera. Concluiu ser quatro a cinco graus Celsius e escreveu que seria um bem-vindo aquecimento porque vivia na Suécia! A combustão dos combustíveis fósseis tem esta consequência colateral e inadvertida de aumento do efeito de estufa da atmosfera, ou seja, de provocar o chamado aquecimento global. As alterações climáticas manifestam-se através do aquecimento global e também por uma maior intensidade e frequência de fenómenos extremos, tais como, ondas de calor, precipitações elevadas em intervalos de tempo curtos, secas, como acontece em Portugal nos últimos anos, especialmente no sul do país, e ainda pela subida do nível médio global do mar. Se não for possível reduzir as emissões antropogénicas de dióxido de carbono e de outros gases com efeito de estufa, como o metano e óxido nitroso, vamos ter um clima progressivamente mais violento e inóspito que irá agravar o bem-estar e a prosperidade económica de grande parte da humanidade. É um processo relativamente lento mas inexorável que afeta sobretudo os mais jovens e as futuras gerações.

Esta narrativa da ciência tem tido grande dificuldade em influenciar o poder económico, financeiro e político e os cidadãos a nível mundial porque a solução do problema passa inevitavelmente por uma transição energética para as energias renováveis e a indústria dos combustíveis fósseis é a mais poderosa no mundo. A narrativa da ciência é negada, desacreditada e combatida, o que tende a confundir grande parte da população humana. Nos meios políticos que apoiam o atual governo dos EUA, a ciência das alterações climáticas é considerada o paradigma da “bad science” ou “politicized science” por oposição à “good science” ou “solid science” que em lugar de prejudicar, favorece os interesses das grandes empresas industriais e tecnológicas.

Concordo inteiramente com o ponto de vista de os cientistas terem a obrigação ética de alertar a sociedade para os riscos crescentes das alterações climáticas e por essa razão assinei o manifesto World Scientists’ Warning of a Climate Emergency publicado na revista BioScience em 05 de novembro. Considero que na sua atividade profissional, os cientistas têm a estrita obrigação de se restringirem a comunicar e explicar as projeções do clima futuro e dos seus impactos, incluindo a incerteza associada. Cabe aos cidadãos eleitores e aos governos, às empresas e a todas as organizações não-governamentais decidir o que fazer.

Por: Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável/ CNADS

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