Com alguma facilidade, caímos na armadilha do julgamento. Avaliamos as ações dos outros apesar de não gostarmos que os outros façam o mesmo em relação a nós.
O problema é sério porque, quando avaliamos, tendemos a incorrer no chamado erro fundamental da atribuição: valorizamos mais a agência de quem faz do que as circunstâncias que tantas vezes explicam aquilo que fazemos.
Neste mês que dedico ao futebol, trago aqui o caso de Loris Karius, guarda-redes alemão que deu nas vistas, por más razões, na final da liga dos Campeões de 2018 ao serviço do Liverpool. Sofreu dois golos esquisitos e imediatamente ganhou a reputação de frango ou frangueiro, no jargão futebolístico. Tornou-se, no dizer de Marco Vaza, que sobre ele publicou um excelente texto no Público, um jogador maldito. Ora, sabe-se hoje que antes de sofrer aqueles golos, Karius havia sido atingido na cabeça por Sergio Ramos (do Real Madrid). Depois do jogo, Franz Beckenbauer ligou ao treinador do Liverpool, Jurgen Klopp, com um aviso: o teu jogador, disse, sofreu uma concussão. Um exame confirmou, cinco dias depois, 26 dos 30 sintomas de uma concussão. Para Karius, todavia, o mal estava feito.
Este ano, Karius foi uma das figuras do Schalke, um clube tradicional da Alemanha, vencedor da segunda divisão, que assim regressa à Bundesliga. Gosto desta história porque ela nos deixa um aviso: não sejamos demasiado severos na apreciação dos outros, porque pode haver para o seu comportamento razões que desconhecemos. Por isso, recordemos o mandamento: não julgarás.

