A agricultura portuguesa está a viver uma transformação profunda. Nas últimas três décadas, a produtividade do trabalho agrícola aumentou 277%, os salários do setor cresceram mais de 50% na última década, bem acima da média da economia nacional. O complexo agroflorestal representa hoje 5,1% do PIB, gera 9,4 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto, assegura 456 mil empregos e exporta 15,2 mil milhões de euros.
No entanto, por detrás destes resultados esconde-se um dos maiores desafios de liderança que Portugal enfrenta: quem vai assegurar a gestão das explorações agrícolas, produzir alimentos e gerir a floresta nas próximas décadas?
A idade média da mão-de-obra familiar agrícola passou de 46 para 59 anos em três décadas e apenas 12% dos gestores agrícolas da União Europeia têm menos de 40 anos. A renovação geracional deixou de ser um tema setorial para se tornar uma questão estratégica para a competitividade, a segurança alimentar e o desenvolvimento económico do país.
É precisamente esta reflexão que esteve no centro do B-Rural Summit, promovido pela CONSULAI, a 23 de junho, em Lisboa. Falámos com Rui Almeida, Diretor Operacional, Sócio-Gerente e Diretor da Área de Marketing e Comunicação da CONSULAI, sobre por que razão a agricultura precisa de uma nova geração de líderes e não apenas de novos agricultores, sobre como um dos setores mais tecnológicos da economia continua a enfrentar um défice de atração de talento, e sobre o que está verdadeiramente em jogo se Portugal não agir.
Olhando para a agricultura hoje, que já tem drones, dados e automação, por que persiste ainda a ideia de que é um setor tradicional?
É uma questão muito importante e nós achamos que tem muito a ver com a percepção. Existe ainda uma percepção de que a agricultura é um setor muito tradicional, mas isso acaba por não ser verdade. E existem várias razões que explicam este desfasamento.
No fundo, se dissermos que praticamente três quartos do nosso território — estamos a falar do território rural — estão ocupados por agricultura e por floresta, e depois sabemos que setenta por cento da nossa população vive nas grandes cidades, existe aqui um desfasamento claro sobre o que acontece no território. E há também uma questão geracional. O meu avô tinha uma quinta no Norte e eu no verão ia lá sempre passar as férias, quase que obrigado, por vezes, mas eu até gostava.
Ia-se à terrinha, era a expressão que havia. Depois, entretanto, os avós morreram, a casa foi vendida e as minhas filhas já perderam essa ligação. E isto acontece com muita gente. Esta ligação à terra, dos avós, perdeu-se. As pessoas vivem muito nas grandes cidades, são todos os dias desafiadas com coisas novas e o setor agrícola e florestal ficou esquecido.
Mas também ficou esquecido por culpa do próprio setor.
O setor não soube comunicar?
Exatamente. Houve ali um hiato de tempo em que o setor deixou de comunicar. E isso criou este afastamento e esta percepção de que a agricultura ainda é feita de enxadas, como os nossos avós a faziam. Sabendo que isso, atualmente, não é verdade de todo.
A agricultura é uma agricultura muito moderna. Aliás, no B-Rural tínhamos um claim logo ao início que era bastante direto: «A agricultura evoluiu, só você é que não viu.» Era um bocadinho de choque, não é? Era mesmo para ir de frente. Porque foi isso que aconteceu: a agricultura evoluiu muito, só que não se viu por alguma culpa do recetor da mensagem, mas também por grande culpa do emissor, que era o próprio setor.
Estamos então a falar de um rebranding profundo, para tornar o setor mais apelativo, à semelhança do que aconteceu com outros setores tecnológicos?
Eu diria que o setor precisa de contar a sua história. É uma história de evolução brutal nos últimos anos. Quando digo brutal, é mesmo uma revolução tecnológica, uma revolução digital. Historicamente, a agricultura é sempre o setor que mais demora a absorver novas tecnologias. Foi assim com a internet, foi assim com tudo. Demorou um bocadinho, mas agora está num ritmo estonteante: com sensorização, com drones, com tratores autónomos, com robotização, com inteligência artificial, com algoritmos preditivos. É uma loucura, atualmente. Só que isto ainda não está a ser transmitido.
Foi para isso que surgiu a iniciativa B-Rural. Nós, na CONSULAI, somos uma empresa de consultoria agrícola, agroindustrial e florestal, e sentimos que devíamos devolver algo ao setor que tanto nos dá. Fomos desafiados pelas principais associações e confederações – «vocês deviam iniciar uma campanha destas» -, e, com o seu patrocínio, começámos este trabalho há três anos, a tentar desmistificar os mitos existentes e a contar a história do nosso setor, mostrando como ele é atrativo para as novas gerações, que é quem queremos captar.
Os salários têm vindo a crescer acima da média da economia no setor. Isso já é, por si só, um argumento suficiente para atrair a nova geração?
Os salários têm vindo a aumentar a uma taxa bastante superior à de outros setores de atividade. É uma realidade. Muito também pela formação, pois as pessoas jovens e formadas que têm vindo para o setor elevam o patamar. Mas também porque as empresas se tornaram muito mais profissionais, muito mais competitivas. A partir do momento em que começamos a trabalhar numa componente mais digital, atraímos outros perfis de profissionais que, naturalmente, exigem outro tipo de remuneração. A média salarial tem aumentado bastante no setor agrícola, e isso a uma taxa superior à dos outros setores.
Com apenas 12% dos gestores agrícolas da União Europeia abaixo dos 40 anos, a articulação com as instituições académicas parece fundamental. O setor está a trabalhar nessa frente?
Esse é precisamente o problema da renovação geracional. E importa deixar clara a mensagem que queremos passar: não estamos apenas a querer substituir quem sai. O que queremos mostrar é que o nosso setor é atrativo para as novas gerações e a pergunta que surge sempre é: «Atrativo para quem?»
Não é só para engenheiros agrónomos, engenheiros alimentares ou engenheiros florestais. A exigência atual, pela diversidade que temos, passa por captar analistas de dados, gestores, engenheiros aeroespaciais – que já temos a trabalhar em muitas explorações agrícolas -, engenheiros mecânicos, profissionais de comunicação e de marketing. Toda esta gente é agora necessária. Quando falamos de renovação geracional, falamos disto.
Neste momento, os jovens estão a fazer os exames nacionais e a escolher as suas universidades. Estamos a trabalhar para que numa das cruzinhas possam pôr o setor da agronomia, florestal ou alimentar. Mas também queremos atrair quem já acabou o curso de gestão, de marketing, de comunicação, de engenharia de dados. E estamos a dizer-lhes: atenção, não só há espaço, como nós precisamos de vocês. E, como disse, com uma remuneração já muito mais atualizada.
Que competências vão definir o líder agrícola do futuro? Mais engenharia, mais tecnologia, mais gestão, ou a combinação de tudo?
Vai ser a combinação de tudo. Hoje já temos um setor onde cerca de metade dos agricultores têm mais de sessenta e cinco anos. Mas o futuro vai ser o inverso disso. Vamos ter profissionais mais qualificados, mais tecnológicos, mais orientados para a gestão e competitividade das empresas e integrados em cadeias de valor cada vez mais complexas.
O produto, desde que é semeado na terra até que chega à prateleira de um supermercado, passa por toda esta cadeia de valor. Pense numa alface, numa batata – só o trabalho que leva até chegar às prateleiras já é bastante complexo. Mas se formos falar dos produtos transformados, com que lidamos todos os dias desde o pequeno almoço – o pão, o queijo, o fiambre, a manteiga, o leite, o café – são todos produtos agrícolas transformados, com cadeias de valor altamente complexas e exigências múltiplas, não só a nível de tecnologia e saber fazer, mas também com os novos desafios europeus de produção mais sustentável, mais eficiente, mais amiga do ambiente, de fazer mais com menos recursos.
A complexidade é imensa. Vamos passar de uma atividade mais braçal para uma atividade muito mais de pensar, de análise crítica, de estratégia e digital.
Que riscos corre Portugal se não acelerar esta renovação geracional na gestão agrícola e florestal?
É um risco muito grande e já vemos sinais disso.
Temos um défice agroalimentar que anda a rondar os cinco mil milhões de euros. Estamos a importar muito. E há áreas onde esta dependência externa é mesmo estrutural. Se não houver esta renovação geracional, a tendência só pode agravar-se: menos produção interna, maior dependência externa e, acima de tudo, maior exposição a crises, como esta crise geopolítica que estamos a viver agora, maior exposição a preços e à instabilidade global.
E isso é um risco estratégico, porque a alimentação não é um bem qualquer. É uma necessidade básica. Se formos ver algumas das nossas fileiras – os cereais, por exemplo, que é uma área crítica -, o nível de auto-aprovisionamento ronda os dezoito por cento. Se não houver renovação, há menos capacidade de produzir, menos capacidade de inovar e menos resiliência a choques externos. Isto coloca em causa não só o setor, mas o país como um todo.
Por isso, eu nem digo urgência, digo quase emergência. É uma emergência renovar a geração no nosso setor, trazer novas ideias, novas convicções, novos conhecimentos.
A agricultura portuguesa está preparada para integrar automação e inteligência artificial sem perder a identidade territorial e a sustentabilidade ambiental?
Sim, e eu acho que uma coisa casa exatamente com a outra. Existe uma retórica, um dos mitos que queremos desmistificar, que coloca a agricultura de um lado e o ambiente e a sustentabilidade do outro. Importa dizer que a sustentabilidade dos territórios está muito alicerçada na agricultura e também na floresta.
Enquanto antigamente quem lá estava era uma população bastante envelhecida, hoje temos empresas altamente qualificadas e modernas do nosso setor estabelecidas no interior do território, e essas empresas estão a atrair talento. Porquê? Porque os jovens de agora querem trabalhar em algo tecnológico, mas também em algo com que se identifiquem. E se tivermos atividades que são competitivas à custa dos recursos naturais, isso nunca será bem visto por esta nova geração, nem por quem já cá está, que somos nós, os agricultores.
O que temos agora são empresas altamente modernas e eficientes a trabalhar uma agricultura amiga do ambiente, uma agricultura sustentável e tecnológica e isso atrai esta nova geração, que quer fazer mais, melhor, com tecnologia, mas sem impactos negativos no ecossistema que nos rodeia. Já tivemos a revolução verde, da sustentabilidade. Agora é a revolução digital. E é entre estas duas que está a atração dos mais jovens.
Isto também é um papel do Estado. Se a agricultura é estratégica para o país, por que razão a carreira agrícola não é tratada como uma das mais prestigiadas do sistema educativo? O papel do Estado vai mudar?
O papel do Estado sempre foi fundamental, nem que seja pelas políticas públicas. Aqui eu dividiria em dois patamares.
O primeiro, que é muito importante, é que existem apoios ao setor agrícola que sempre foram e continuam a ser essenciais para a manutenção desta atividade. E é muito importante perceber para que servem: os apoios dados aos agricultores existem para que o consumidor possa ter produtos na prateleira a preço justo. Porque se não houvesse esses apoios, muitos agricultores deixavam a sua atividade ou mantinham-na, mas os produtos que temos nas prateleiras – aquela alface, em vez de estar a um euro, teria que estar a quatro ou a cinco euros, com os preços que temos atualmente dos adubos, dos fertilizantes, do gasóleo, da energia. Para manter esse equilíbrio, a diversidade de produtos a preços justos, têm que ser dados apoios aos agricultores.
Mas qual é o problema que temos atualmente para os mais jovens?
O acesso à terra. Existe uma Bolsa de Terras – uma iniciativa interessante do Estado -, mas o acesso continua a ser uma dificuldade. E depois há o financiamento: um agricultor que vai à banca ainda tem imensas dificuldades.
Um banco, nos seus sistemas de análise de crédito e de risco, trata o agricultor como um caso muito difícil porque quem está a financiar não percebe a lógica da agricultura.
Se eu vou plantar um amendoal, só vou começar a ter algum retorno passado oito ou nove anos. Isso não é visto dessa forma perante uma entidade bancária.
Mas há ainda outro nível que quero acrescentar, que pega muito na vertente da educação dos mais novos. Estamos a tentar estabelecer uma ligação com o Ministério da Educação, porque existem ainda muitos manuais escolares – maioritariamente em disciplinas como Geografia ou Estudos Sociais – onde se demoniza muito a agricultura. Chego a ver manuais onde, entre as principais fontes de poluição no país, está listada a agricultura. Isso tem que ser reformulado rapidamente. Esses manuais estão desatualizados há dezenas e dezenas de anos. É um trabalho duro que estamos a tentar fazer não só com o ministério, mas também com os próprios professores. Porque se os miúdos começam a ver isto a partir dos seis, sete, oito anos, é quando começam a formar as suas opiniões. E se a agricultura entra nessa formação como algo negativo, a batalha começa por se perder muito antes de qualquer campanha de comunicação a poder ganhar.


