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Home Entrevistas «A música é sempre um espelho e um reflexo de tudo o que está a acontecer», diz Luís Freitas Branco

Entrevistas

«A música é sempre um espelho e um reflexo de tudo o que está a acontecer», diz Luís Freitas Branco

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20 Dezembro, 2024 | 14 minutos de leitura

Todos sabem que a música foi a acendalha da revolução portuguesa, mas poucos conhecem o verdadeiro borbulhar que antecedeu Abril de 1974. Entre canções de protesto e temas mais populares, a música era um termómetro do que se vivia nas ruas e da vontade de deitar abaixo uma ditadura que sufocava o povo e os […]

Todos sabem que a música foi a acendalha da revolução portuguesa, mas poucos conhecem o verdadeiro borbulhar que antecedeu Abril de 1974. Entre canções de protesto e temas mais populares, a música era um termómetro do que se vivia nas ruas e da vontade de deitar abaixo uma ditadura que sufocava o povo e os artistas.

Foi essa a premissa que levou Luís Freitas Branco, crítico musical e mestrando em Ciências Musicais, a escrever o livro ‘A Revolução antes da Revolução’, acreditando que 1971 foi um ano inigualável na cultura musical portuguesa. A censura rapidamente invadiria o panorama musical da época, o que levou a um esmorecimento da liberdade total de muitas canções, que só após 1974 voltaria a ver a luz. Conhecer o que se fez musicalmente nesse ano é conhecer, verdadeiramente, a revolução.

Em conversa com a Líder, o crítico musical fala sobre a sua primeira obra, o panorama musical português e qual a importância da música em tempos politicamente vertiginosos – do passado e do presente.

 

Enveredaste por esta investigação da música popular portuguesa em 2011. O que te levou a querer aprofundar este tema como tens feito?

A razão acaba por ser um pouco familiar. O meu pai é músico e tinha uma banda de rock nos anos 90, ‘O Pedro e os Apóstolos’, que era bastante reconhecida e teve sucesso. Ser músico popular era a carreira dele a tempo inteiro. O meu avô também tinha uma banda de rock quando era novo, portanto a questão da música popular vem muito por aí, do meu avô e do meu pai que têm esta obsessão da prática musical.

Eu nunca tive jeito nem vontade de me dedicar a tocar nenhum instrumento, pelo que me dediquei à melomania. Desde muito novo que tenho este interesse em querer ouvir discos e saber quem é produtor, quem é o músico, qual é a história por trás das canções, e procurei isso naturalmente na música portuguesa. Achei que iria explorar esta área através do jornalismo, área da minha formação académica, e foi o que fiz durante muitos anos.

Entrevistei muitos músicos e fiz bastantes artigos de investigação, mas em 2020 – uns bons anos depois de me dedicar a ser crítico de música, então em freelance, pois comecei também a trabalhar como consultor de comunicação – percebi que seria interessante fazer artigos mais aprofundados. Tinha tempo fora da redação, sem a pressão característica do jornalismo, e estes foram os primeiros artigos que escrevi, publicados no Observador, numa temática que se colou em volta do ano de 1971 e que resulta agora neste livro. Continuo a seguir este caminho, estando a fazer outra investigação mais profunda sobre a música popular, e estou também a terminar o mestrado em musicologia.

Por onde vai seguir a tua próxima investigação?

Não vou dizer que estou a especializar-se em anos, mas estou a ir por aí outra vez, para falar sobre 2011. Este foi um ano muito particular e acredito que a música desempenhou aí o seu papel mais importante em Portugal, desde que sou gente – em 1971 eu não era nascido, nasci em 1988.

2011 foi o ano em que começou a crise financeira, originada pelo subprime que veio dos Estados Unidos e afetou toda a economia europeia. Isto levou uma banda portuguesa da altura, os Deolinda, a fazer uma canção sobre um problema muito particular, o desemprego entre os licenciados, chamada ‘Parva que sou’. Eles interpretaram a canção no Coliseu do Porto em Janeiro, uma música inédita na altura, não estava em nenhum disco e era só para aquele concerto.

E aquilo disseminou-se de tal forma nas redes sociais, no embrionário do Facebook e do YouTube, que levou quatro jovens a formarem um movimento, que foi a Geração à Rasca, que se traduziu na maior manifestação desde o 25 de Abril. Tudo por causa de uma canção.

Muito pouco depois disto, caiu o governo do José Sócrates, o FMI implementou em Portugal o seu período de intervenção de resgate financeiro e é eleito Pedro Passos Coelho. É um ano fascinante onde a música é sempre um espelho e um reflexo de tudo o que está a acontecer, tanto para a exaltação das ruas como depois para lamentar a entrada do FMI e a eleição de Passos Coelho.

Ainda estou na fase de investigação, quero primeiro formar-me como musicólogo e, se tudo colar e fizer sentido, acho que há de ser interessante tornar-se um livro, e aí até posso dizer que há pontos de contacto interessantes entre 1971 e 2011. Se formos a ver, neste livro sobre 71, há um grupo de cantores que tinha este objetivo de derrubar um regime, falando só do caso da canção de protesto. Existia este objetivo de união e há o grande momento de euforia que é o 25 de Abril. Só que após isso, há uma espécie de refluxo porque cada um acaba por enveredar pelas suas políticas identitárias, pelos seus partidos e há até uma zanga e aquela teia da canção de protesto acaba por se desfazer com o 25 de Abril.

E em 2011 é muito igual. Existiu uma união muito grande entre cantores, a culminar com a Geração à Rasca, onde estava o Solage, o Fernando Tordo, os Homens da Luta, o Tiago Bettencourt… Com a eleição do Passos Coelho, acaba por haver uma zanga, pois não era o objetivo que eles queriam, com toda aquela euforia de rua.

Acaba por ser muito interessante ver esta separação entre o que é a revolução e uma ideia utópica do que nós queremos e transmitimos através da canção e depois a realidade que, por vezes, não coincide com a utopia da canção.

 

 Nove meses depois do lançamento, qual tem sido a repercussão do teu livro? Tem sido o que esperavas?

Eu não tinha grande expectativa porque sempre que escrevo para jornais, a minha expectativa é escrever o texto que eu quero ler. Eu não fazia a mínima ideia se havia interesse nisto, mas, enquanto eu estava a escrever, descobri estas histórias, como por exemplo a prisão do Sérgio Godinho no Brasil, a história das mulheres no canto intervenção ou a canção independente africana, coisas que eu nunca tinha visto em lado nenhum.

Eu estava muito surpreendido como é que isto ainda não se sabia e sentia-me um bocado escandalizado por ter de ser eu, nascido em 88, a contar estas histórias.

Não tinha grande expectativa e a receção foi muito boa. Entretanto, fiz uma série de eventos chamada ‘Aprende a Ouvir Companheiro’ e foi espetacular estar com estas pessoas, como o Sérgio Godinho, a ouvir as suas canções. Fiz roteiros pelo país, fui à Guarda, a Setúbal, um bocado a todo lado, e é giro pois a cada sítio que ia, as pessoas diziam-me que aquele cantor passou por lá, que se reviam naqueles textos, que eu traduzia bem aquele tempo. Estas sessões vão dar lugar a um podcast com o mesmo nome, divulgados para o ano na Antena 1.

Fiz os artigos para saírem em 2021 – que eram os 50 anos de 1971 – e foi então que comecei a perceber que, na verdade, para a música portuguesa, o 25 de Abril foi 71. Houve aquele período até ao 25 de Abril, 1972, 73, 74, que não foi tão efusivo na nossa música porque houve uma censura que foi agravada. O disco do Sérgio Godinho, ‘Os Sobreviventes’, sai no início de 72 e desaparece das lojas, voltando apenas depois do fim de Abril.

No teu livro exploras bastante o ceticismo que existia na época com certas músicas e letras consideradas menos eruditas e mais populares. Qual é a verdadeira importância do género pop?

As canções que vendiam mais na altura de 71 eram as canções românticas – como as do nosso grande, recém-falecido, Marco Paulo, que eu fico muito feliz que tenha participado no livro – as canções folclóricas e o fado.  Essas eram as grandes vertentes de venda na altura e foram importantíssimas para marcar uma posição. Hoje em dia sabemos que não existem essas barreiras, basta ouvir um David Bruno, Pedro Mafama e por aí fora para sabermos que estas fronteiras são ilusórias.

Eu quis marcar uma posição ao começar o livro a falar do Marco Paulo, do Paco Bandeira e da Tonicha, logo no segundo capítulo, o que seria algo absolutamente impensável de fazer há uns anos, porque havia de facto uma batalha campal que persistiu durante muitos anos na música portuguesa. Havia de um lado os ditos cantores de intervenção e do lado absolutamente oposto os cantores ‘popularuchos’ e românticos e esta barreira é evidentemente um reflexo político da época.

Eu acredito que essa barreira é na realidade muito ténue porque, se formos a ver, uma figura central como o José Cid, que fez imensas canções ditas ‘popularuchas’ e pop, fazia ao mesmo tempo canções altamente subversivas e foi dos músicos mais censurados. Todos eles, inclusive o próprio Marco Paulo, sofreram o mesmo que sofreu José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Agora, a forma como eles se traduziam numa arma de canção é que era ligeira e não pesada, mas não deixava de ser uma arma e de expressar a libertação do indivíduo, que era o total oposto de uma ditadura.

 

O Festival da Canção fazia parar o país. Que realidade vivemos no mundo da música atual, com a quase hegemonia das plataformas de streaming?

O Festival da Canção, desde a sua origem e basicamente até hoje, faz sempre a mesma coisa e por isso é que é fascinante acompanhá-lo. O Festival responde à questão ‘O que é a música portuguesa este ano?’. Foi isso que fez em 71 e traduziu-se perfeitamente na vitória da Tonicha, que era a música portuguesa naquele período, e foi isso que continuaram a fazer. Por isso é que é extraordinário ter até ganho em Portugal alguém como o Conan Osiris em 2019, por ser um reflexo absoluto do que estava e continua a acontecer na música portuguesa.

As plataformas de streaming, por um lado, são a democratização total da música, mas por outro não têm curadoria. Quando assistimos a algo como o Festival da Canção, há uma curadoria, pessoas que selecionam e tentam pensar nas cenas musicais. O Conan Osiris, o Salvador Sobral, o Filipe Sambado e o Dino D’Santiago, todas estas pessoas que têm participado são mapeados por críticos de música que sabem qual poderá ser a música portuguesa. Eles encontram vários géneros diferentes para responder a esta questão.

O streaming é um cavalo que corre à parte e que não participa nestes jogos. Todos os anos vejo os dados do Spotify em Portugal, para tentar perceber o que é que está a acontecer no streaming em cada ano, e posso já adiantar que aconteceu uma coisa muito interessante em 2024 que foi o regresso de uma certa hegemonia pop norte-americana que não acontecia há muito tempo. Curiosamente, nos últimos anos temos ouvido sobretudo música brasileira e muito música pop portuguesa. Este ano, com a Taylor Swift, Billie Eilish, entre outros, houve uma espécie de regresso ao pop norte-americano, que é assim a grande tendência que identifiquei nas plataformas de streaming.

 

Esta democratização da música não poderá trazer também certas bolhas e isolamentos musicais, onde se deixa de descobrir música nova?

É sempre uma bolha porque há um algoritmo. A questão é essa, daí a relevância, a meu ver, da crítica de música e de pessoas como eu que fazem crítica musical. Qual é a forma de uma pessoa romper a sua bolha se vive sempre dentro dela? É ter alguém de fora que diz ‘vale a pena ouvir isto’.

E alguém de fora não é alguém da nossa bolha de algoritmo do Instagram ou do Twitter. Por muito boomer que isto possa soar (risos), existe relevância em haver ainda crítica musical e que sites de referência como a Blitz, Público e Ípsilon tenham a sua importância. É a forma correta de uma pessoa sair da sua bolha porque os próprios festivais estão a replicar as plataformas de streaming, cada vez mais. Esta curadoria está a perder-se um pouco nos festivais, mas continua a existir na pouca crítica de música que há.

Sérgio Godinho, Zeca Afonso, José Mário Branco, seriam estes alguns dos líderes da revolução musical de então. Existem líderes na música dos tempos contemporâneos?

É difícil responder a isso porque, na altura, de certa forma estava tudo por fazer. Só nessa época, os três nomes que referiste, juntando o Adriano Correia de Oliveira, mas sobretudo os discos ‘Cantigas do Maio’ de José Afonso, ‘Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades’ de José Mário Branco e o ‘Sobreviventes’ de Sérgio Godinho, são a afirmação do álbum em Portugal. O LP nem sequer tinha uma grande expressão de venda em Portugal, portanto estamos mesmo nos primórdios de tudo. Aquela revolução sónica que o José Mário Branco faz em Paris, aquela sincronia entre os arranjos e a música, de criar uma imagem para cada canção, são uma produção que é reflexo do que já tinha sido feito em Inglaterra e nos Estados Unidos. Foi tudo absolutamente revolucionário.

E hoje temos aquela ilusão de que já está tudo feito. Evidentemente que isso não é verdade, mas é impossível fazer uma comparação com um período onde o conceito de álbum nem sequer estava estabelecido, onde não havia um circuito de concertos e existia censura.

Agora há líderes de streaming, como disseste, e há líderes de tendência. No mês passado entrevistei o B Fachada para a edição da Blitz sobre os 40 melhores álbuns portugueses e ele é um artista que, por exemplo, nunca liderou uma plataforma de streaming. Mas o que ele cantou influenciou diretamente dezenas, centenas de cantores, inclusive vencedores do Festival da Canção.

 

Vivemos uma era cada vez mais politicamente conturbada, com vários conflitos e ideais políticos extremistas. Que papel poderá ter a música, como intervenção e liberação, nos tempos que correm?

Nos Estados Unidos, por exemplo, houve um fenómeno que está a ser pouco comentado, que é muito interessante e que é inverso ao que é normal em Portugal. Houve uma série de canções lançadas antes do Trump ganhar as eleições, de músicos identificados à direita, sobretudo do country, que valorizavam a vida nas pequenas cidades, do ‘antigamente’, que traduziam de certa forma o movimento ‘Make America Great Again’. Estas canções lideraram as tabelas nos Estados Unidos e o country não era líder desta forma há muitos anos e isso foi um índice evidente de que havia uma mudança e a canção apontava para esses caminhos.

Para mim é interessante utilizarmos a canção desta forma, para percebermos que está a borbulhar algo, antecipando as mudanças de paradigma. Em 71 havia uma ditadura, hoje em dia não há isso, há uma dispersão de lutas.  Aqui em Portugal, tenho andado a ir às manifestações da crise da habitação porque sou da opinião que já há um repertório de protestos sobre esta crise e que está, aos poucos, a antecipar algo que está a borbulhar. Algo muito maior, a chegar a um ponto de ebulição, que se calhar não havia desde 2011. As canções têm esse poder de identificação das pessoas e de alterar completamente o paradigma das ruas.

Acho que é interessante utilizarmos a canção de protesto também como um termómetro para o que está a acontecer e para o que vai acontecer.

 

Leonor Wicke,
Jornalista e Coordenadora Editorial

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