A necessidade de certeza num mundo (fundamentalmente) incerto

A natureza humana é avessa ao risco e, portanto, angustia-se com a incerteza. Abomina ainda o diferente, pelo menos enquanto fonte de insegurança, ausência de explicação e até perceber que há jogos de soma positiva, e que da diversidade resulta habitualmente vantagem mútua.  Ao longo de milénios construímos um trajeto civilizacional assente em enviesamentos cognitivos, heurísticas, falácias, crenças insustentáveis, exercícios de poder longe do que hoje consideramos admissível. Seres imperfeitos que somos (e continuaremos a ser) paradoxalmente criámos afluência, segurança, e um mundo cada vez mais estável, previsível e eventualmente mais justo e equilibrado. Nunca o trajeto foi linear nem tranquilo. Subsistem inúmeros problemas. Alguns dos quais, quiçá a pobreza extrema em muitas zonas do globo, nos devessem envergonhar. Um problema resolúvel sem necessidade de mais recursos dos que desperdiçamos em meia dúzia de dias noutras localizações do planeta.  Centrarmo-nos do “outro” ser humano sempre foi um caminho profícuo para resolver dificuldades.

Passámos, ou estamos em passagem acelerada, de uma economia de transformação e de troca de matérias e energias para uma economia de criação e partilha de informação e de conhecimento. De coisas para ideias. De uma economia assente em relações lineares estáveis, aditivas, mensuráveis, para uma economia em que frequentemente nem sequer sonhamos que variáveis poderemos encontrar pelo caminho tão incerto ele nos parece.  De uma economia em que dobrar a produção significava montar uma nova linha de montagem em paralelo com a existente, para uma economia em que triplicar a facturação pode significar, tão somente, obter uma superior capacidade de tratamento de informação, reconfigurando o que fazíamos, mas sem novos custos.  De uma economia para a qual acumulámos, durante cinco séculos de ciência positiva, escalas para medir as causas e os efeitos, para uma economia, em que temos milhares de escalas para medir coisas que são difíceis de mensurar como as emoções, as motivações, os compromissos de empenho dos colaboradores e as percepções dos consumidores. De uma economia assente na previsão pela repetição do passado, para uma economia em que existem rendimentos crescentes. Uma economia em que o conhecimento aparece como a “matéria prima”, como o processo de “transformação” e como o produto final.  Uma economia em que os investimentos são já maioritariamente incorpóreos, em investigação e desenvolvimento, em comunicação e marketing, em formação, e não tanto em maquinaria e edifícios. Uma economia em que o asset e ator maior é o ser humano.

Há dez anos, num famoso artigo na Harvard Business Review, anunciava-se o advento do capitalismo do consumidor. Por oposição ao capitalismo do mítico “capitão de indústria”, herdeiro de famílias de empreendedores que finalmente cedia a sua posição ao capitalismo do acionista, porque a necessidade de fundos para projetos à escala planetária e do mundo como mercado já não se satisfazia com as fortunas familiares. O novo capitalismo seria uma espécie de ajoelhar final perante o mercado e a “ditadura” do consumidor. Um desígnio ou visão talvez demasiado optimista perante a realidade. Ao fim ao cabo, quem é que não ficou perplexo com uma prosaica tentativa de telefonar para uma empresa para resolver, na maior parte dos casos, um detalhe? Navegar no seio daquela miríade de “se é para isto marque x, se é para aquilo marque y…” sendo que o nosso isto nunca está disponível. E o que dizer dos sites de muitas empresas se quisermos outra coisa que não seja um qualquer pack em promoção? O capitalismo do consumidor talvez seja agora mais que imprescindível em tempo de cautela nos contactos e na distância física. Mas, então, as empresas devem perceber que não existem para ter modelos sofisticados de machine learning mas para oferecer produtos e serviços a pessoas.


Por José Manuel Fonseca, coordenador da Pós-Graduação em Gestão da Universidade Europeia

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