A banca recuperou a rentabilidade, reconquistou a confiança dos mercados e voltou a gerar retornos elevados para os investidores. Mas essa recuperação já não basta. O próximo ciclo de crescimento exigirá uma transformação estrutural do setor, em que a Inteligência Artificial (IA) deixa de ser uma ferramenta de eficiência para assumir um papel central na estratégia das instituições financeiras.
A conclusão consta do mais recente estudo da Boston Consulting Group (BCG), The Future of Finance: Time to Shift Gears?, que traça um retrato de um setor mais sólido financeiramente, mas confrontado com uma nova exigência dos mercados: demonstrar capacidade para crescer de forma sustentável.
Em 2025, as instituições financeiras registaram um retorno total para os acionistas de 30,2%, tornando-se o setor mais rentável do ano. O desempenho foi impulsionado pela recuperação da rentabilidade dos capitais próprios, que em muitos mercados voltou a superar o custo do capital, bem como pela valorização dos rácios price-to-book.
Contudo, o relatório destaca que os múltiplos price-to-earnings permaneceram praticamente inalterados, sinal de que os investidores já não se contentam com resultados financeiros robustos e esperam provas de crescimento estrutural.
Europa ganha margem para voltar a crescer
Para a banca europeia, o momento representa uma mudança de paradigma. Depois de vários anos marcados por taxas de juro reduzidas, pressão regulatória e uma forte aposta na redução de custos, os bancos dispõem agora de melhores condições para redefinir a estratégia.
Segundo a BCG, o programa europeu NextGenerationEU, que poderá mobilizar cerca de 650 mil milhões de euros, cria condições para um novo ciclo de investimento e procura de crédito, oferecendo oportunidades às instituições capazes de responder com maior rapidez.
«O desafio já não é apenas proteger resultados: é construir motores de crescimento escaláveis, com maior capacidade de adaptação e melhor utilização do capital», sintetiza o estudo.
Para Clara Albuquerque, Managing Director & Partner da BCG em Lisboa, a vantagem competitiva dependerá da capacidade de reinventar profundamente as organizações. «Os bancos entram neste novo ciclo com uma base financeira mais robusta, mas isso, por si só, não garante uma criação de valor sustentada. A próxima vantagem competitiva será conquistada por quem conseguir transformar a produtividade de forma estrutural, integrar inteligência artificial no centro do modelo operativo e converter essa capacidade em crescimento escalável.»
IA deixa de ser projeto-piloto
Uma das principais conclusões do relatório é que a Inteligência Artificial deverá deixar de ser encarada como um conjunto de projetos experimentais para passar a integrar o núcleo das operações bancárias.
Segundo a análise, muitas instituições aumentaram a rentabilidade sobretudo graças ao crescimento das receitas e ao controlo de custos, mas sem uma melhoria proporcional da produtividade. Apesar dos elevados investimentos tecnológicos realizados nos últimos anos, vários indicadores operacionais evoluíram apenas de forma marginal.
É precisamente aqui que a IA poderá alterar profundamente o setor. A BCG identifica ganhos já visíveis em áreas como concessão de crédito, operações, conformidade regulatória, gestão de património, engenharia informática e apoio ao cliente, traduzindo-se em aumentos de produtividade, redução de perdas, crescimento de receitas e tempos de resposta mais curtos.
Para Clara Albuquerque, o impacto poderá ser particularmente relevante também em Portugal. «A adoção disciplinada de IA pode tornar-se um instrumento decisivo para a banca portuguesa. Não apenas para reduzir custos, mas para criar condições que hoje são estruturalmente inviáveis: servir segmentos intermédios com gestão de património personalizada, tornar economicamente atrativo o crédito a pequenas empresas ou oferecer serviços de tesouraria sofisticados ao mercado médio.»
Mais investimento, menos distribuição de capital
O estudo defende igualmente uma mudança na forma como os bancos utilizam o capital disponível. Em vez de privilegiarem dividendos elevados ou programas de recompra de ações, as instituições que já negoceiam acima do respetivo valor contabilístico deverão reforçar os investimentos em tecnologia, inovação, expansão comercial e desenvolvimento de novos negócios.
A Inteligência Artificial poderá ainda abrir espaço para produtos que até agora eram economicamente difíceis de oferecer, como serviços personalizados de gestão de património para clientes de rendimento intermédio ou soluções financeiras mais sofisticadas destinadas às empresas de média dimensão.
Fusões voltam ao radar
Outra tendência destacada pela consultora é o regresso das fusões e aquisições ao centro das estratégias de crescimento. Segundo o índice de sentimento de M&A da BCG, o setor financeiro apresenta atualmente a maior predisposição para operações de consolidação entre todos os setores analisados.
Estas operações poderão servir três objetivos principais: aumentar a escala dos negócios existentes, entrar em segmentos mais rentáveis e alienar ativos considerados pouco competitivos.
Concorrência será cada vez maior
Apesar da melhoria dos resultados, a consultora alerta que o setor continuará sujeito a fortes pressões competitivas. A crescente presença de operadores não bancários, a evolução dos ativos digitais e a maior transparência proporcionada pela Inteligência Artificial deverão comprimir margens e alterar a distribuição de valor no sistema financeiro.
Mais do que cada uma destas tendências isoladamente, será a sua combinação que transformará o setor nos próximos anos, obrigando os bancos a reverem produtos, processos e a própria relação com os clientes.
Para responder a este desafio, a BCG considera essencial que as instituições concentrem recursos em poucas iniciativas estratégicas, assegurem financiamento centralizado, definam uma governação robusta e envolvam diretamente os administradores executivos na transformação tecnológica.
A mensagem final do relatório é inequívoca: a banca recuperou a margem financeira para voltar a investir, mas apenas as instituições que aproveitarem esse momento para reinventar o modelo operativo conseguirão manter a criação de valor no longo prazo. A próxima vantagem competitiva já não dependerá apenas dos resultados financeiros, mas da rapidez com que cada banco conseguir transformar a Inteligência Artificial num verdadeiro motor de crescimento.



