A oportunidade de recuperar melhor

Escrevo este artigo no dia em que o mundo assinala oficialmente o primeiro aniversário da Pandemia da COVID-19. Há exatamente um ano a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciava que o mundo estava a ser infetado por um novo vírus que viria a afetar a vida de todos os habitantes do Planeta.

Pela primeira vez nos 75 anos da Organização das Nações Unidas (ONU) todos os Estados-membros que compõe a Organização deparam-se com um problema comum, independentemente da sua influência política, poder económico, dimensão demográfica, interesses geopolíticos ou situação geográfica.

A COVID-19 ignora fronteiras e hemisférios, afeta todos e está a pôr em causa muitos dos avanços conquistados nas últimas décadas. Com efeito, as primeiras avaliações evidenciaram de imediato que a Pandemia viria exacerbar as desigualdades já existentes, aos mais diversos níveis, e ameaçar os notáveis progressos alcançados nas últimas décadas pelo sistema multilateral na redução da pobreza, no acesso à educação, no respeito pelos direitos humanos, no combate às alterações climáticas, entre muitos outros.

A concretização da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, um dos maiores compromissos internacionais alguma vez firmados, que demorou dois anos a acordar entre os 193 Estados-membros da ONU, está definitivamente ameaçada. A ambição de termos um Planeta mais sustentável, mais próspero, mais pacífico e mais centrado nas necessidades das pessoas em 2030 está agora fragilizada.

Uma situação preocupante que poderá ter impactos muito significativos nos grupos mais vulneráveis da população como as mulheres, os migrantes e refugiados, as pessoas portadoras de deficiência, as crianças e os idosos. Em junho de 2020, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, apresentou um ambicioso plano abrangente de resposta à COVID-19 para salvar vidas, proteger sociedades e empreender um processo de recuperação equilibrado e sustentável, uma recuperação que implique uma mudança urgente, centrada no paradigma da sustentabilidade, para conseguirmos recuperar melhor.

Com efeito, a ONU vê no longo e exigente processo de recuperação que agora começa uma oportunidade para revolucionar os modelos económicos, a forma como vivemos e exploramos os recursos naturais.

Neste contexto, “recuperar melhor” tornou-se o mote do intenso trabalho multissetorial de todo o sistema da Organização (que inclui agências, fundos e programas da ONU) na implementação de uma resposta global coordenada que não deixe ninguém para trás, reduza a vulnerabilidade a pandemias, construa resiliência a futuros choques, nomeadamente aqueles associados às alterações climáticas e, finalmente, diminua drasticamente as persistentes desigualdades sistémicas agora expostas pela Pandemia.

São inúmeros os desafios que se avizinham e que exigem mais do que nunca um grande investimento no multilateralismo. Veja-se, por exemplo, o enorme desequilíbrio que, apesar de todos os esforços internacionais, estamos a assistir na distribuição das vacinas que têm sido monopolizadas pelas nações mais ricas do Planeta deixando regiões como a América Latina e África numa situação de extrema vulnerabilidade. Tal como António Guterres tem vindo a reafirmar de forma incansável, no contexto atual “ninguém está seguro até estarmos todos seguros”.


Por António Ferrari, Assessor de Comunicação para Portugal do Centro Regional de Informação das Nações Unidas

Opinião publicada na edição de primavera da revista Líder.

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