«A principal preocupação é a proteção das pessoas»

São as pessoas o principal foco de Rui Lopes Ferreira, CEO do Super Bock Group. Uma missão que o faz levantar todos os dias certo do seu papel e do propósito da cervejeira no contexto actual.


Não é assim de estranhar que a iniciativa de transformar álcool de cerveja em desinfetante tenha vindo do Super Bock Group, juntamente com a destilaria Levira. 56 mil litros de álcool passaram a 14 mil litros de álcool gel doados a três unidades hospitalares da região do Porto.

Recentemente criou o Bock in Business, um projecto apostado em ajudar os bares, cafés, restaurantes e discotecas encerrados em tempo de Covid-19.

Pelo meio, disponibilizou as redes sociais da Super Bock para dar a conhecer projectos que precisam de ajuda para o combate à pandemia Covid-19. Através da campanha #UmAmigoQueTemUmAmigo com o mote “Se os amigos são para as ocasiões, aqui está uma boa ocasião para sermos amigos”.

Mas foi pelos colaboradores, que o Grupo – que detém marcas como a Super Bock, Vitalis, Água das Pedras, Somersby – atuou cedo. Logo no início de março, foi criado um gabinete de crise e um Plano de Contingência, que tem sido atualizado em função da situação em Portugal, e que segue sempre as recomendações das entidades oficiais.

Este é um setor que não consegue fugir às circunstâncias, o convívio é um dos grandes motores de consumo de bebidas, em especial as alcoólicas. E no caso específico do Super Bock Group falamos de cerveja, mas não só, também de sidras, vinhos e sangrias, e ainda de águas e refrigerantes. «Há que aceitar que parte das vendas habituais será perdida enquanto durar a política de confinamento. Mais do que “contornar o impacto”, será fundamental preparar a retoma, a qual acontecerá em prazos ainda incertos, mas em qualquer caso de forma lenta e progressiva», explica Rui Lopes Ferreira.

Em entrevista à Líder, o CEO do Super Bock Group partilha a transferência para teletrabalho e a necessidade de manter operacional determinadas unidades do Grupo. «A vida de uma empresa faz-se de desafios constantes e no Super Bock Group estamos preparados para isso. Mas a situação atual é, de facto, inédita para todos», reforça, consciente também das oportunidades que tem pela frente.

O que é mais assustador nesta crise de saúde pública mundial?
Não se trata de uma crise económica ou financeira tal como ciclicamente nos fomos habituando a atravessar. Desta vez está em causa a vida, as pessoas, estando claro que as sociedades actuais não estavam preparadas para tal.
Estamos a passar por uma situação absolutamente excepcional, inédita na nossa história mais recente, que é claramente marcada pela imprevisibilidade e que tem implicações globais tremendas, e que nos dá uma maior consciência coletiva da nossa vulnerabilidade.
Para essa vulnerabilidade contribui a facilidade de contágio e a forma “oculta” ou discreta como ocorre gera medo, receio, incerteza, e insegurança aos cidadãos, colocando grande pressão na forma como atacar/resolver.

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
A principal preocupação do Super Bock Group é a proteção das pessoas. Como tal, a primeira medida foi criar, logo no início do mês de março, um gabinete de crise e um plano de contingência que tem sido avaliado e reforçado em função da evolução da situação em Portugal, e que segue sempre as recomendações das entidades oficiais. Integra um conjunto alargado de medidas que complementam os necessários cuidados de higiene e de proteção das pessoas e das instalações.
Ainda antes de decretado o estado de emergência em Portugal iniciámos a transferência para o regime de teletrabalho e hoje todos os colaboradores cuja função assim o permite estão a trabalhar remotamente. Para os que se mantêm em operação nas unidades da empresa, pelas necessidades inerentes à nossa operação, tomámos medidas acrescidas de proteção e de higiene individual, bem como dos espaços de trabalho e zonas comuns de forma a garantir a segurança das nossas pessoas.

Que impacto no negócio?
O impacto desta pandemia será avassalador na economia mundial e em Portugal. Atinge todos os setores de atividade, com constrangimentos na nossa operação, já que estamos integrados num setor que vive do convívio e da sociabilidade, que neste momento está condicionado. Os estabelecimentos do canal horeca, onde se faz cerca de 2/3 do consumo de cerveja e águas, estão praticamente todos encerrados, com exceção daqueles que servem para fora e, portanto, o consumo está a ser feito maioritariamente no canal alimentar, onde os consumidores, dadas as circunstâncias, privilegiam os bens essenciais para integrar os seus cabazes de compras. Mas para além disso, mesmo neste canal (hipermercados e supermercados) existem restrições e constrangimentos impostos ao consumidor na frequência das lojas, que afetam o normal desenvolvimento das vendas.

Como estão a contornar o impacto?
É impossível compensar na totalidade o consumo relativo ao canal horeca. Os estabelecimentos estão encerrados, os consumidores estão limitados na socialização e convívio que é um dos grandes motores de consumo. Há que aceitar que parte das vendas habituais será perdida enquanto durar a política de confinamento. Mais do que “contornar o impacto”, será fundamental preparar a retoma, a qual acontecerá em prazos ainda incertos, mas em qualquer caso de forma lenta e progressiva.

Situações complexas em concreto que enfrentam e como pensam atuar?Sabemos que vamos ter muitos desafios. Essa é uma certeza. Uma retoma gradual, a um ritmo lento, com alterações nos comportamentos de consumo que podem apresentar novas tendências, estamos a trabalhar antecipadamente. Mas há ainda muitas incógnitas, são planos que terão de ir sendo ajustados. Uma situação concreta e bastante complexa é naturalmente ter uma parte muito significativa de colaboradores a trabalhar em regime remoto. É um modelo novo, que apesar dos regimes de trabalho flexível já existentes e que já disponibilizávamos na nossa empresa, nunca tinha sido testado a esta dimensão. Coloca desafios de contacto, interacção, equipa, cumprimento de processos, segurança e partilha de informação. Exige da parte das lideranças um esforço muito grande para manter as equipas “agarradas”, com motivação, alinhadas quer internamente quer com stakeholders externos.

Já tinham vivido um desafio destes?
Creio que nem nós nem ninguém. A vida de uma empresa faz-se de desafios constantes e no Super Bock Group estamos preparados para isso. Mas a situação atual é, de facto, inédita para todos. As economias estão praticamente paralisadas e as estimativas apontam para um cenário de recessão global, incluindo Portugal. Os investimentos previstos serão reavaliados, mas também surgirão novas oportunidades.

Qual o papel que o Estado deve assumir perante as empresas?
O Estado deve, como sempre, ter um papel orientador, de definição de estratégias de combate e superação da crise, mobilizando recursos para fornecer apoios e mecanismos de estabilização às empresas, protegendo todos os que se encontrem em situação mais frágil e desfavorecida.
Espero que para além dos estados nacionais haja uma verdadeira mobilização a nível europeu. A mobilização de recursos necessária é de tal ordem, que só uma resposta europeia e integrada terá impacto.
Mas dito isto, as empresas têm de cumprir o seu papel, e executar os seus planos de contingência até ao limite antes de exigir tudo e mais alguma coisa ao Estado.
Na minha perspectiva, o maior desafio no campo empresarial é o Estado, em conjunto com outras instituições, nomeadamente europeias, garantir a liquidez necessária ao funcionamento da economia. Existem muitos instrumentos para o efeito, assim tenha o Estado e a União Europeia a capacidade, a coragem e a determinação para os colocar em prática.

Conselhos que deixa aos portugueses que lideram outras empresas ou organizações?
Estamos a viver uma situação a todos os títulos inédita, que exige muito das lideranças, é nestes momentos que a liderança faz a diferença. Não tenho a pretensão de dar conselhos, estamos também a aprender na nossa organização sobre como capacitar e estimular todas as lideranças para vencer este desafio. Mais do que conselhos, portanto, posso partilhar a nossa experiência. Colocamos em prática três princípios fundamentais de gestão de crise: (i) Decidir, (ii) Agir e (iii) Comunicar. Decidir em função de uma monitorização permanente da situação, não procurando obter sempre a resposta certa e garantida (porque não as há em momentos de constante mutação como este), mas potenciando a actuação no momento mais adequado com base na informação disponível e respeitando as indicações das entidades competentes. Agir rapidamente em função das decisões tomadas, garantindo uma conduta célere e imediata para proteção das pessoas e da empresa. E comunicar. Muito. Frequentemente. Transparentemente. Fazer chegar a informação de forma clara e assertiva, para limitar suspeitas, reduzir especulações, gerando a tranquilidade e segurança possíveis nestas situações. Ou seja, não complicar demasiado, mantermo-nos firmes, com determinação, atempadamente, e sem ambiguidades, focando no essencial para as pessoas e para o negócio.

E aos portugueses em geral?
Cuidem da sua saúde. As crises económicas vão e vêm, e nós no Super Bock Group, com os nossos 130 anos de história, já superámos muitas crises de ordem económica ou social. Mas a vida quando vai não volta!

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