A resposta da História à pergunta: “Como liderar em tempos de COVID-19?”

A pergunta “Como liderar em tempos de COVID-19?” é suficientemente vasta para nos perdermos nela sem lhe conseguirmos responder. Uma coisa é certa, como liderar em tempos de COVID-19 é um dos maiores desafios que a História vai poder vir a contar aos futuros líderes. Mas o que ficará na História política, económica, psicológica e das demais ciências? Estudei Direito, e na disciplina de Direito Penal, há um raciocínio que nos permite aferir a culpa à posteriori, chama-se fazer um juízo de prognose póstuma objetiva. Ou seja, andando para trás e voltando-nos a colocar naquelas circunstâncias, com os factos de que dispúnhamos no momento, como desenvolveríamos as nossas ações?

O que fica na História é aquilo de que nos lembramos, os factos tal qual ocorreram e como ficaram registados. Será com base nesses factos, registados na memória, nos livros, na internet, ou nos variados suportes que existem, que vamos poder fazer um juízo de culpa. Sim, digo culpa porque é dessa imputação objetiva que precisamos para matar a nossa sede de salvação. Aconteça o que acontecer, vamos querer saber de quem é a culpa. Mas para o fazermos justamente devemos usar do juízo de prognose póstuma que nos obriga e sermos fiéis aos factos conhecidos à época. Ou seja, não podemos querer atribuir a culpa a quem não vestia o seu fato global feito de materiais antivírus, nem a quem não tomou ao acordar a sua Macfee pill, não podemos censurar quem não seguiu o vibrador do seu telemóvel quando este sinalizou a violação da distância social, não podemos repreender quem não usou as lentes de contacto de visão microscópica ou quem não tomou banho com a loção impermeabilizante. Não é possível culpar os governos que não tinham o registo da temperatura da sua população, monitorizado ao minuto, ou deixou aberta a porta dos centros de reclusão sanitária para pessoas frágeis ou infetadas. Seria também absurdo multar as famílias que não tinham em suas casas, no armário de primeiros socorros, os sistemas de ventilação assistida ou os equipamentos para transfusão de shots imunitários.

No final de contas, não podemos culpar as gerações que estão a viver este drama pelo que só vamos saber daqui a uns anos que poderíamos ter feito melhor. Importa saber agora, com a informação de que dispomos, o que podemos fazer e nisso, os nossos líderes, a vários níveis, têm dado o seu melhor. Têm procurado continuar a trabalhar sem conseguirem perceber o que está para além das próximas duas semanas, têm acelerado a transformação digital dos seus modelos de negócio e dos seus métodos de trabalho, têm sabido devolver à sociedade através das mais variadas campanhas de ajuda aos que mais precisam, incluindo o próprio Estado e o sistema de saúde. As marcas têm reinventado a forma como comunicam e fazem-no de forma emotiva e inspiradora, embora sempre com a mediação de um ecrã. Os professores têm sido, ao lado dos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde, uns heróis que tentam manter a ordem no meio do caos. E as pessoas, os portugueses, têm sido de um civismo que nos deixa orgulhosos. E atenção, não é medo ou fraqueza, é uma força enorme que os mantém em casa, colaborando com as instruções que têm recebido do Primeiro-ministro e os conselhos e recomendações do Presidente da República.

Para dar uma só resposta à pergunta: How to lead with COVID-19? Diria: Façamos tudo como temos feito, com os factos de que dispomos não podemos fazer de maneira diferente. A História pode um dia querer culpar-nos, mas se o fizer, não fez o juízo correto de prognose póstuma.


Por Catarina G. Barosa, diretora de conteúdos da Tema Central

Artigos Relacionados: