A Revista (Líder) que reflete sobre o (Líder) Humano

O tema pode ser demasiado filosófico para um Gestor, mas o gestor precisa hoje da Filosofia para fazer bem o seu papel – holístico – de “especialista em generalidades”.

Desde sempre que a Gestão é um ponto de encontro de várias disciplinas, umas mais exatas outras nem por isso. É nas “nem por isso” que se encontra uma das componentes de beleza da profissão, e também onde o “gestor-líder” pode fazer a diferença.

Ora vejamos:

  1. Para tomar decisões esperadas sobre KPIs que indicam o sentido das decisões não precisamos dum gestor. Para isso podemos programar um algoritmo que é mais rápido e até eficaz – muitas vezes até com maior sentido apurado de justiça – do que uma pessoa (um gestor);
  2. É aqui – precisamente aqui – que faz sentido refletir no dilema entre a real necessidade de manter num “gestor-humano” e não num “gestor-algoritmo” a capacidade ou autonomia de determinadas decisões. Um “gestor-humano” que quer ser líder, e não apenas um gestor competente, tem a coragem de tomar uma decisão fora da caixa, se entender que o contexto assim pede. Para tomar decisões esperadas de acordo com KPIs, podemos programar um algoritmo, que tomará essas decisões mais rapidamente e pode até garantir o respetivo controlo da sua execução;
  3. Um contexto de comando de decisões, e controlo da sua execução, com total foco de eficácia, sem leitura de contexto do “ser biológico” que é uma equipa, uma empresa, uma organização de pessoas a operar e entregar algo à sociedade, já não existe. Temos um conjunto infinito de decisões que podemos tomar – todos os dias – e é esse conjunto de decisões que vão construindo esse “ser biológico” ao longo do tempo, que é uma organização;
  4. Quando sublinhamos o papel do “gestor-humano”, por contraponto ao “gestor-autómato”, sublinhamos um valor fundamental da ação da liderança: a coragem! Um amigo disse-me há pouco tempo que “corajoso é aquele que tem medo, mas enfrenta o medo, em vez de ser aquele não tem medo”. Pois: se não tem medo, então faz, mesmo sem coragem. Este valor só é possível de ser verificado num “gestor-humano”, porque para um “gestor-algoritmo”… a questão não se coloca!

Há depois novas disciplinas que acrescentamos: as Neurociências, mas também a Psicologia, ou até mesmo a Política – não partidária, como já partilhei noutra Líder.

Algumas – novas – matérias que precisamos de introduzir no nosso “saber fazer” para atualizarmos a nossa ação de forma mais informada e humanizada, e que trazem também novos dilemas:

  1. A Psicologia. Lá vai o tempo que era suficiente um gestor – ou equipa de gestão – definir políticas gerais, e depois colocar um “regulador” interno dessas políticas. Hoje, impera a necessidade de encontrar soluções customizadas não apenas no valor a entregar a clientes, mas também na forma de magnetizar as pessoas a um projeto empresarial. Esta customização unívoca, em escala, irá ser objeto de estudo nos pergaminhos da liderança. Porque uma coisa é fazê-lo através de processos e ferramentas, outra é fazê-lo com base em relacionamentos. Precisamos de organizações human-sizeable-managed? E o que fazemos dos grandes corporates que cresceram no paradigma da escala e da massa crítica?
  2. As Neurociências. Ora aqui estamos numa matéria quase transcendente. É Ciência, é pragmática, e hoje tem todo um novo campo de estudo que está disponível apenas há menos de duas décadas: é que hoje é possível estudar o cérebro do ser humano em funcionamento. Quer isto dizer que, há uns anos, as Neurociências apenas estudavam cérebros biologicamente mortos, e hoje podemos ver um cérebro no pleno da sua atividade. É entusiasmante ver o avanço da Ciência, a trazer conhecimento que está – ou pode estar – ao alcance de um Gestor, para melhor gerir uma organização. Mas no campo da ética não devemos nem podemos saber tudo sobre uma pessoa. A pergunta que se coloca é: como assegurar que incorporamos esta área da Ciência na Gestão, garantindo o nosso dever – até legal – de não entrar na privacidade de alguém?
  3. A Política ou Ciência Política. Quando tomamos decisões numa empresa, sem sabermos, atuamos com base numa pauta de convicções, ou até mesmo Valores, que nos conduzem na forma sistémica de como decidimos. Ao longo do tempo de uma organização essa bateria de decisões vai condicionando o que “É” – propositadamente maiúsculo – a organização. O que “É” a sua identidade. O que “É” a sua forma de atuar. Quando um dia, num momento, decidimos “a” ou decidimos “b”, estamos a construir uma política. A forma como cuidamos dos nossos, a prioridade com que gerimos os temas ambientais, a energia que colocamos na dimensão social. Vamos, neste contexto, fazendo política. Mas então fazemos Política? Fazemos, não partidária. E atuamos até numa ideologia, mais própria ou mais copiada. Mas como nos podemos manter pragmáticos e a fazer política, num contexto em que a gestão duma organização – sobretudo privada – não é eleita democraticamente? Cabe aos acionistas definir quem é a gestão das empresas. Então temos política, mas não temos escolhas democráticas? Que paradoxo para aqui está… tão humano!

É este o contexto que vivemos hoje, com heranças do passado que nos dão a praxis do presente, mas com novas dimensões que precisamos acrescentar na agenda dos gestores do futuro. E o sentido vai em busca de um impacto mais humanista, cuidando de assegurar um mundo melhor, logo na pequena célula empresa – pequena quando comparada a dimensão estado, povo, sociedade. E sabemos que não são matérias novas em vez das matérias antigas: a beleza é que são as matérias novas on-top das matérias antigas. Já tínhamos a Matemática, a Sociologia, a Finança, o Marketing, entre outras. Adicionamos a Política, a Psicologia, as Neurociências. Que outras mais vamos adicionar num futuro próximo?

É assim que nesta (revista) Líder refletimos sobre o papel Humano que podemos encontrar no (gestor) Líder!

 

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Por Pedro Afonso, CEO da VINCI Energies Portugal

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