A senhora

É sempre triste ver um dos nossos heróis pessoais tornar-se uma desilusão. Foi isso que me aconteceu nos últimos anos com Aung San Suu Kyi. The Lady, como é conhecida, é uma mulher com uma história de vida impressionante. Para mim, a par de Mandela, um dos mais extraordinários exemplos de liderança baseada em valores. Amada pelo povo da Birmânia (agora Myanmar) representava a esperança de transição para a democracia nesse país cheio de encantos.

Uma visita, há uns anos, a Myanmar permitiu-me descobrir a mais extraordinária das paisagens, Bagan, bem como o pagode Shwedagon em Yangon. Numa banca de rua da Liga Nacional para Democracia comprei uma T-shirt que continuo a usar, possivelmente por nostalgia. Mas “a senhora” tornara-se um desapontamento, dado o seu apoio aos militares e a aquiescência perante a violência contra minorias étnicas muçulmanas.

Há umas semanas as coisas esclareceram-se: os militares retomaram o poder e a senhora voltou à prisão. Fica agora tudo mais claro: neste jogo perigoso Suu Kyi tentou sobreviver na corda bamba e não conseguiu. Nem apaziguou os militares nem protegeu os rohingyas. Coberto pela China – explicada na perspetiva asiática em A China já Ganhou? de Kishore Mahbunani (Bertrand) -, o novo ditador Min Aung Hlaing acabou com o sonho. Mas pelo menos ajudou a compreender melhor, espero, algumas escolhas (impossíveis) da nossa heroína.

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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