A urgência de Liderar pelo Coração

Que novas formas de liderar estão a emergir num contexto de crise e Pandemia? É preciso reinventar a liderança – e a resposta está no amor. Acredito que o verdadeiro propósito da vida é a nossa evolução e a nossa transcendência. Que a vida conspira sempre a nosso favor, mesmo quando os caminhos para lá chegar sejam muitas vezes estranhos à nossa compreensão humana.

O contexto pandémico obrigou-nos a “despir” muitas das certezas adquiridas, planos futuros e “formas de funcionar e de trabalhar”. Resgatou-nos para dentro e catapultou-nos para um lugar a sós com a nossa Humanidade e vulnerabilidade. Convidou-nos a estar no presente e a ficar de frente com os nossos espaços vazios, outrora ocupados com inúmeras formas de distração e alienamento. A Pandemia lembrou-nos que temos um coração para acolher e cuidar.

E, apesar de não vislumbrarmos ainda para onde tudo isto nos vai levar – e da incerteza, do cansaço e da solidão – pressentimos que novas formas de viver e de encarar o trabalho não apenas são possíveis, mas há muito que eram necessárias.

Burnout, depressão, ansiedade, exaustão, abuso de poder e falta de sentido e de propósito – não eram sinais de desgaste e falência vital de muitos sistemas organizacionais e ambientes corporativos? Uma organização ou uma empresa é como um sistema vivo e – à semelhança da natureza ou do corpo humano – quando não é encontrado um equilíbrio entre todas as suas partes e uma forma de autorregeneração sistemática, aparecem vários sintomas que, quando descurados, levam à doença ou até à morte.

Muitas empresas foram criadas e conduzidas com foco exclusivo na maximização do lucro, descurando a cultura organizacional, a qualidade de vida dos seus colaboradores e o impacto comunitário e ambiental. Pessoas sobrevivem em culturas de medo e pouco humanizadas, sem qualquer sentido de propósito e pertença naqueles locais onde passam a maior parte dos seus dias. Todos estes fatores resultam de uma crise de consciência e esta é, sobretudo, uma falta de consciência da liderança vigente.

Acredito que muitos líderes não fizeram melhor por puro desconhecimento: O legado cultural que conheceram foi a valorização das características masculinas no meio empresarial e na liderança. Foram condicionados a acreditar que a centralização do poder, os valores militares de recompensa, a competição e o foco em resultados rápidos eram o caminho para a conquista do sucesso. Mesmo que, no final, existisse um vazio espiritual – havia necessidade de manter “a máscara” para ser visto como “poderoso” aos olhos dos outros. E a necessidade desenfreada de ser admirado e ter poder e controlo não encobre um desejo de amor e reconhecimento? De falta de amor próprio e de cuidar do próprio coração?

Características femininas como o amor, o cuidado, a intuição, a empatia e a vulnerabilidade – que nos conectam e nos aproximam da nossa Humanidade – começaram a ser excluídas da sociedade, da liderança e dos ambientes de trabalho. Não poderá ser a Pandemia um convite para acolher novamente o que havia sido excluído? Para olhar para dentro com consciência e amor, e sentir qual o caminho que nos indica o nosso coração?

É no coração de cada líder que se encontram as respostas, porque isso os aproxima da sua essência – e a essência é sempre amor. Para isso é necessário encontrar espaços de conexão interna, para posteriormente restabelecer a ligação com as suas equipas e com o propósito evolutivo das suas empresas.

Quando perdemos o contacto com o coração, dificilmente somos orientados pelo amor. E o amor, mesmo num contexto organizacional, é a força mais poderosa que existe. O caminho do coração é o caminho de um equilíbrio interno – de acolher as nossas características masculinas e femininas, de conciliar a firmeza ao amor, a força ao cuidado, a razão à intuição.

Mais do que nunca, precisamos de líderes conscientes e corajosos. De pessoas que liderem a partir do coração, que sejam guiados por um sentido de missão elevado, servidores do mundo e dos sistemas de que fazem parte.

É preciso coragem para deixar ir formas de estar e de liderar que já não nos trazem os resultados que precisamos criar em termos de Humanidade. Cabe aos líderes ser essa ponte de expansão e abertura para organizações mais conscientes, mais colaborativas, mais humanizadas. Precisa-se de organizações que elevem a vida em todos os sentidos, que sejam a expressão e expansão dos talentos de todos. Liderança é sinónimo de maturidade. E a maturidade escolhe sempre o caminho do amor.


Por Sandra Balau, Diretora executiva da In2Out, Consultora de Desenvolvimento Organizacional, Especialista em Liderança Sistémica, Mentora e treinadora de líderes

Artigos Relacionados: