A verdade, sobretudo quando é difícil

Vivemos tempos estranhos, todos o sabemos. E mais estranhos se tornam quando as previsões parecem desmoronar-se. Por exemplo: quem, em março ou abril último, quando a pandemia estava no auge, não supunha que em outubro o pior já tivesse passado? Muito poucos! Quem julgava que no ano de 2021 tudo isto não seria mais do que uma recordação triste? E quantos ainda acreditam nisto?

A comunicação das autoridades com os seus cidadãos é pobre e defeituosa. Refiro-me aos líderes em que podemos confiar, pelo que retiro da equação os que já sabemos que, por força dos regimes que dirigem nunca dirão verdades inconvenientes, e aqueles que por força (ou fraqueza) da cabeça que têm dirão a primeira coisa de que se lembrarem. Excetuei, pois, quase meio mundo, incluindo quatro dos maiores países: China, Rússia, EUA e Brasil. Mas sobram muitos – toda a Europa, o Canadá, parte da América Latina, a Austrália e Nova Zelândia e alguns países da Ásia.

A primeira esperança foi que o vírus sucumbisse ao Verão. Não aconteceu, embora primos deste vírus, como o MERS, tenham tido esse destino.

A segunda esperança residiu na ilusão de uma vacina rápida, espécie de bala de prata com que se matava o demónio. Mas o tempo vai passando, e salvo as mezinhas chamadas vacinas com que alguns dirigentes tentam enganar o seu povo e a comunidade internacional, incluindo a OMS, a demanda parece muito mais vagarosa do que os leigos pensavam. Claro que os cientistas avisaram que uma vacina não se coloca à disposição do público do pé para a mão; e se houve sucesso em muitas frentes antivirais, todos os processos que levaram à sua certificação e utilização demoraram bastante tempo, sem contar com os vírus para os quais nunca houve vacina, como o HIV/SIDA.

A terceira esperança seria a de que, ainda assim, a curva dos infetados e dos mortos por COVID se mantivesse baixa. A possibilidade mantém-se. Mas, de dia para dia, de país para país, parece mais distante. Já estivemos todos melhor e o indispensável regresso às aulas e regresso à Economia possível não é de molde a ajudar.

Face a isto seria interessante uma estratégia que nos fizesse todos pensar que, longe de estarmos num “novo normal”, como dizem, estamos numa situação totalmente anormal. Mais, a situação é fora do comum, imprevisível e apenas numa parte muito relativa depende da nossa vontade. A política de para e arranca não me parece a mais adequada. Pedem-nos para nos cumprimentarmos com o cotovelo, depois dizem que isso também não é seguro. Pedem-nos para ir às compras, aos restaurantes, aos espetáculos (embora com as devidas distâncias e cuidados), para depois nos informarem que, afinal, não podemos ser tão “normais” quanto isso. Falam-nos de vacinas, mas especialistas vêm dizer que as pessoas comuns só poderão ter acesso a elas lá para 2024 (faltam mais de três anos). Não há casamentos com mais de quatro pessoas além dos noivos, no Registo Civil, mas há festivais políticos e peregrinações religiosas com milhares de pessoas. A incongruência retira confiança e a falta de confiança faz com que um pouco por toda a Europa se comece a reivindicar a liberdade de andar sem máscara, da forma que se quer.

Seria, talvez menos rentável politicamente, mas mais sério dizer a verdade, toda a verdade. E a verdade é esta: não sabemos bem o que fazer. Não conhecemos bem a evolução da pandemia. Os modelos que nos apresentam têm esforço e são teoricamente aceitáveis, mas podem ou não refletir a realidade. Naturalmente, um combate eficaz só se faria com uma quarentena generalizada e longa que acabaria por matar a economia, e com ela os empregos, os negócios, as pessoas.

Assim sendo, e não sabendo o que nos espera, talvez seja melhor agir como num barco a afundar: tentar salvar as crianças e os mais velhos e fracos, e esperar que os outros consigam salvar-se a si próprios. Não podemos pedir ajuda, porque todos estamos no mesmo barco e não podemos alimentar falsas ilusões. Quanto mais tarde se encarar o enorme problema que temos pela frente, mais danos causamos a nós próprios. A situação é esta: anormal, sem grandes refúgios seguros, com hostilidade à nossa volta. Tomemos as precauções que sabemos dar resultado (o distanciamento quando ele é possível), tentemos resistir a situações que podem não ser seguras, mas não finjamos que não estamos a pedir demais aos concidadãos nem lhes acenemos com esperanças mirabolantes.

No meio da procela, muitos vão adoecer e falecer. É algo que sabemos de todas a pandemias graves da História. No final, seremos menos, mas há um longo caminho até esse final. Um longo caminho que terá de ser feito com cuidado, com a prudência que resulta do conhecimento verdadeiro do ponto em que estamos.

Esconder ou dissimular algo que só com muita sorte não acontecerá, é tratar os cidadãos como crianças, cujas pequenas cabecinhas não suportam a realidade. É um paternalismo como outro qualquer que, também por isso, deve ser combatido.


Por Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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