Aceito todas as opiniões desde que sejam iguais à minha

A celebração, ontem, de mais um aniversário do 25 de abril, voltou a lembrar que a vida pública tem vindo a ficar polarizada – o que já aqui tem sido dito e redito. O mundo vai sendo dividido em amigos e inimigos, sem nada que os junte. Os sinais são claros e têm sido reafirmados semana após semana:

  • A ideia do 25 de abril como a festa de uma certa esquerda onde a não-esquerda não entra.
  • A sugestão de que um partido político deve ser ilegalizado porque alguém não gosta das suas ideias.
  • A atitude de que não basta defender a minha posição, sendo necessário diminuir a posição do outro.

Estas ideias são perigosas. Numa manifestação pública qualquer pessoa deve poder participar sem ter de pedir autorização. No caso, o Iniciativa Liberal quis possivelmente fazer o mesmo que a esquerda que desfila: usar o ritual para mostrar-se na “rua”. A polémica gerada mostra bem a lógica exclusivista no tempo dos discursos inclusivistas. Relativamente ao segundo ponto, se os partidos de que alguém não gosta fossem todos ilegalizados, não haveria partidos legais. Em relação ao terceiro, a tentativa de diminuir o outro é um gesto inqualificável. Por exemplo, o abuso do termo “fascistas” para cancelar tudo aquilo de que não se gosta está tão disseminado que a ideia de fazer uma peça sobre a beleza de matar fascistas foi tomada como coisa normal. Para quem não vê beleza nem na morte de uma galinha, haverá dificuldade em compreender o ponto e ainda mais em enaltecê-lo.

Como hipótese de trabalho não será tempo de aceitar o óbvio, isto é, que a democracia vive da diversidade e do conflito para criar melhores instituições. E neste caso, o gesto simbólico do Livre ao oferecer lugares ao IL na manifestação do 25 de abril, é um exemplo a aplaudir. Ou reduzir-se-á tudo, no final, à luta pelo controlo das instituições? É que, como explicaram Acemoglou e Robinson, a diferença entre querer o poder para melhorar instituições ou para as controlar é abissal. Para as melhorar precisamos de todos; para as controlar bastam alguns.


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

 

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