Acelerar startups em tempos de crise e decidir onde investir capital

No meio do furação COVID-19, falamos com Stephan Morais, fundador e CEO da Indico Capital, uma empresa de capital de risco sediada em Portugal.  Segundo nos referiu, muitas empresas tiveram de se renovar completamente para poderem enfrentar o desafio.

São muitas vezes as crises que fazem nascer a oportunidade para muitos negócios. A área das tecnologias está a beneficiar desta readaptação, renovação e aceleração, com muitas startup a candidatarem-se ao programa de investimento e aceleração da Indico Capital e da Google.

Contudo, importa não esquecer que a situação económica que se vive não se resolverá da noite para o dia, “…a retoma não acontecerá sem uma intervenção direta, pragmática e forte da parte das instituições, dos Estados e da Europa. Existem passos nesse sentido, mas até agora manifestamente insuficientes”, concluiu Stephan Morais, deixando algumas dicas para investimento quando lhe perguntamos onde colocaria, neste momento, o seu dinheiro.

Quais são os desafios que se colocam às sociedades de capital de risco como a Indico Capital Partners?
Naturalmente temos que garantir que as nossas participadas se adaptam a uma nova realidade e que estão bem capitalizadas para enfrentar eventuais reduções de faturação. Mas a realidade é que várias estão a beneficiar com alterações de comportamento dos consumidores que compram mais online.

Na Indico Partners procuram encontrar startups na área tecnológica que apresentem projetos inovadores e com potencial de crescimento global. Têm surgido novas ideias de negócio que pretendam responder às necessidades resultantes da crise COVID-19?
Existem dois tipos de casos em que as empresas se adaptaram e naturalmente há novas empresas a surgir. Empresas que já existiam que beneficiam do atual clima – por exemplo a Barkyn, que vende online ração e outros produtos para cães. Empresas que adaptaram o seu negócio para fazer face à nova realidade, como por exemplo a Eat Tasty, que antes apenas entregava almoços em escritórios e hoje entrega também em casa e está a ter imenso sucesso. Ou, por exemplo, a nossa empresa alemã Tier, de trotinetes elétricas, que não só deixou de ter muitos concorrentes que falharam, como também está agora a beneficiar do facto das pessoas não quererem andar de transportes públicos e preferirem andar sozinhas de trotinete, em particular no norte da Europa. Depois, há naturalmente empresas novas, muitas das quais se estão a candidatar ao nosso programa de investimento e aceleração com a Google for Startups, que surgem para fazer face às novas necessidades. Muitas da área médica e digital health, mas não só, essencialmente empresas que aceleram a digitalização da economia.

Como lhe parece que será o comportamento dos investidores na vossa área de atividade? Poderá haver uma retração?
Os investidores naturalmente estão mais focados nas empresas que já são suas, mas é nestas alturas que surgem grandes oportunidades e muita inovação. A necessidade aguça o engenho, claramente. Já na última grande crise, até em Portugal, surgiram grandes estrelas.

Qual é o impacto que a crise da COVID-19 teve no panorama das startups tecnológicas em Portugal?
As empresas que não tiverem investidores sólidos por detrás, terão uma vida difícil porque não são ainda rentáveis e dificilmente poderão singrar ou até sobreviver. Mas muitas reinventam-se e vão aproveitar a nova conjuntura.

Qual é a avaliação que faz das startups tecnológicas em Portugal e qual a sua real capacidade de se tornarem globais?
Temos um ecossistema mais maduro do que há 5 ou 10 anos e existem claramente equipas ambiciosas e preparadas até certo ponto. Mas, de forma geral, são empreendedores ainda pouco experientes, com algumas lacunas em saber escalar os negócios e pouca experiência de gestão. Os ecossistemas constroem-se em décadas e não anos. A tendência é positiva, senão nós não teríamos investidores de todo o mundo no nosso fundo, mas é um caminho que nós estamos a tentar ajudar a trilhar.

A Indico Capital Partners abriu recentemente um escritório em Madrid. Como veem o futuro da vossa atividade num um dos países mais afetados pela crise pandémica?
Realmente a coincidência parece infeliz, mas não é, porque é uma excelente altura para estar no mercado de forma mais permanente do que tínhamos. O escritório é neste momento o home office do nosso colega que lidera em Espanha, por isso, não temos custos ociosos e é alguém que já trabalhou no passado muitos anos com os sócios da Indico. Estamos muito próximos dos fundos espanhóis e internacionais que cobrem o mercado e o movimento surgiu porque muitas empresas espanholas queriam trabalhar com um fundo com track record de internacionalizar empresas e entravam em contacto connosco com esse propósito. Agora que estamos mesmo em Espanha, é inevitável eventualmente ficarmos convencidos com um investimento, o que até agora ainda não aconteceu porque somos prudentes e queremos ter uma boa cobertura de todas as operações antes de avançar com uma.

Se quisesse lançar uma startup tecnológica, quais as áreas de atividade em que apostaria?
Não existe uma área por excelência em termos de indústria, mas seguramente o projeto, qualquer que fosse teria que ter uma componente de inteligência artificial forte para ser competitivo.

Quais os principais conselhos que daria a quem pretende iniciar um projeto no sector tecnológico?
Os projetos passiveis de serem investidos por fundos profissionais devem reunir de forma geral três características: a solução deve resolver um determinado problema ou necessidade dez vezes melhor do que soluções atuais em todo o mundo para aquele problema; o problema deve ser muito grande no sentido que o mercado potencial do produto tem que ser enorme e, por último, a equipa deve ter grande capacidade técnica, grande ambição, capacidade de trabalho e de trabalhar em equipa com os seus sócios, os investidores.

Quais as principais medidas que lhe parece que deveriam ser tomadas ao nível de Portugal e da Europa para apoiar a atividade económica?
Creio que neste momento urge criar condições para a retoma total da atividade das empresas, escolas e famílias, naturalmente com precaução a nível de distanciamento social razoável, mas a manutenção do clima de medo e incerteza está a causar e causará danos bastante piores do que a pandemia em si própria, tanto a nível de saúde pública como de desastre económico. Em segundo lugar, é urgente que o dinheiro chegue a empresas e famílias porque neste momento por toda a Europa e, em particular, em Portugal, a retoma não acontecerá sem uma intervenção direta, pragmática e forte da parte das instituições dos Estados e Europeias. Existem passos nesse sentido, mas até agora manifestamente insuficientes.

Se fosse um investidor, onde colocaria o seu capital disponível?
Uma grande parte em liquidez, mas com uma perspetiva de longo prazo investiria primordialmente no mercado de ações e em investimentos alternativos – fundos de private equity e venture capital que tipicamente têm bons retornos quando se investe em épocas de crise. No imobiliário, alguns segmentos poderão vir a ser novamente interessantes também, mas ainda é cedo para se julgar essa oportunidade.

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