Achas para a fogueira

A vida pública anda aquecida, como bem notou António Barreto numa das suas crónicas recentes. Há muitas razões para isso. Portugal e o mundo têm andado de crise em crise e de mudança em mudança. O sistema financeiro excedeu-se nas benesses que atribuiu a si mesmo. A política deixou de dar protagonismo ao centrão e passou a valorizar os extremos. Os jornais, mesmo os ditos de referência, tabloidizaram-se e tornaram-se caixas de ressonância de causas mais do que espaços de informação e de moderação das opiniões públicas.

Abra-se por cá os jornais de referência e os temas da moda estão lá todos os dias: o racismo sistémico, o ambientalismo, o anti-capitalismo, o feminismo, as identidades sexuais, a violência doméstica, o assédio sexual, o colonialismo, a reescrita da História. Mesmo que estas abordagens se fundamentem em problemas reais que é importante tratar, o tom é justiceiro. Os media pululam de vigilantes. O seu acento vem das redes sociais. A linguagem dos blogues tomou conta da imprensa e a reflexão ponderada deu lugar ao soundbyte. As opiniões passaram a valer todas o mesmo – incluindo as de quem nada sabe sobre aquilo de que fala.

No fundo, andamos a atirar achas para a fogueira. A falta de uma justiça eficaz nos casos que envolvem os privilegiados agrava os problemas. Os recentes excessos de linguagem dos políticos que deviam ter tento na língua e consistência na ação tornam tudo isto normal. Estamos a normalizar a anormalidade. Mas como é em nome do Bem, está tudo bem. Não está. Atalhemos caminho se ainda houver tempo ou preparemo-nos para aquilo que aí pode vir.


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

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