Admirável mundo digital

Estamos a viver a “crise das nossas vidas”. A situação de crise sanitária que vivemos atualmente tem uma característica única na história da humanidade. É, de facto, global. No século XX, o desenvolvimento humano, nas suas dimensões social e económica, trouxe uma proximidade entre povos, vias e meios de comunicação, transportes e operações logísticas realmente globais.

A Teoria do Caos trouxe-nos o butterfly effect, em que uma pequena alteração num sistema/estado pode provocar profundas alterações em sistemas/estados posteriores, utilizando a conhecida metáfora em que o bater de asas de uma borboleta na China poderá provocar um furacão no Texas. É um bom exemplo para nos demonstrar como tudo está interligado, hoje mais do que nunca.

A pandemia afeta todos os países, sem qualquer exceção. Nessa sequência, também a crise económica, que virá da aplicação das medidas de contenção da doença, será global. Contudo, acredito que a resposta a essa crise será diferente de país para país. Para além das condições económicas pré-crise serem importantes, a política e a organização social serão determinantes para o que se segue. Será o tempo da política sobre a economia, ao contrário do que se vinha a viver, em particular desde o início do século XXI. Ao nível das organizações, nomeadamente das empresas, a tecnologia permitiu uma resposta efetiva aos problemas provocados pelas medidas de contenção, em particular pelo confinamento. Apesar de nem todas as empresas estarem no mesmo nível de desenvolvimento tecnológico ou de transformação para o mundo digital, a pandemia tornou urgente o que era “apenas” importante.

Esse movimento transformação digital iniciou-se há alguns anos, pois a competitividade joga-se no mercado global, quer ao nível das empresas privadas, das empresas públicas, dos Estados. Esta mudança tem essencialmente que ver com Pessoas e com a sua capacidade de adaptação. Por um lado, o contacto físico tem vindo a ser substituído pelo virtual, como tentativa de resposta à necessidade de comunicarmos olhos nos olhos. Sabemos que é mais difícil criar empatia e desenvolver relações humanas apenas com o contacto virtual, ainda que seja possível fazê-lo com imagem e vídeo.

Por outro lado, a digitalização de algumas operações permite um aumento da eficiência e, neste momento crítico, é o garante da possibilidade de continuar a operar. As organizações que iniciaram essa transformação há mais tempo responderão melhor à crise. Para as restantes, será uma questão de sobrevivência. A tecnologia disponível permite modelos de organização, comerciais, operacionais, logísticos e laborais, adaptados à realidade que estamos a viver. E essa transformação, mais do que tecnológica, será social, Humana e também ambiental.

Acredito que no momento pós-pandemia, que será certamente de recuperação económica, com mais discernimento para a tomada de decisões, algumas das mudanças que estamos a viver serão as bases para um novo normal.


Por Fernando Rodrigues, Managing Director na Axians Portugal

[artigo publicado na edição de dezembro na revista Líder]

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