Afeganistão: E agora?

Já tudo terá sido dito, mas depois de um mês de paragem destas notas, o tema é inescapável. O que fica deste desastre anunciado? Eis alguns pontos:

  • A ideia de que Trump não teria feito pior. Nesta altura é necessário o disclaimer habitual: não se trata de defender o anterior e desastroso presidente mas de constatar o óbvio. É difícil imaginar que Trump pudesse ter sido pior no que quer que fosse relativamente a este processo.
  • A imagem para os EUA é penosa, a de um superpoder que volta a ser humilhado no seu esforço de construção de nações.
  • Regista-se a habitual satisfação dos anti-americanos que exultam com esta derrota do imperialismo. Neste contexto, a inacreditável declaração de Varoufakis só não o levou a ser atado ao pelourinho por ser quem é.
  • A desgraça dos não-taliban do Afeganistão, que possivelmente não exultam com a saída dos imperialistas.

O que se segue? Obviamente ninguém sabe, mas talvez a China tenha uma ideia. É possível que o império emergente consiga deixar os taliban fazer o que lhes apetecer desde que não interfiram com o que a China faz aos seus muçulmanos. E aí teremos um país bárbaro, mas controlado por outro império que passa melhor nos media. Por cá, podem antecipar-se novas vagas de refugiados, a persistente inexistência de uma política europeia de defesa com dentes, e a continuação das críticas recorrentes aos americanos: porque nos defendem ou porque não nos defendem. Já tivemos tempo para aprender mas vamos continuar nesta relação de dependência que nada resolve mas mantém o status quo até que um dia ele caia de podre.

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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