Agir como um Planetier

A Sustentabilidade será atingida no dia em que se deixar de falar sobre ela. Falar é bom sinal. Que o tema entre nas agendas dos governos, que se materialize em objetivos bem definidos e com prazos marcados, melhor ainda! E muitos progressos têm sido conseguidos na última década, porque no plano das intenções a prioridade pelo menos existe, o sinal de alarme está a ser finalmente ouvido. Mas, como diz o povo, de boas intenções está o Inferno cheio.

E é precisamente na direção dele que a Humanidade estava a caminhar – e ainda está, embora hoje exista informação suficiente e evidências que provam as consequências de um caminho suicida que ninguém tem desculpas para ignorar.

A hora é, portanto, de ação. E ação rima com inovação, porque as respostas urgentes e necessárias já não se encontram nas velhas fórmulas que o ser humano descobriu para atingir a prosperidade. Houve um tempo para a denúncia, os gritos de protesto e contestação foram determinantes para o tal alerta cívico, o despertar da consciência sobre a insustentabilidade de um modelo de sociedade que conduzia ao colapso dos recursos.

A Ciência acrescentou conhecimento e evidências incontestáveis sobre as origens e a evolução previsível de fenómenos como as alterações climáticas ou a destruição da biodiversidade. Tudo isto foi necessário, para que o Planeta fosse parar ao divã do Psicanalista. Mas não foi suficiente para a mudança. Os Ambientalistas e os Académicos fazem o que lhes compete, os Políticos vão legislando e reagindo a reboque, as Nações Unidas fixaram os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável que adquiriram credibilidade e reconhecimento global.

Repito: tudo isto representa um enorme avanço relativamente a um Mundo que, não muito longínquo, promovia a sua autodestruição e contemplava-a impávida e serenamente. Reconhecer esta evolução é também ter a noção de que não chega.

Gritar sem soluções alternativas é inconsequente. Investigar sem ter o poder da decisão pode ser frustrante. É por isso que o território da Sustentabilidade precisa ser habitado, para não dizer conquistado, pelo empresário. As empresas são o eixo central do sistema capitalista – são elas que provocam o essencial do dano, serão elas as únicas capazes de protagonizar a mudança disruptiva dos modelos económicos, o que quer dizer dos nossos modos de vida.

É isto que inspira a Planetiers, uma visão que seja capaz de se traduzir num Programa de Transformação Sustentável para a Década. Uma visão multidisciplinar que impulsione investimentos disruptivos e sustentáveis, em parcerias com os fundos ambientais que se multiplicam, com os fundos que promovem a inovação social e os fundos empresariais que estão a encontrar a rentabilidade nos chamados negócios verdes.

Não é fácil, mas é inevitável. Não é imediato, mas será tanto mais rápido quanto mais for alavancado por um ecossistema de organizações e países que se afirmam enquanto líderes mundiais da Sustentabilidade. O que remete a discussão para os sistemas de incentivos – é conhecida a desproporção que, ainda hoje, persiste entre os subsídios de Estado à exploração de combustíveis fósseis face aos tão proclamados apoios às energias renováveis.

A chave do problema reside, portanto, nas regras do jogo. A este propósito é importante sublinhar que, no sobressalto da Pandemia, a Europa deu uma guinada histórica às prioridades contempladas nos fundos redistribuídos pelos Estados-membros, uma vez que os biliões do Plano de Recuperação e Resiliência constituem fundamentalmente um estímulo aos investimentos e às reformas na direção certa.

O Planetiers World Gathering, que organizámos em Lisboa, em outubro de 2020, não foi apenas um dos mais importantes eventos internacionais sobre Inovação Sustentável.

Ali construímos uma montra gigantesca do conhecimento, das ferramentas e das soluções de uma mudança que já começou e é imparável. E de como é possível transformar Portugal num hub de nova geração, colocá-lo entre as referências mundiais, posicioná-lo na linha da frente, captando conhecimento mais avançado de Sustentabilidade, aplicá-lo em iniciativas disruptivas e sustentáveis, exportando essa inovação para o Mundo.

O País tem uma oportunidade única de ocupar o Centro (World Gathering) da Sustentabilidade. Não por ser grande, não por ser poderoso, mas por ousar fazer aquilo que outros ainda não experimentaram. A rede de parceiros da Planetiers permite criar um sistema de cocriação internacional, através de programas colaborativos que impulsionem novas soluções e investimentos. Nem sempre a invenção é a fórmula certa para a inovação mais disruptiva – basta combinar de maneira diferente coisas que já existem mas, por nunca terem convergido entre si, nunca haviam produzido resultados iguais.

Bem sei que a expressão ficou gasta de tão usada lá atrás, mas o desígnio existe e é nacional. Que tem nas municipalidades um domínio importantíssimo de transformação, com a Circularidade, a mobilização de stakeholders locais e transição digital para a Sustentabilidade. Que, na Educação, deve modelar uma rede nacional de escolas com acesso a conhecimento progressivo de sustentabilidade e evolução exponencial. E que, nos programas de formação profissional e capacitação de adultos, devem ser reorientados para o conhecimento sistémico e o contacto com casos práticos, envolvendo não só o setor empresarial, mas também ONG e entidades académicas.

Por fim, as empresas: as já instaladas no mercado, com programas de transformação triple bottom line que recentram negócios sólidos e lucrativos na Circularidade/ Sustentabilidade/Aceleração Tecnológica; e as startups, com programas de aceleração vocacionados para a resolução de desafios de Sustentabilidade e empreendedorismo.

Ficou clara a receita que retirámos do evento Planetiers World Gathering. A verdadeira mudança está nos 3E que defendemos na Planetiers. É preciso investir na Educação. Dos mais novos e dos mais velhos, dos gestores de condomínios aos líderes de grandes organizações. É preciso ensinar toda a sociedade do que realmente se trata a Sustentabilidade. Empowerment, pois são precisas iniciativas e investir no “acreditar” da sociedade e do mercado para que cada peça compreenda o papel ativo e fundamental que pode ter nesta mudança. Diria mais, até será possível ensinar como estes são temas que trarão cada vez mais vantagem competitiva no mercado. E por fim, Empreendedorismo. Não no sentido único de criar startups e “unicórnios”, mas sim perceber para que servem estes “unicórnios”. E perceber se estes unicórnios terão sequer um Planeta com condições para se viver.

(…)

Pode ler o artigo completo na edição de primavera da revista Líder.


Por Sérgio Ribeiro, CEO do Planetiers

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