A falta de habitação acessível, a crise de confiança nas instituições e a necessidade de acelerar a transição sustentável estiveram no centro do 'Festival da New European Bauhaus', na Bélgica. A iniciativa europeia defende que repensar os bairros, envolver os cidadãos e apostar na economia circular pode ajudar a responder a alguns dos maiores desafios da Europa.
Como tornar as cidades mais inclusivas, sustentáveis e acessíveis? A resposta esteve em debate durante o evento, que decorreu de nove a 13 de junho, em Bruxelas. Ao longo de cinco dias, cidadãos, arquitetos, designers, engenheiros, decisores políticos e especialistas discutiram soluções para desafios como a habitação acessível, a participação democrática, a resiliência das comunidades e a transição ecológica.
Lançada pela Comissão Europeia em 2020, a New European Bauhaus procura transformar a forma como os europeus vivem, trabalham e constroem as suas comunidades, combinando três princípios centrais: sustentabilidade, inclusão e beleza. Este movimento reúne atualmente mais de 2.000 membros em vários países europeus e fora da Europa.
Entre 2021 e 2027, foram já alocados cerca de 1,4 mil milhões de euros a projetos associados à iniciativa, com financiamento proveniente sobretudo da política de coesão e do programa Horizonte Europa.

Falta de habitação acessível está a afetar a confiança nas instituições
A habitação foi um dos temas centrais do festival. Durante os debates, vários participantes destacaram que a escassez de habitação acessível se tornou uma das maiores preocupações dos cidadãos europeus. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, defendeu que esta realidade está na origem de parte do descontentamento social. «A falta de habitação acessível está na origem da desilusão das pessoas com as instituições democráticas», afirmou, na cerimónia de abertura.

Perante este cenário, vários projetos apoiados pela New European Bauhaus estão a desenvolver soluções focadas em habitação sustentável, comunidades inclusivas e regeneração urbana, procurando responder às necessidades reais das populações.
A participação dos cidadãos foi apontada como um elemento essencial deste processo. Na sessão de abertura, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sublinhou que as melhores soluções surgem quando são construídas com as pessoas e para as pessoas.

Comunidades mais fortes ajudam a reforçar a democracia
Outro dos grandes temas em destaque foi a importância da participação dos cidadãos para fortalecer a confiança nas instituições públicas e criar comunidades mais resilientes.
Segundo os participantes, o envolvimento das populações nos processos de decisão contribui para reforçar o sentimento de pertença e para construir sociedades mais preparadas para enfrentar crises sociais, económicas ou ambientais.
O exemplo da Ucrânia foi particularmente destacado. Representantes ucranianos explicaram como a abordagem comunitária promovida pela New European Bauhaus está a ajudar a reconstruir comunidades afetadas pela guerra, promovendo inovação, mudança e coesão social.
Renovar edifícios pode ser mais sustentável do que construir de novo
Os especialistas presentes no festival defenderam que a regeneração urbana deve privilegiar a reutilização e adaptação de edifícios existentes.
A recuperação de património, a reabilitação de espaços devolutos e a transformação de escritórios em novas funções foram apresentadas como formas de criar bairros mais atrativos e sustentáveis, reduzindo simultaneamente as emissões associadas à construção de novos edifícios.
Arquitetos, designers, cidadãos e agentes culturais foram identificados como intervenientes fundamentais para garantir que os projetos urbanos respondem às necessidades das comunidades e promovem uma melhor qualidade de vida.
Mais investimento para acelerar inovação sustentável
O festival dedicou também várias sessões ao papel do investimento, do empreendedorismo e da inovação na criação de soluções sustentáveis e centradas nas comunidades. Uma das iniciativas em destaque foi a NEB Academy, lançada em 2024 para promover conhecimento e competências ligadas à regeneração inclusiva e sustentável.
A academia já ultrapassou as fronteiras da União Europeia, contando atualmente com um polo na Ucrânia e com projetos para novos hubs no Japão e no Brasil.
Durante o evento, a Comissão Europeia anunciou um reforço de 50 milhões de euros para a NEB Academy nos próximos dois anos.
Economia circular ainda tem enorme margem de crescimento
No encerramento do festival, a comissária europeia para o Ambiente, Resiliência Hídrica e Economia Circular Competitiva, Jessika Roswall, destacou o potencial da economia circular para reduzir desperdícios e criar valor económico.
Um dos números que mais chamou a atenção foi o facto de apenas 1% dos materiais provenientes de demolições serem reutilizados atualmente.
A responsável defendeu que a experiência da New European Bauhaus demonstra que sustentabilidade, inclusão e qualidade estética não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, reforçam-se mutuamente.
Segundo Jessika Roswall, as habitações de baixo carbono não só ajudam a reduzir custos para as famílias e para os serviços públicos, como também contribuem para melhorar o bem-estar dos cidadãos.
Troféu da New European Bauhaus já tem vencedor
O festival serviu ainda de palco para anunciar o vencedor do NEB Trophy 2026, um concurso internacional de design dirigido a estudantes. O prémio foi atribuído a Luca Ambrosi, da Academia de Belas-Artes de Carrara, em Itália, pelo projeto Aurora.
Inspirado nas auroras boreais, o troféu apresenta estruturas acrílicas entrelaçadas nas cores da New European Bauhaus: verde para a sustentabilidade, azul para a beleza e amarelo para a inclusão e participação democrática. O seu design, explicou, simboliza esperança, renovação e progresso rumo a um futuro melhor.


