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Home Notícias Política Participação resiste, Seguro assume liderança e o mapa político redefine-se

Política

Participação resiste, Seguro assume liderança e o mapa político redefine-se

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9 Fevereiro, 2026 | 8 minutos de leitura

António José Seguro foi eleito Presidente da República com 66,8% dos votos e prepara-se para ocupar o Palácio de Belém durante os próximos cinco anos, após derrotar André Ventura, que obteve 33,2%. À primeira candidatura presidencial, Seguro alcançou a maior votação de sempre, superando o resultado de Ramalho Eanes em 1976 e o número de votos na reeleição de Mário Soares em 1991. Venceu em todos os distritos, enquanto Ventura conseguiu ser melhor fora do país e apenas em dois concelhos: Elvas e São Vicente, na Madeira. A abstenção (49%) foi a mais baixa das últimas três eleições presidenciais, contrariando previsões e reforçando a dimensão do resultado.

Apesar das fortes tempestades que castigaram o território nacional, que condicionaram acessos e afetaram a deslocação de eleitores em várias zonas do país, os portugueses foram ontem às urnas na segunda volta das eleições presidenciais. A votação decorreu dentro da normalidade e confirmou a eleição de António José Seguro como novo Presidente da República. «A primeira sondagem dava 6%, é muito bonito», disse aos jornalistas que o esperavam, já acompanhado pela mulher, a caminho do encontro com apoiantes. Ao assumir a vitória, deixou claro o objetivo para o mandato: «Servir os portugueses».

No esperado discurso de vitória, celebrado nas Caldas da Rainha, onde reside, António José Seguro foi direto ao momento: «Não abandonaremos, não esqueceremos, nem permitiremos que burocracias se sobreponham à chegada imediata do dinheiro para a reconstrução das zonas afetadas», referindo-se às tempestades que assolaram o país. Saudou a cidadania, exaltou os valores, e disse que os vencedores daquela noite «eram os portugueses e a democracia».

Falou de um Portugal plural, unido na sua identidade coletiva, agradeceu a quem trabalhou nas assembleias de voto, às instituições que sustentam o Estado, e falou com o coração cheio, com emoção e responsabilidade, recordando de onde veio e o que aprendeu — o valor da palavra e da honestidade dada. «As pessoas merecem sempre melhor», disse, acrescentando que pensa igual, que é um de nós, um português entre portugueses, comprometido com um país moderno, justo e em progresso, que não deixa ninguém para trás.

Houve espaço para elogiar os mandatários, e com afeto sublinhou a ligação íntima e fundamental da família, numa troca de olhares cúmplices e sedimentados. . Reiterou ainda a sua lealdade ao Primeiro-Ministro no que toca ao programa legislativo, garantindo cooperação e respeito institucional. Terminou com a ideia central: «sou livre, vivo sem amarras» e garantiu que «vai tratar todos os partidos por igual». Estará «vigilante» e alertou que «o país não pode desperdiçar os próximos três anos». Os interesses, assegurou, ficam «à porta em Belém», recusando a «narrativa da decadência», porque «o medo paralisa», mas o futuro não se espera, faz-se.

Já André Ventura iniciou o discurso felicitando António José Seguro, desejando-lhe «sucesso, pois significa o sucesso dos portugueses». Apesar das congratulações, reforçou a projeção do Chega, destacando o crescimento do partido ao superar a percentagem da Aliança Democrática nas eleições e afirmando que «o Chega é a direita portuguesa». Com mais 300 mil votos do que em 2025, Ventura sublinhou a convicção no futuro, afirmando várias vezes que se trata de um «movimento imparável», mesmo enfrentando, como disse, «um sistema inteiro contra nós».

Depois da confirmação da vitória de António José Seguro, o primeiro‑ministro e líder do PSD, Luís Montenegro, emitiu uma declaração pública em que felicitou o presidente eleito e prometeu cooperação institucional no que considerou um «espírito de convergência» entre Governo e Presidência da República, com vista à estabilidade política e à resposta aos desafios nacionais. Montenegro realçou ainda a «grande maturidade cívica» dos portugueses e garantiu que o executivo centrará esforços na continuidade do programa governativo nos domínios da saúde, educação, habitação e mobilidade, trabalhando de forma construtiva com o novo Chefe de Estado.

Por seu turno, o secretário‑geral do PS, José Luís Carneiro, frisou que o resultado eleitoral reforça a importância de defender os valores constitucionais e democráticos, defendendo que votar em Seguro foi também uma forma de «equilibrar os pratos da balança» num sistema político marcado por maiorias de direita, e destacando a confiança depositada no futuro Presidente como garante desse equilíbrio.

As projeções e o perfil

As projeções de saída das urnas colocavam António José Seguro, candidato apoiado pelo Partido Socialista e por um vasto arco de apoiantes de centro-esquerda e centro-direita moderada, com uma vantagem clara e decisiva, situando-se entre 67% e 73% dos votos, segundo sondagens à boca das urnas.
Do outro lado, André Ventura, líder do partido Chega, embora derrotado, consolidou um eleitorado relevante, refletindo a persistência do discurso populista e a sua capacidade de mobilizar setores eleitorais significativos no quadro político nacional.

Os dados provisórios de participação apontavam para uma afluência de cerca de 45,5% até às 16h, valores que, mesmo em contexto de intempéries, não apontam para uma ruptura dramática face à primeira volta nem para um aumento inesperado da abstenção além do estimado. As projeções de abstenção, entre 42% e 49%, refletem tanto o impacto do mau tempo como um quadro global de desinteresse e distância entre o eleitorado e os grandes ciclos eleitorais — um fenómeno recorrente no panorama político português recente.

Ontem, portanto, testaram-se as forças das instituições no seu momento mais exigente desde há décadas, a medir a confiança dos cidadãos nas instituições políticas e a confrontar, nas urnas, duas visões distintas de futuro para o país — uma centrada na estabilidade democrática e outra na afirmação de discursos mais disruptivos e polarizadores.

Freguesias por apurar no próximo domingo

Cerca de 36.852 eleitores não votaram este domingo nas eleições presidenciais devido às tempestades que afetaram várias regiões do país nos últimos dias.

As cheias, os cortes de estradas e os problemas de acessibilidade levaram as autoridades a concluir que, em algumas localidades, não estariam reunidas as condições de segurança necessárias para a realização do ato eleitoral. Estes cidadãos participarão numa votação suplementar no próximo domingo, 15 de fevereiro, enquanto, no restante território nacional, as eleições decorreram conforme previsto.

António José Seguro — do interior à Presidência

Infância e formação

António José Martins Seguro nasceu a 11 de março de 1962, em Penamacor, uma vila no interior de Portugal, no distrito de Castelo Branco. Desde cedo envolveu‑se na vida cívica e política: participou em jornais escolares e foi ativo em organizações juvenis. Licenciou‑se em Relações Internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa e frequentou o mestrado em Ciência Política no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE‑IUL).

Ascensão política e experiência europeia

Ainda jovem, Seguro destacou‑se na Juventude Socialista, da qual foi secretário‑geral entre 1990 e 1994, e presidiu o Fórum da Juventude da União Europeia — posição que o colocou em contacto com líderes de toda a Europa e consolidou uma carreira que sempre procurou conciliar política interna com visão europeia.

Foi eleito deputado à Assembleia da República em 1991 e, em 1995, integrou o Governo de António Guterres como Secretário de Estado da Juventude e depois Secretário‑de‑Estado Adjunto do Primeiro‑Ministro. Entre 1999 e 2001, representou Portugal no Parlamento Europeu, onde co‑assinou relatórios sobre o futuro da União Europeia e participou no debate sobre o Tratado de Nice.

Parlamento e liderança do PS

De regresso ao Parlamento português, Seguro assumiu posições de relevo, incluindo a presidência de comissões parlamentares e a liderança da bancada socialista. A sua carreira culminou em 2011, quando foi eleito Secretário‑Geral do Partido Socialista com cerca de 68% dos votos dos militantes, sucedendo a José Sócrates num período difícil para o partido após derrotas eleitorais.

Durante o mandato, procurou reposicionar o PS no centro‑esquerda e adotou uma postura crítica, mas construtiva, em temas como o Orçamento do Estado — uma estratégia que gerou debate interno sobre prioridades e direção política.

Afirmação como figura pública e regresso à política

Após deixar a liderança do PS em 2014, Seguro continuou ativo como deputado, comentador e professor universitário, lecionando disciplinas de teoria política e relações internacionais em universidades portuguesas.

A sua carreira ganhou novo impulso em 2025, quando anunciou a candidatura à Presidência da República, apresentando‑se como uma opção moderada e suprapartidária, capaz de unir diferentes sectores do eleitorado em defesa da democracia e das instituições constitucionais.

Campanha presidencial e chegada a Belém

Na campanha para as presidenciais de 2026, António José Seguro enfatizou a defesa dos valores democráticos e a promoção da coesão nacional. A sua estratégia de diálogo e moderação conseguiu reunir um eleitorado variado, atraindo apoios que atravessam diferentes setores do espectro político.

Com 66,8% dos votos, António José Seguro registou a maior votação de sempre para um candidato à sua primeira eleição presidencial. O resultado evidencia a sua capacidade de mobilização e a resiliência de um eleitorado que manteve confiança nas instituições democráticas, mesmo perante os desafios políticos e sociais recentes. A eleição reforça o seu perfil de liderança centrada na estabilidade e no rigor institucional, num momento em que o país parece procurar segurança e continuidade.

Hoje, Seguro será recebido por Marcelo Rebelo de Sousa, presidente cessante, às 16 horas, no Palácio de Belém, e tomará posse a 9 de março, assumindo formalmente o cargo de Chefe de Estado.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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