«Aprendi que, para nós, o teletrabalho não funciona»


O Grupo Vendap é líder no mercado de aluguer de equipamentos e não parece ter sido afetado grandemente pela crise. Assim o garante Francisco Ferreira do Amaral, CEO do Grupo, em toada também ela dissonante no que respeita às veleidades futuras do teletrabalho.

Para tempos de crise e incerteza, nada como fazer valer a racionalidade dos números. Ou de como o otimismo pode ser o melhor antídoto para vencer as adversidades.

A entrevista foi conduzida por Francisco X. Froes, no âmbito de um projeto académico desenvolvido em conjunto com Miguel Pina e Cunha (professor de liderança da NOVA SBE e diretor da revista Líder) e Arménio Rego (professor da Católica Porto Business School e diretor do LEAD.Lab) durante o período de confinamento em maio.

Quando é que se deu a sua tomada de consciência da crise que estamos a atravessar?
Aconteceu, por assim dizer, a dois tempos. Às primeiras notícias confesso que não liguei. Só quando o panorama começou a afetar o nosso negócio, a 16 de março, me apercebei da dimensão do que aí vinha. Naquela segunda-feira em começaram os cancelamentos todos. Até lá não fizemos nada, mantivemos o rumo.

Tinham, contudo, algum tipo de preparação para uma situação semelhante?
Não tínhamos nada preparado. A 16 limitámo-nos a agir muito rapidamente. Começámos por separar as pessoas todas. Temos sorte, pois temos um terreno grande, de 14 hectares, com módulos de contentores. Foi tudo para os contentores para garantir que não havia contágio, EPI e tudo isso. Montámos isso em três dias. A partir daí, foram tomadas medidas de redução de custos. Temos sorte que temos muitos números a gerir a nossa atividade. Métricas que dizem quantas pessoas são necessárias para cada nível de atividade e percebemos rapidamente quem devia cá estar e onde. Como também tínhamos férias atrasadas, mandámos essas pessoas para casa, tal como colaboradores do escritório e outras atividades. Não alugávamos gruas, metade dos motoristas foram para casa. Na administração 1/3 foi para casa. Recorremos também ao layoff, tentando recuperação de custos por aí. Andámos quinze dias a ver a atividade e o que podia ser feito. Quando esta estabilizou fomos para o layoff.

De quantas pessoas estamos a falar?
De 310 pessoas. Entre os que foram para férias e layoff reduzimos para cem pessoas. E houve solidariedade entre todos aqueles que foram em teletrabalho, que tinham filhos em idade escolar, etc. Nos escritórios ficaram 70% das pessoas, que vão rodando.

Que decisões foram na altura tomadas em real time?
As decisões, para nós, foram muito fáceis de tomar. Como temos uma estrutura de controlo bem afinada, quase todas as decisões foram em função dos números que saíam, só. Exemplo: pessoas que processam faturas de fornecedores. Sabemos quantas faturas estão a entrar e imediatamente determinámos quantas pessoas eram precisas para manter a empresa a funcionar. E foi por aí fora. Não houve grandes decisões no terreno do desconhecido. Talvez as decisões mais difíceis tenham sido as de cancelar alguns investimentos que íamos fazer em mais equipamentos, e que tivemos de cancelar. O que pode ter consequências a longo prazo.

Quais as vossas preocupações estratégicas a curto e médio prazo?
Temos uma parte de Construção e Indústria e uma parte de Eventos. A dos Eventos passou a 0! Teve um impacto no equipamento em que íamos investir. Dos €7,5M cancelamos €2,5M. E vamos ver o que os próximos tempos nos reservam…

Como é que vai reequilibrar a hard part e a soft part da empresa?
Vai manter-se. Acho que o teletrabalho não funciona bem, em particular numa empresa de serviços como a minha. Quando tem de ser tem de ser, mas não dá para a minha empresa. Quando se tem muita coordenação de serviços uns com os outros, não são pessoas isoladas a trabalhar… E este modelo não funciona em teletrabalho. Já era contra, agora sou mais ainda.

Qual a descoberta mais surpreendente neste processo?
Nada. A redução de custos correu como era suposto ocorrer. Para se ter uma ideia praticamente cumprimos o Orçamento de março com redução em faturação e custos. Claro que afetou os meses seguintes, mas não está a haver grande problema.

E a grande lição a retirar desta crise?
(risos…) Aprendi que, para nós, o teletrabalho não funciona.

E quanto à retoma, como será feita?
Não faço a mínima ideia. A indústria estabilizou entre ¾ e 2/3 do nível normal. Já sentimos uma subida, ainda que muito ligeira. Na parte do aluguer, quando começa é rápido. Julgo que para breve vamos ter uma recuperação a 90% e depois gradual até ao fim do ano, dependendo de que compras o Governo lançar. De resto, aguardo serenamente as instruções da DGS.

A COVID-19 numa palavra?
Não me está a afetar muito. Nem como empresa. Uma ligeira baixa. Este ano vamos ganhar menos 5% a 10% de EBITA do que o previsto em orçamento. Paciência.

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