As capacitações digitais básicas são o alfabetismo do século 21 – Portugal à conquista do digital

Here we go again é o mote da organização Portugal Digital cujo papel na atual era da quarta revolução industrial, caracterizada pela exponencial digitalização da sociedade e da economia, é potenciar a transição de Portugal para um país mais digital e, consequentemente, mais competitivo.

Desde a época dos Descobrimentos, no século 15, em que Portugal ligou a Europa a África, América e Ásia, chega novamente o momento de enfrentar o medo e o desconhecido, com um espírito de conquista e união para se chegar a um mundo globalmente conectado, entre cidades, pessoas e serviços, com uso da inovação e criatividade para se formar uma “imaginação”.

Vanda de Jesus, Diretora Executiva do Portugal Digital esteve presente na 3ª edição da Leading People – International HR Conference, “De Sapiens a Digital e até onde?”, com o propósito de mostrar a missão e a ambição de um “Portugal, Nação Digital”. Na sua talk faz o enquadramento do país, enquanto sociedade digital, no panorama europeu, e realça a necessidade urgente de elevação das competências digitais.

Pouco mais de um ano após a apresentação do Plano de Ação para a Transição Digital, coloca-se a questão, onde estamos e para onde vamos? Num país onde 48% da população não tem competências digitais básicas, os desafios são muitos e o espírito de missão tem de ser partilhado entre todos.

Vanda de Jesus começa por destacar a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, “como um momento muito importante para o país, em que após estes seis meses foi possível demonstrar como estamos numa Europa a 27 e como podemos fazer a ligação com outros continentes e países, nomeadamente Brasil e África”.

Entre os vários marcos do caminho feito em direção à digitalização, motivos de orgulho para Portugal, são referidos a criação de uma aliança que reúne os national bodies do empreendorismo de toda a Europa em Lisboa, a Europe Startup Nations Alliance (ESNA), para além da inauguração do cabo submarino de fibra ótica, EllaLink, que liga Fortaleza a Sines. Esta ligação demonstra como “Portugal pode assumir-se como uma porta de entrada para uma estratégia de dados nacional que ligue os vários continentes”. Vanda de Jesus lança ainda o desafio para empresas, líderes e organizações aderirem e assinarem a Declaração de Lisboa Digital Democracy with a Purpose, uma carta disponível online, que será a base para a Carta dos Direitos Digitais Europeus.

No enquadramento digital do nosso país, e segundo o digital economy and society index, relativo a 2020, Portugal encontra-se na 19ª posição. Segundo Vanda de Jesus, “acreditamos que este ano vamos subir algumas posições, devido ao human capital e competências digitais que são dos principais pilares considerados pelo Plano de Ação para a Transição Digital”. Nesse sentido, chama a atenção para Portugal “aproveitar estas novas oportunidades (Brexit e Presidência dos EUA), para atrair investimento, pois somos dos países mais seguros, com uma melhor qualidade de vida, com muito talento, infraestruturas e tecnologia”.

Conforme refere, são três as áreas de oportunidades de crescimento: 1. aproveitar a relocalização do investimento; 2. apostar na reindustrialização por via do digital; 3. aumento da capacidade de atração de talento, em que por sua vez o Plano de Ação assenta em 3 pilares: Pessoas (capacidade e inclusão digital), Empresas (transformação digital) e Estado (digitalização do Estado).

O reforço para a necessidade de competências digitais e capacitação, é ainda mais vincado quando os números mostram que apenas 52% da população portuguesa tem competências digitais básicas. Ao cruzar esta vertente com a automação dos postos de trabalho, em que 68% das funções serão automatizadas em 2030, é evidente a exigência de uma requalificação para a transferência de profissões digitais, que irão representar 6 em cada 10. Curiosamente, essa aprendizagem está também na vontade e no propósito de cada um, quando um recente estudo da Landing Jobs refere que 25% das pessoas que têm competências digitais o conseguem por auto aprendizagem.

Quanto às prioridades do Plano de Ação, destaca-se a atenção aos mais jovens no sentido de os capacitar para uma maior empregabilidade e o programa “Eu sou digital”, que irá enquadrar 1 milhão de pessoas que estão neste momento excluídas de uma participação digital cívica. Vanda de Jesus faz o apelo ao esforço conjunto de empresas e organizações para que o número de 18% de pessoas que não estão ligadas digitalmente passe a 5% em 2030, afirmando que “as capacitações digitais básicas são o alfabetismo do século 21”.

No entanto, nas suas palavras, “a explosão do digital não pode criar um fosso maior em termos de inclusão, que pode acontecer tanto a nível do género ou por via das competências”. Daí que o programa de formação para a requalificação digital de ativos (Emprego + digital), é uma outra medida do Plano, com a meta de chegar aos 50 mil trabalhadores em 2021 e aos 200 mil nos próximos 4 a 5 anos, algo que só é possível com o compromisso dos líderes num esforço conjunto. Quanto à digitalização do Estado destaca a estratégia cloud para a Administração Pública para além de uma estratégia nacional de smart cities e a criação de um “selo” de maturidade digital para as empresas.

Nas palavras finais, Vanda de Jesus partilha a sua inspiração, do autor Simon Sinek, que fala de um “Infinite Game”. “Temos todos de ter a consciência que estamos num jogo infinito”, e tal como diz o autor “não existe um destino definido, apenas um caminho, uma direção e um crescimento constante”. Para tal a coragem para liderar é um requisito fundamental, principalmente no momento de mudança que atravessamos, para além da flexibilidade e adaptação.

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