As ciências juntas na luta contra o inimigo

As ciências juntaram-se na luta contra a COVID-19. Nunca antes se viu tamanha união nesta causa de vida ou morte. Com os projetos de investigação que lidera na área das Neurociências em suspenso, Luísa Lopes, neurocientista, e o seu grupo de investigação do Instituto de Medicina Molecular, estão agora também focados em fazerem tudo o que estiver ao seu alcance para combater este vírus.


Ser cientista numa das épocas mais críticas para a ciência, que luta contra o tempo, como a faz sentir?

Há nisto uma dualidade curiosa. Por um lado, em Portugal, como em muitos países do mundo, as atividades de investigação extra-COVID19 foram suspensas, assim como todas as reuniões científicas presenciais, aulas, cursos, pelo que obviamente no caso da minha equipa, para a qual 70-80% da atividade se baseia em experiências de laboratório, tivemos de adaptar estratégias e focar-nos nas tarefas possíveis em teletrabalho, nomeadamente organização de webinars e reuniões científicas em videoconferência, privilegiar a análise de dados, a escrita de novos projetos, ou a finalização de teses e manuscritos. Sendo que muitos dos nossos projetos duram 2-3 anos, este tempo de paragem é significativo e pode representar atrasos consideráveis. Por outro lado, criou um sentido de emergência e de mobilização sem precedentes na comunidade científica para apoiar de forma possível neste contexto de epidemia, recorrendo à formação que temos. Muitos de nós colaboram na divulgação de informação fidedigna sobre a epidemia, auxiliam nos testes diagnóstico (tenho várias pessoas da equipa a trabalhar nisso), na recolha de amostras de doentes, na análise epidemiológica, na conversão industrial para fabrico de materiais essenciais. Todos sentimos que, mais do que os nossos projetos individuais, a prioridade agora é conhecermos mais e melhor esta doença, e dar respostas. E posso dizer que ser cientista neste contexto nos dá um foco e sentido de utilidade que é muito positivo para enfrentar o resto das dificuldades.

Acha que vamos conseguir encontrar um medicamento eficaz? E quando?
Em tempo útil, acho pouco possível. Pelo que sabemos de outros vírus semelhantes, também não existem medicamentos específicos eficazes. Há muitas terapias que se utilizam para os sintomas que se desenvolvem com a doença e essas estão a ser utilizadas, sobretudo nos cuidados intensivos. Mesmo que se encontre um medicamento eficaz, ou temos a sorte de ser um já usado noutra patologia, e portanto já testado para segurança e dose, o que tornaria a sua implementação muito rápida; ou caso se descubra uma substância nova, demorará algum tempo até poder ser utilizado em segurança em pacientes.

E a vacina? Todos falam em soluções a caminho, mas até lá não ficaremos imunes naturalmente?
Podemos dizer que há uma grande probabilidade de se conseguir uma vacina, e há vários processos de fabrico diferentes a serem testados neste momento por forma a acelerar uma possível produção. Mas por ser nova e necessitar de testes, demorará algum tempo até poder ser utilizada, pelas mesmas razões. Para este vírus, ainda não sabemos de certeza se ter a doença nos torna imunes. O que sabemos, a partir de dados de outros coronovírus semelhantes, é que provavelmente ter a doença diminui a possibilidade de reinfeção, mas dado o pouco tempo de análise teremos de aguardar. Mas a convicção da comunidade científica é que uma primeira infeção conferirá uma imunidade que durará alguns meses, sim. O que significa que daqui a uns meses, um ano, poderemos não estar imunes novamente, daí a importância da vacina. Provavelmente teremos um cenário como o da gripe em que haverá surtos sazonais.

Uma segunda vaga do vírus, ou terceira, é um cenário possível?
E nesse momento, que medidas de saúde pública considera apropriadas, atendendo ao ato de parte da população já ter sido infetada na primeira vaga? Neste momento e sem vacina, o grande problema é que a maioria da população não está imune, pelo que é suscetível. Se a maioria ainda não teve a doença, basta aliviarmos as regras de distanciamento social para termos mais surtos, naturalmente, até se conseguir a chamada imunidade de grupo, que se atinge quando uma considerável percentagem da população (60-70%) está infetada. Ou seja, qualquer retoma da atividade provavelmente terá de continuar a limitar eventos públicos, concertos, jogos de futebol, situações em que há grandes multidões juntas.

Enquanto neurocientista, como olha para esta realidade que vivemos?
Há dois fatores que saliento em termos de funcionamento cerebral. Primeiro, o facto do isolamento social ser um fator de risco para as doenças mentais, e para as doenças neurodegenerativas, e teremos de lidar com isso e ter preocupação maior sobretudo com os idosos. O acompanhamento destas doenças não tem o mesmo grau que tinha antes do Estado de Emergência, embora se faça o possível. Segundo, são as perturbações de sono que advêm quer do stress e incerteza, que pelo facto das pessoas estarem menos expostas a luz natural e às alterações de rotina. Há recomendações da DGS acerca disso e é importante que as pessoas tenham estes aspetos em conta. Por isso sempre defendi o exercício físico e os passeios na rua, porquanto se cumpram as regras de distanciamento. Proibir isso não faz sentido nenhum em termos de infeção, nem em termos mentais.

Acha que o nosso país está a fazer o que deve ser feito ou podia e pode fazer mais?
Comparando com outros países de forma objetiva, acho que Portugal está a ter uma resposta exemplar, no conjunto. Penso que as autoridades não foram céleres no início, sobretudo na gestão de stocks, mas a sociedade civil colmatou essas falhas com uma mobilização exemplar. O governo atuou quando devia, o nosso país conseguiu conter com sucesso os casos, de forma semelhante à Áustria e Alemanha, conseguiu ter uma cobertura de testes aos níveis desses países e teve em geral um comportamento e adesão da população que merecem aplauso. Tendo em conta as limitações que o nosso país tem e os recursos aquém dos países mais ricos, estamos de parabéns, sobretudo os profissionais do Sistema Nacional de Saúde. Os partidos políticos uniram-se, as várias vertentes da sociedade, salvo raras exceções estão a ser ouvidas e agem em conjunto, e não temos as divergências sociais e políticas que se vêm em países com claras divisões sociais e regionais como em Espanha ou França. Tudo isso tornaria uma realidade difícil de gerir ainda mais complicada.

Acha que do ponto de vista da investigação também os projetos que não estão com enfoque no combate a esta doença ficarão para segundo plano?
Sim, mas estamos confiantes que o financiamento para os projetos, assim como para os salários possam ser alvo de uma extensão excecional como acontece noutros países. Além disso, este é um problema global, não só de Portugal, pelo que estou confiante que haverá uma resposta global que nos permitirá recuperar mais rapidamente. Além disso, muitos de nós procuram nesta fase de teletrabalho, aproveitar o tempo para estudar e discutir projetos novos com mais tempo uma vez que os colegas (exceto os que estudam a COVID-19) a nível internacional estão mais disponíveis.

No vosso centro de investigação estão a sofrer alguns impactos desta situação?
O nosso centro fechou a meio de março. Todas as atividades laboratoriais foram suspensas e todos os projetos interrompidos, e muito do espaço e recursos humanos foram reconvertidos, e bem, para testes diagnósticos ao coronavírus, para análise de amostras de pacientes e para desenvolvimento de testes serológicos. Essa é a prioridade neste momento. Mas obviamente que tem um impacto enorme na nossa atividade.

Entrevista Catarina G. Barosa

[Pode ler aqui a entrevista completa]

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