“As empresas têm de preencher quatro requerimentos para que lhes atirem uma boia”

O dinheiro já está a chegar às empresas, pergunta Isabel Neves, presidente do Clube Business Angels de Lisboa, também conhecida pela sua participação no programa de televisão Shark Tank como investidora individual em novos negócios. “Não está, infelizmente. Entre o anúncio dos milhões feito pelo Governo até à chegada dos tostões às empresas há uma enorme diferença. As vítimas são as empresas que não têm forma de preservar o emprego se não lhes chegar esse apoio”, responde claro e direto António Saraiva, o presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, convidado da Peer to Peer Session para empresárias organizado pela empresa de eventos CPL Meetings & Events.

“As empresas têm de preencher quatro requerimentos para que lhes atirem uma boia”, resume o líder que vai no seu quarto e último mandato como presidente da CIP, usando a imagem certa para enfatizar o problema de sempre em Portugal: a excessiva burocracia, o peso do Estado com que o nosso tecido empresarial tem dificuldade em conviver. Uma economia feita 96% de microempresas, sem recursos e gabinetes especializados em lidar com os apoios públicos.

Como é que podemos ajudar o Estado a criar um plano que suporte estas empresas, motor da nossa economia, pergunta Catarina Olim, outra das participantes do webinar À Conversa com António Saraiva, moderado por Linda Pereira, empresária luso-britância e conselheira do ministro da Economia de Cabo Verde.

“O associativismo é a resposta” defende António Saraiva, puxando naturalmente a brasa à sua sardinha, mas com um argumento que nunca fez tanto sentido como hoje em que precisamos de união para superar os desafios da crise. “Estamos – a CIP, junto com a consultora Deloitte – a apoiar todas as empresas, incluindo as que não são associadas com metodologias que facilitam o acesso aos apoios do Estado que disponibilizou através da Linha Capitalizar COVID.

Primeiro eram 200 milhões de euros, depois 400 milhões e agora já são 3 mil milhões de euros para as PME em setores como Turismo e Restauração, afetados pela pandemia de COVID-19. O Estado devia ter contabilizado melhor a dimensão do problema e lançado uma linha de crédito robusta, logo desde o início, defende o responsável, além de evitar que os bancos fizessem “exigências absurdas” para disponibilizar o capital aos empresários.

O que vem primeiro: a economia ou a saúde?

Neste momento “estamos a combater dois vírus: o que origina a doença COVID-19 e o vírus do medo e pavor que se instalou”, defende o palestrante em resposta à questão da empresária Catarina Castro, quando pergunta se maio será o mês da economia ou se vamos conseguir segurar a saúde, sabendo que ambas as áreas estão a cair.

“Temos de combater as duas frentes. A frente da saúde é necessária ao mesmo tempo que reduzimos gradualmente o medo e reinstalamos a economia. “No mês de maio faremos um regresso gradual à economia, apesar de não ser em todas as atividades económicas, e o governo nessa data vai apresentar uma metodologia – em que a CIP está envolvida- para ajudar a que isso aconteça.”

E a segunda fase da doença, como é que o governo vai lidar com ela, pergunta Catarina Barosa, fundadora da editora Tema Central? “Não sabemos bem o que estamos a tratar, é um vírus novo. Neste momento estamos a gerir o regresso à economia”, defende Saraiva que entrou para a CIP em 2010 quando vivíamos a crise financeira e tínhamos a troika a resgatar o País.

“Estamos a atravessar uma crise que não é igual a nenhuma outra e por isso temos de ter respostas diferentes. É nestes momentos que os lideres se revelam”, afirma António Saraiva em resposta a Mafalda Almeida quando pediu dicas e conselhos para os CEO conseguirem manter a cabeça à tona da água. “A liderança faz-se dando o exemplo. Os líderes de hoje têm de manter a cabeça à tona da água e observar o horizonte, criar novos modelos de negócio e desenhar estratégias adequadas a cada realidade empresarial.”

O representante dos patrões portugueses, que iniciou o seu último mandato em plena crise da COVID-19 está seguro que “se não voltarmos à economia, esta crise vai destruir-nos. E aí será uma crise social com uma dimensão para a qual os estados não têm receita.”

Na próxima Peer to Peer Session, dia 27 de abril, Isabel Neves vai falar de Estratégia e Apoio às Empresas.

Texto Maria João Alexandre

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