As máscaras expressam emoções?

Para mitigar os efeitos perversos das máscaras nos relacionamentos sociais, alguém se lembrou de um novo negócio: estampar na máscara a face do seu utilizador. A ideia faz sentido: ao interagirmos com a pessoa, vemos os contornos da sua face e identificamos nela alguma emoção. É possível, pois, que nos sintamos mais confortáveis ao interagir com alguém que mostra o seu rosto estampado na máscara do que com outra pessoa simplesmente mascarada. Será mesmo assim? Tenho dúvidas.

Há dias, lecionando a primeira aula do semestre, convidei os alunos a apresentarem-se à turma. Após várias apresentações, deparei-me com uma aluna em cuja máscara estava o rosto estampado. Fiquei contente – finalmente, eu deparava-me com alguém que tinha um “rosto”. Quando partilhava com a aluna o meu contentamento (“gosto da sua máscara”), o meu cérebro conduziu-me a esperar… movimentos no seu “rosto”. Eu havia vislumbrado uma emoção na aluna e, ao conversar com ela, esperava ver alguma reação emocional.  Naturalmente, o “rosto” continuou a sorrir como se se eu nada tivesse dito – e o meu cérebro informou-me da minha frustração.

Quando interagimos com alguém que enverga máscara, prestamos atenção à parte do rosto que não está coberta – tentando adivinhar a expressão facial e a emoção correspondente. Mas quando a máscara tem o rosto estampado, estamos “programados” para prestar atenção a esse rosto. O resultado pode ser ainda mais frustrante do que quando tentamos vislumbrar as expressões faciais e as emoções por trás de uma máscara simples.

Somos seres sociais-relacionais. Comunicamos através de palavras e, em grande medida, de gestos e expressões faciais. A face dos nossos interlocutores é uma torrente de mensagens, muitas delas subliminares, que o nosso cérebro interpreta – por vezes erradamente, reconheça-se. As máscaras, mesmo quando o rosto está nelas estampado, são um obstáculo a esse mundo comunicacional e interpretativo.

Por seu turno, a comunicação online, mesmo quando assenta em imagens vídeo, não é um substituto pleno dessa comunicação cara-a-cara, sem máscara. O hiato temporal (ainda que ínfimo e impercetível) entre o momento em que escutamos a voz do nosso interlocutor e vemos a sua expressão facial no monitor gera confusão no nosso cérebro. Essa é uma razão para que muitos de nós, como líderes de equipas, professores ou comunicadores, sintam mais fadiga depois de uma reunião ou aula online do que após uma sessão presencial.

Alguns prognósticos sobre o futuro do teletrabalho subestimam o efeito destas idiossincrasias dos animais humanos. É provável que o teletrabalho, atendendo aos seus potenciais benefícios, seja reforçado no futuro próximo. Mas o mais expectável é que venha a imperar o modelo híbrido. Algumas pessoas trabalharão quase exclusivamente em modo remoto, outras operarão quase sempre em modo presencial, e outras equilibrarão os dois modos. Todavia, as interações presenciais são imprescindíveis. Os espaços físicos das organizações em que trabalhamos são essenciais para fazer jus à nossa humanidade. Facilitam a criatividade e a imaginação que emergem das interações espontâneas, não planeadas, que ocorrem nas escadas, no elevador ou no bar. Permitem receber maior diversidade de estímulos provindos do mundo que nos rodeia. Facilitam a expressão de empatia e de confiança. Ajudam a criar e desenvolver a cultura organizacional, e a edificar um chão e um propósito comuns.

Assim se compreende como é difícil, ou mesmo impossível, fazer operar uma organização em modo exclusivamente online. Igualmente problemática é a fragmentação que pode ocorrer, numa mesma organização, entre trabalhadores presenciais (“perto da vista, mais perto do coração”) e trabalhadores online (“longe da vista…”). O grupo Automattic (cujo produto/empresa mais popular é o WordPress) emprega cerca de 1300 pessoas que operam remotamente em dezenas de países. Já assim era antes da pandemia. Mas os empregados são encorajados a desenvolver relações sociais, online e presenciais, com membros externos às suas equipas. Cada ano, uma grande reunião semanal junta (juntava!) no mesmo espaço físico todos os empregados, falando dezenas de línguas diferentes. Sem esta cola social assim desenvolvida, a cooperação e o espírito de equipa em regime de teletrabalho ficariam aquém do desejável.

A nossa humanidade requer presença física. Para que as nossas interações sociais sejam mais frutuosas e satisfatórias, também precisamos da expressão dinâmica de emoções. A expressão estática ou fotográfica de emoções não substitui essa riqueza. Talvez por isso, o negócio das máscaras estampadas com o rosto do utilizador não singrou – pelo menos até agora! Liderar é sempre exigente – dada a complexidade dos humanos, animais sociais racionalmente limitados. É ainda mais exigente em contexto virtual e, acima de tudo, em tempo de pandemia.


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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