As não-notícias

Com a “CMTVização” dos media portugueses, a atenção noticiosa concentra-se no que está a dar. O que está a dar, no momento, é o Covid-19, desde já vencedor do título de “palavra do ano”. A adoção por todos os canais da lógica que antes se criticava ao CM é, um pouco como na política, reveladora de uma certa falta de imaginação: todos falamos do mesmo – no caso da política, de André Ventura. É compreensível: os factos episódicos geram atenção, ao passo que a análise dos processos que os originam dá trabalho sem garantir audiência.

Por isso, a epidemia mediática de Covid mete todas as outras notícias de baixa. Mas há não-notícias que contam, como por exemplo:

        • a barbaridade que ocorre na Síria, uma tragédia humana que desce para rodapé e que é digna de atenção a sério, nomeadamente sobre o papel que a UE devia ter no processo e que não tem;
        • as revelações sobre a justiça, que muito dizem sobre o país que ainda não temos;
        • a revolução em curso, silenciosa porque os eventos veem-se mas os processos não, no mundo do trabalho.

Relativamente a este último ponto, Portugal tem um sério problema de produtividade mas prefere o sensacionalismo continuado à análise preparatória do futuro. Felizmente, onde falha a TV, continuam a atuar as editoras. A Vogais acaba de lançar Inteligência Artificial, de Nick Polson e James Scott. Vamos viver com as consequências da IA durante muito tempo, bem para lá do Covid-19. Como bem costuma dizer Miguel Monjardino, nas páginas do Expresso, talvez valha a pena dedicar algum tempo a este assunto.

Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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