Em Portugal, mais de um milhão de Pequenas e Médias Empresas (PME) representam dois terços do emprego e mais de metade do valor acrescentado bruto. No entanto, estas organizações continuam a ser tratadas como dados estatísticos e raramente como protagonistas das histórias que sustentam a nossa economia real. De facto, estas empresas representam mais de […]
Em Portugal, mais de um milhão de Pequenas e Médias Empresas (PME) representam dois terços do emprego e mais de metade do valor acrescentado bruto. No entanto, estas organizações continuam a ser tratadas como dados estatísticos e raramente como protagonistas das histórias que sustentam a nossa economia real. De facto, estas empresas representam mais de 90% do tecido empresarial português.
Uma iniciativa que pretende contrariar esta realidade é o concurso ‘Prémios Heróis PME’, um projeto que premeia empresas nacionais que se distinguem pela resiliência, visão estratégica, inovação e contributo económico para o país. A cerimónia da 7ª edição decorreu na sexta-feira, em Lisboa, perante uma plateia composta por representantes do setor empresarial, instituições públicas e patrocinadores.
Este ano, os Prémios registaram um recorde absoluto de participação, com um total de 135 candidaturas recebidas, o que representa um aumento de 52% face a 2024, provenientes de 86 empresas diferentes – mais 56% do que no ano anterior.
Bernardo Maciel, CEO da Yunit Consulting e João Pedro Guimarães, Secretário-Geral da Câmara do Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP), fizeram parte do júri desta edição dos Prémios. À Líder, relatam como tem sido a evolução deste certame e apresentam um olhar conhecedor do estado das PME e quais as tendências que se avizinham.

As PME representam a maior parte do tecido empresarial português e são responsáveis por cerca de 76,2% do emprego nacional. Qual é o principal fator que tem tornado as PME tão prementes na economia portuguesa?
Bernardo Maciel (BM): Acho que há duas perspectivas que tornam as PME relevantes: uma é obviamente quantitativa, estamos a falar de mais de 90% das empresas em Portugal, dois terços do emprego criado, mais de 50% do valor acrescentado bruto. É uma representatividade bastante relevante para o nosso país.
Nas derivadas qualitativas, acho que ainda se torna mais relevante o seu papel. Desde logo, são empresas com um foco mais nacional, o que contraria muito daquilo que se vai falando sobre a necessidade da internacionalização. É uma faceta importante, mas estas empresas estão a garantir aquilo que é a empregabilidade e muitas vezes até a representatividade fora dos grandes centros urbanos.
Por outro lado são também, pelas suas características, empresas com um grau de flexibilidade e de agilidade muito grande. Isto faz com que muita da inovação, investigação e desenvolvimento que se vai fazendo em Portugal acabe por ser gerado por estas pequenas e médias empresas. Em ciclos económicos menos favoráveis, são entidades que não pegam na mala e vão para outro lado, o que garante alguma estabilidade em momentos de distúrbio. Os últimos anos têm sido pródigos nessa matéria, desde a Crise do Subprime até ao recente conflito entre Israel e Irão.
Há também um fenómeno – que eu diria ser até social – bastante importante. Estas são empresas que garantem a empregabilidade ao terem uma relação familiar muito forte entre os seus colaboradores, porque são empresas pequenas e de tradição familiar.
João Pedro Guimarães (JPG): O facto de serem empresas familiares é um tema fundamental, associado até ao seu crescimento. Outra questão é que, falamos muito de PME, mas o número de microempresas – dentro das pequenas, existem as micro – é muitíssimo alto. A necessidade de fazer essas empresas crescerem, eventualmente passando de micro para pequenas e depois de pequenas para médias, é um trabalho relevante. Portugal tem mais microempresas do que outros países têm em termos proporcionais e é preciso ajudá-las a crescer.
O tema da flexibilidade e da inovação é um tema extraordinário porque de facto mostra a necessidade constante de adaptação aos mercados. É necessário estar constantemente a adequar serviços e produtos no mercado concorrencial.
Uma vez ouvi dizer que as pequenas empresas eram como aquele poeta que fazia poesia sem o saber. Falava em verso, fazia poesia, mas não percebia que o estava a fazer.
BM: É curioso o que estás a destacar. Na Yunit, trabalhamos muitos benefícios fiscais, e aquilo que o João Pedro acaba de destacar é, em rigor, o trabalho que a minha equipa faz com as pequenas empresas deste país. São projetos que as empresas fazem ou atividades, sem a mínima noção de que estão a promover investigação e desenvolvimento.
Nós ajudamos a construir um projeto capaz de trazer benefícios fiscais, em situações que são vistas como business as usual, mas que de facto têm cadeias de valor importantes: uma cola nova para calçado, uma app, uma peça, um molde. Isto é um tipo de inovação, investigação e desenvolvimento que é muito endémico, que fica em Portugal, nas nossas pessoas e equipas produtivas.
Só 3,4% das empresas conseguiram passar de micro a pequenas, de pequenas a médias e de médias a grandes entre 2019 e 2023, segundo um estudo da Associação Business Roundtable Portugal. O que está a faltar no país para que as empresas cresçam?
BM: Nas microempresas há aqui uma componente relevante que não é favorável a este crescimento. Muitas vezes, trata-se mais de autoemprego, ou provavelmente uma empresa a começar a nascer de características pequenas, e isso pesa negativamente nessa estatística.
Não vou dizer que é óbvio, mas é natural e a ambição de qualquer empresário fazer com que as empresas dêem esse salto. Mas não pode ser por decreto ou criando um conjunto de narrativas que as empresas passam de pequena a média e de média a grande.
Por vezes, crescer não se traduz na dimensão, é sobretudo procurando vantagens competitivas que nos tornem mais fortes e mais capazes de competir. Podemos estar a passar uma fase de maturidade nas PME, que dispararam significativamente depois do 25 de Abril, contrariando aquilo que era a lei de condicionamento industrial do período do Estado Novo. Pode existir aqui um fenómeno de novidade, de aventureirismo, muitas vezes sem um conhecimento muito profundo do desafio que se apresenta. Penso que estas tendências vão ser normalizadas com uma maturidade corporativa e entrada em cadeias de valor e lógicas globais que a economia embala, incontornavelmente.
Às vezes o crescimento por si só não é necessariamente uma boa notícia.
JPG: Muitas vezes, as pessoas não se lembram de onde é que vem todo este crescimento inicial, ou as fases históricas e financeiras. Quanto à dimensão das empresas, naturalmente falamos da escala do próprio país e consequentes dimensões dos mercados.
O crescimento também está dependente do acesso a investimento e financiamento. É importante falar de liderança, não apenas na formação para líderes, mas também na formação técnica e especializada. Se houver mais formação e investimento, naturalmente as empresas crescem.
A característica que o Bernardo referiu, o facto de as empresas serem familiares, cria a tendência para que se mantenham dentro da família, o que cria uma abordagem de crescimento e governance muito diferente.
BM: O facto de nós termos empresas de matriz familiar cria um ADN da empresa e da cultura que é tão relevante na sua forma de estar no mercado que traz essa desvantagem numa lógica internacional e global.
JPG: A título de exemplo, trago o caso da ‘Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha’, constituída por vários produtores que, para ganhar escala, se juntaram e passaram a estar representados através de uma só pessoa em diferentes mercados. Se quiserem tentar o mercado de internacionalização, não precisa de ir cada um dos produtores para um país apresentar aquilo que têm para vender.
Muitas vezes, a escala está também ligada a processos associativos que devem e podem ser dinamizados e que nada têm a ver depois com a detenção de capital, aumento do número de funcionários ou com a faturação.
Quais são os maiores entraves, as maiores dificuldades, que as PME e as microempresas encontram do ponto de vista financeiro e burocrático?
BM: Eu posso dar a perspetiva do acesso ao capital e do financiamento. Há uma parte que eu não associaria ao excesso de burocracia, mas apenas a processos normais neste tipo de logística e que, pelo facto de serem microempresas ou PME, não estão preparadas para dar uma resposta rápida e ágil às entidades que dão esse apoio financeiro.
Para poder recorrer a financiamento há aqui uma perda de tempo, podemos chamar de burocracia, mas que é incontrolável para que as entidades avaliem a capacidade de financiamento das empresas. Depois há uma segunda derivada, que tem a ver com os instrumentos disponíveis para o financiamento, seja os fundos comunitários, seja um conjunto de linhas protocoladas que existem no âmbito governamental do Orçamento de Estado, que tem uma matriz burocrática por obrigar a cumprir um conjunto de requisitos. A máquina do Estado não é propriamente ágil para este tipo de situações e muitas vezes não responde de acordo com as necessidades do mercado.
JPG: Tem havido também um fator relevante associado à regulação de mercados, que muitas vezes é imposta a todos os intervenientes de um determinado mercado, que nem sempre têm a mesma dimensão. Para fazer face a certa regulação, muitas vezes, é preciso ter pessoas especializadas na área e, sendo micro ou pequenas empresas, pode tornar-se difícil tratar de aspetos regulatórios.
Não sou contra a regulação como um princípio dentro da economia, a questão é onde é que é aplicada e de que forma é que pode ser naturalmente impeditiva para o crescimento de algumas empresas.
Qual é a importância de iniciativas como os ‘Prémios Heróis PME’ em Portugal?
JPG: Há dois aspetos fundamentais: o reconhecimento ao trabalho extraordinário que muitas destas empresas fazem em áreas muito diferentes (sustentabilidade, internacionalização, resiliência). São, como o nome indica, heróis; São, portanto, exemplos para outras empresas, algo fulcral para que vejam esperança de crescimento ou recuperação em tempos difíceis.
BM: Fazemos isto há tantos anos juntos que faz com que tenhamos a mesma visão! Quando começámos, há cerca de oito anos, foi precisamente para atacar estas duas perspetivas. O reconhecimento de um conjunto de empresas e de empresários que, normalmente, não está no foco daquilo que é a visibilidade do ponto de vista da comunicação social.
Não estamos a premiar apenas pela simpatia, mas sim pela coragem e consequências económicas importantes para o país.
O João resumiu de uma forma fantástica este lado emocional forte, porque nós não estamos a premiar quem cresce mais, quem vende mais, quem exporta mais ou quem cria mais emprego. Obviamente que é importante cumprir esses critérios todos, mas o que brilha aqui é conseguirmos destacar o percurso e visão das adversidades, até a transparência de que a história não é feita sem sobressaltos – é exatamente o contrário – mas que, no final do dia, vale a pena dar o salto.
O que viram como jurados nesta edição do concurso? Que características se destacam nas empresas candidatas e premiadas?
BM: Desde logo, o primeiro fator que se destaca é a maior dimensão e o maior número de candidatos que temos tido ao longo dos anos. Reflete-se também uma maturidade da própria iniciativa para conseguimos atrair mais histórias. Tivemos mais de 130 candidaturas este ano, quase 90 empresas diferentes, que já estão na fase final.
Temos também mais quantidade, com cada vez mais setores representados, o que é bastante interessante. E uma outra matriz que se tem vindo a repetir é o país estar bastante bem representado, com quase todos os distritos de Portugal, contrariando a centralidade de que tanto se fala.
Quanto às características, penso que se centram na coragem e visão, sendo que, muitas vezes, chegam a comprometer a estabilidade familiar para que a empresa possa crescer. Empresas com 60 anos, 50 anos, 40 anos de atividade e que agora estão numa nova fase de investimento, sujeitas a mercados internacionais competitivos, onde a transformação digital faz toda a diferença, onde as exigências e as virtudes da sustentabilidade marcam também o seu percurso.
Que tendências são cruciais para as PME nos próximos tempos? Que medidas têm sido prioritárias na CCIP e o que querem pôr em prática no resto do ano?
BM: As grandes tendências que as empresas e os empresários devem ter são clássicas: observar oportunidades do mercado e trabalhar internamente nos seus planos de negócio para poder lá chegar, continuar a investir para ser competitivo, ser diferenciador, ter vantagens competitivas únicas para que não seja abalada tão facilmente pela concorrência ou por períodos mais conturbados e, por fim, foco nas pessoas e tecnologia.
Esta combinação é crítica: termos de facto pessoas que acrescentam e não só pessoas que cumprem, a qualidade desses recursos humanos.
A tecnologia, que se cruza cada vez mais com aquilo que é o negócio, seja na forma de prestar o serviço, de produzir, inovar ou criar: tem de ser mais um parceiro dentro de portas que nos permita em todas as nossas formas de atuar ampliar estas capacidades. O importante é as empresas terem a estabilidade do ponto de vista económico e financeiro para poder ter agilidade nos momentos de mudança – positivas ou negativas.
JPG: O que fazemos na CCIP é apoiar as empresas a fazerem exatamente este trabalho ou objetivos que o Bernardo enunciou. Temos uma área muito forte de internacionalização, sendo que fazemos entre 14 e 15 missões internacionais, e temos também missões dentro de fronteiras. Não só somos especialistas a encontrar os parceiros adequados para as empresas que querem viajar, como também nos focamos na diversificação de mercados.
Temos também um grande evento anual, o Growth Forum, que foi este ano inteiramente dedicado a África. Estamos essencialmente focados na identificação de tendências, mas, acima de tudo, na capacitação das pessoas que estão a trabalhar. Portanto, o investimento não é apenas em equipamento, é de como é que se usa esse equipamento e porquê.
Tem também um aspeto fundamental na criação de networking e na capacidade de gerar ou de fazer as empresas encontrarem bons parceiros. Queremos que as empresas consigam olhar para o mercado, para os seus setores e empresas e que consigam encontrar os parceiros certos, seja para crescer em Portugal, serem fornecedores ou até para projetos de internacionalização.
BM: Do que nós conhecemos da atividade das PME em Portugal, a não ser que façam desde início um processo de internacionalização de forma reativa, que sejam procurados por alguém para iniciar esse trabalho, é muito difícil que uma empresa inicie um processo de internacionalização sem ser com instrumentos ou programas como este que a Câmara de Comércio disponibiliza. Não há muitas entidades em Portugal a fazê-lo da forma tão séria, continuada e sustentada como a CCIP.
É fundamental para quem quer estar no mercado a internacionalizar-se que olhe com muita atenção para este tipo de iniciativas, porque o desafio da internacionalização não é fácil. Leva muito tempo e consome muitos recursos, sejam eles financeiros ou humanos.
Saiba mais sobre os ‘Prémios Heróis PME’ aqui.



