Até onde nos leva a estrada?

O passado remoto é baseado em conjeturas. Tal como, aliás, as previsões do futuro. Tanto umas como outras, baseiam-se no conhecimento que temos do presente. Esta simples constatação cria um ruído omnipresente em qualquer debate que se pretenda ter acerca do passado ou do futuro. Em que época começámos a pensar? E a acumular conhecimento? E a transformar o conhecimento que tínhamos em sabedoria? A transmitir essa sabedoria para os vindouros, a criar tradições, mitos, tabus, deuses? Verdadeiramente, ninguém sabe.

Há, com certeza, especialistas e estudiosos que têm investigações e teses que se hão de aproximar da verdade. Mas nenhum pode assegurar estar de posse da verdade. E no futuro? Que podemos dizer dos anos vindouros? Aprendemos com o passado? Nem sempre, como sabemos. Muitas vezes entendemos o passado como um tempo obscuro de ignorância, a que o Sapiens se subjugava por falta de alternativas. E nós – sim nós, aqui e agora, neste momento – passámos a ter alternativas! Mas teremos? Saberemos assim tanto?

Ao longo dos últimos tempos, especialmente desde que a ciência se impôs, e através de uma distorção do seu significado, o cientismo positivista deu cartas, cada geração entendeu que lhe cabia transformar o mundo para muito melhor. Mas se esse desejo, por si mesmo, já era uma arrogância, a convicção de que o pode fazer, é uma loucura.

Vejamos se entendemos um esquema simples: imaginemos uma clareira perfeitamente circular no meio de uma floresta; a sua superfície corresponde ao nosso conhecimento. O diâmetro dessa clareira será igual a 1, por exemplo. Isso implica que o seu perímetro, a linha circular que confina com a floresta (que simboliza o que nos é desconhecido), é de 2πr (2 x 3,14 x 0,5), ou seja, o valor de π, 3,14 (arredondando). Temos assim uma medida, por assim dizer, do nosso desconhecimento.

Mas, claro, a função de todos nós, a começar pelos investigadores, cientistas, professores, empreendedores, e todo o ser humano que contêm em si o bicho do conhecimento, é desbastar a ignorância. Vamos por isso duplicar, o nosso conhecimento. A clareira deixa de ter 1 de diâmetro e passa a ter 2. Nesse caso o perímetro passa a ser (voltando à simples forma de o determinar, 2πr) de 6,28.

Isto significa o quê? Que a área do nosso conhecimento era de 0,785; porém, quando duplicamos o diâmetro da clareira passa a ser de 3,14, ou seja, quatro vezes maior.

Podemos, pois, dizer que quando duplicamos a nossa clareira de conhecimento passamos a ter uma superfície (ou um total) de conhecimento quatro vezes maior. Mas… e a fronteira com o desconhecido? Como já vimos é igual ao perímetro do círculo. Ou seja, a 6,28, o dobro.

Obviamente temos mais conhecimento e mais fronteira com o desconhecido. E se voltarmos a duplicar o conhecimento, passando o diâmetro de 2 para 4? Nesse caso a superfície será de 12,5: ou seja, de novo cerca de 4 vezes maior. E a fronteira com o desconhecido passa a ser também de 12,5. Mas vamos ser ousados e desbastar grandemente a nossa clareira.

Tínhamos um diâmetro 4 e vamos multiplicá-lo por 5000, algo de verdadeiramente revolucionário. Temos agora um diâmetro que corresponde a 20 mil unidades. Vejamos o que se passa com a superfície, que representa o conhecimento: é superior a 314 milhões de unidades. E o perímetro, que delimita o desconhecimento? Passa a ser de 62 mil. Ou seja, aumentámos o conhecimento cerca de 25 mil vezes e a fronteira com o desconhecido quase 5000 vezes.

Enfim, podemos continuar com este jogo o tempo que quisermos. Não importa quanto aumentemos o nosso conhecimento; o certo é que o perímetro do desconhecido, a fronteira do que não sabemos, aumenta igualmente; mais lentamente, mas aumenta sempre. Quanto mais sabemos, mais desconhecemos.

A conclusão desta pequena demonstração é simples: ou virá um dia em que poderemos derrubar a floresta toda, tudo transformando em clareira, desbastando completamente as sombras da ignorância; ou não continuaremos a aumentar o perímetro do nosso desconhecimento, por muito rápido e grande que sejam os avanços do nosso conhecimento, ou o tamanho da nossa clareira.

Quanto mais sei, mais sei que não sei. A variante da máxima socrática “só sei que nada sei”, popular entre nós, nunca teve tanto valor como num tempo em que se pretende poder saber tudo.

O futuro do Sapiens é muito misterioso… Basta ver, que aqueles que mais acertaram em livros futuristas foram os distópicos: Orwell e o 1984; Huxley e o Admirável Mundo Novo (o título em inglês é mais sugestivo, Brave New World); Burgess e A Laranja Mecânica ou Bradbury e o Fahrenheit 451. Todos aqueles que previram que o Leão e o Cordeiro se entenderiam entre si, ou o homem novo, o fim das classes sociais, a igualdade total e uma série de coisas que, em tese, seriam interessantes e bonitas, falharam. Claro que nos autores atrás referidos existem muitas previsões que não se concretizaram. Mas qualquer pessoa de bom senso vê que estamos mais perto do Big Brother do que alguma vez estivemos; e até de dispensar os livros, como previu Bradbury ou no limite de uma violência sem causa, sem motivo, como Burgess a descreve em A Laranja Mecânica. Quanto a Huxley, a sua previsão do tempo contado antes e depois de Ford, na referência clara à cadeia de montagem, por um lado, e à dispensa de Deus, por outro, digamos que não anda longe da realidade. Muitas outras obras há que são disruptivas. E se é possível que todos possamos ser mais felizes no futuro, trabalhando de casa, às horas que queremos, o tempo que queremos, com remunerações ou honorários justos, não é menos certo que essa hipótese traz consigo eventuais consequências que nos têm de deixar preocupados.

-Ou porque as tarefas indispensáveis de serem feitas presencialmente passam a ser desempenhadas por máquinas e o desemprego aumenta brutalmente.

– Ou por que não há máquinas que substituam algumas delas e a desigualdade aumenta substancialmente.

A este respeito, a principal distopia será A Máquina do Tempo de H.G. Wells. Os pacíficos e alegres Elois, que vivem ociosamente, parecem parte de uma sociedade avançada, mas apenas até se perceber que não passam de o principal alimento dos Morlocks, que vivem debaixo da terra, não podem ver o Sol, pelo que os caçam de noite, sem qualquer resistência. Wells escreveu este pequeno livro em 1895 e nele plasmou duas utopias: a primeira, o viajante do tempo (personagem, aliás, sem outro nome) que constrói uma máquina que lhe permite ir ao futuro (802 mil anos d.C.); a segunda, uma sociedade que se desenvolveu a partir da desumanidade das minas e do modo como se tratavam os mineiros, contrastante com a ociosidade daqueles que com isso lucravam. Wells era um socialista fabiano, e nesta distopia vê uma espécie de vingança da classe operária, dos Morlocks, que tinham sido, em tempos, como descobre o viajante, dominados pelos Elois.

Não pretendo que seja este o futuro (na verdade seria horrível); apenas pretendo moderar os ímpetos daqueles que pensam já ter vislumbrado o que aí vem. Se nos basearmos naquilo que é o nosso presente, podemos chegar a conclusões muito diferentes do que a realidade nos vai mostrar.

Não há como fazer o caminho, caminhando. E a cada encruzilhada escolhermos a que nos parece melhor. Partir de um programa que pode estar totalmente errado é, muitas vezes, desastroso.

É por isso que não consigo responder ao desafio que este número da revista nos coloca. Se é certo que tudo o que puder ser desmaterializado o será; se é natural que essa desmaterialização do trabalho nos permitir fazê-lo à distância, incluindo construir aqui, com impressoras 3D, objetos na Nova Zelândia; se a computação quântica nos levar a velocidades hoje inimagináveis; se a Inteligência Artificial nos puder envergonhar acerca de algumas deduções primárias que hoje fazemos; se as próprias máquinas conseguirem alcançar altos níveis de inteligência emocional; se, se, se… Isto significa o quê? Que estaremos a mudar enquanto Sapiens? Ou a desaparecer? Ou a tornar-nos desnecessários?

E, nesse caso, qual será o lugar do espírito? O lugar da mente, a fronteira desconhecida que é o nosso próprio cérebro.

Não, caro leitor… não serei eu a prever a futuro. Não por acaso, a palavra quimera (que significava meio homem, meio animal) tomou o significado de algo impossível. O meio homem, meio máquina, o homo digitalis capaz de se desmaterializar e se reimprimir do outro lado do mundo? Que sei eu?…

Apenas que devemos estar de mente aberta; e alertados para o facto de que esta mente e esta consciência, que guardamos do fundo dos tempos, nos ensina, pelo menos, esta grande lição: no longo prazo, o bem é melhor do que o mal. Que o saibamos distinguir a cada momento, esse sim, é o maior desafio.


Por Henrique Monteiro, Jornalista e antigo Diretor do Expresso

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