O 25 de Abril já foi cantado, ensinado, lido e vivido. Mas também foi filmado. O cinema português tem sido, ao longo das décadas, uma ferramenta de memória, crítica e poesia. Nestes cinco filmes, a revolução aparece com cravos, sim — mas também com sangue, silêncio, risos nervosos e o peso de um país que acordava de um pesadelo de 48 anos.
1. Capitães de Abril (2000), de Maria de Medeiros

Um clássico incontornável. Maria de Medeiros dramatiza os bastidores do golpe militar com uma narrativa que mistura história e ficção. O filme acompanha Salgueiro Maia e outros capitães enquanto avançam sobre Lisboa, e cruza o olhar militar com o de uma professora presa entre o medo e a esperança. É uma entrada acessível, emocional, didática — e, para muitos, a primeira imagem cinematográfica da revolução.
2. As Armas e o Povo (1975), Colectivo de Cineastas Portugueses

Este é o documento bruto. Rodado durante os dias entre 25 de Abril e 1 de Maio de 1974, é uma espécie de diário coletivo da revolução. Um mosaico de vozes — operários, estudantes, soldados, donas de casa — que dá corpo ao povo que encheu as ruas. Sem encenações, sem filtros. Apenas câmara e realidade. Ouvem-se gritos de liberdade e vê-se o país a nascer em tempo real.
3. 48 (2010), de Susana de Sousa Dias

Não é um filme sobre o 25 de Abril, mas sim sobre o que o precedeu — e, por isso, talvez o mais importante desta lista. Susana de Sousa Dias constrói um retrato assombroso do regime através das fotografias dos presos políticos da PIDE. As vozes que ouvimos contam histórias de tortura, resistência e silêncio. É um murro no estômago — e um lembrete de porque é que Abril teve de acontecer.
4. A Hora da Liberdade (1999), de Jorge Paixão da Costa

Produzido para televisão, mas com o cuidado e a ambição de um grande filme, A Hora da Liberdade dramatiza com precisão quase documental as movimentações do MFA no dia 25 de Abril. Um dos grandes méritos do filme é mostrar a tensão interna — o medo de que tudo corresse mal — e a humanidade dos militares envolvidos. É um bom complemento a Capitães de Abril, com menos romantismo e mais nervo.
5. Os Demónios de Alcácer Quibir (1976), de José Fonseca e Costa

Este filme usa a metáfora da derrota de Alcácer Quibir para falar sobre o fim de um império. Com um tom alegórico e provocador, Fonseca e Costa reflete sobre o colapso da identidade colonial portuguesa. Lançado logo após o 25 de Abril, é um filme que dialoga com o momento revolucionário sem o nomear diretamente. Fala do passado, mas aponta o dedo ao presente.
E depois destes?
Há muitos mais: documentários, curtas, filmes independentes, arquivos do PREC. O cinema português — como Abril — não se fecha num único dia. Estes cinco filmes são apenas portas de entrada. O importante é continuar a ver, a pensar e a discutir. Porque a liberdade também se constrói com imagens.
Onde ver estes filmes
Se estás pronto para revisitar ou descobrir o 25 de Abril através do ecrã, aqui ficam alguns pontos de partida:
Cinemateca Portuguesa (Lisboa): A cada Abril, revisita clássicos da revolução — vale sempre a pena consultar a programação.
RTP Arquivos (arquivos.rtp.pt): Um tesouro gratuito e acessível com imagens históricas, entrevistas e alguns filmes completos.
Filmin Portugal (filmin.pt): Plataforma de streaming com vários títulos portugueses, incluindo obras de Maria de Medeiros e Susana de Sousa Dias.
Plataforma Bando à Parte: Alguns filmes independentes e documentários sobre o PREC e os anos seguintes aparecem por aqui.
Bibliotecas e Mediatecas Municipais: Muitas vezes ignoradas, mas surpreendentes — há DVD’s de Capitães de Abril, A Hora da Liberdade e outros que podes requisitar.


