Ao longo da história, houve versos que desafiaram ditaduras, palavras que foram armas mais perigosas do que espadas, amores que só encontraram redenção na metáfora e despedidas que se recusaram a ser definitivas. Sexta-feira passada, 21 de março, assinalou-se o Dia Mundial da Poesia, e a palavra ergueu-se, como sempre fez, contra o esquecimento. Poesia não é apenas beleza, mas também insubmissão – é resistência contra regimes, contra a perda, contra a morte e até contra o próprio tempo.
Para marcar a data, a Líder revisita cinco poemas que atravessaram fronteiras e décadas, mantendo-se tão vivos e urgentes como no dia em que foram escritos.
‘Liberdade’ – Sophia de Mello Breyner Andresen
«Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.»
Poucas palavras carregam tanto peso histórico como ‘Liberdade’. Durante a ditadura do Estado Novo, a poesia portuguesa foi um refúgio e uma trincheira, e Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu este poema sem precisar de nomear o opressor. Em cada verso, ergue um espaço onde tudo é possível, um lugar puro onde a censura não pode tocar.
O poema tornou-se um símbolo de resistência e continua a ser lido como um hino à democracia. Quando a Revolução dos Cravos chegou, foi este espírito – o da palavra como ferramenta de transformação – que ajudou a moldar um país novo. Um país com sonhos por cumprir.
‘No Caminho com Maiakóvski’ – Eduardo Alves da Costa
«E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!»
Poucos poemas tiveram uma vida tão atribulada como este. Durante décadas, circulou como se tivesse sido escrito pelo poeta russo Vladimir Maiakóvski, mas a verdade é que foi Eduardo Alves da Costa, poeta brasileiro, quem o escreveu. Os versos são um aviso sobre como a repressão não chega de rompante – instala-se aos poucos, apaga liberdades discretamente, até que já não sobra ninguém para resistir.
Este poema foi lido e citado em tempos de ditaduras e golpes de Estado, do Brasil à União Soviética, da Espanha franquista a outros cantos do mundo. A sua força reside na simplicidade da mensagem: a liberdade, quando ameaçada, não desaparece de uma só vez – morre aos poucos, se não for defendida.
‘Howl’ – Allen Ginsberg
«I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix,
angelheaded hipsters burning for the ancient heavenly connection to the starry dynamo in the machinery of night,
who poverty and tatters and hollow-eyed and high sat up smoking in the supernatural darkness of cold-water flats floating across the tops of cities contemplating jazz,»
Escrito em 1955, Howl é um longo grito de raiva e desespero contra a sociedade americana da época. Allen Ginsberg, um dos ícones da beat generation, criou um poema que denunciava a hipocrisia moralista, a perseguição dos diferentes, a destruição dos que não se encaixavam nas normas.
O poema foi alvo de censura nos Estados Unidos. Em 1957, foi julgado por obscenidade, mas os tribunais acabaram por defender a sua publicação, reconhecendo a sua importância literária. Hoje, Howl continua a ser um marco da literatura de protesto, um testemunho do poder da palavra contra qualquer sistema que tente calá-la.
‘Soneto de Fidelidade’ – Vinicius de Moraes
«E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.»
Nem toda a poesia nasce da revolta política. Às vezes, a resistência acontece na forma mais íntima e humana possível: o amor. Vinicius de Moraes escreveu um dos mais belos sonetos da língua portuguesa, onde não há promessas de eternidade – apenas a certeza de que, enquanto durar, o amor será tudo.
Este poema tornou-se um clássico, declamado em casamentos, despedidas e reencontros. É um lembrete de que o tempo pode levar tudo, mas nunca o que foi vivido intensamente. Num mundo que muda, onde tudo parece efémero com a morte à espreita, há versos que persistem como se desmentissem a passagem dos anos.
‘Em Creta, com o Minotauro’ – Jorge de Sena
«Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.»
Jorge de Sena escreveu este poema no exílio, depois de ter sido forçado a deixar Portugal. Nele, há uma amargura cortante, mas também uma esperança discreta. É uma ode àqueles que não se vergam, que escolhem a verdade mesmo quando é mais difícil, que não usam a hipocrisia como moeda de troca.
Sena, um dos maiores escritores portugueses do século XX, sabia o preço de ser fiel a si mesmo. E este poema, tantas vezes lido em momentos de desencanto, recorda-nos que há escolhas que, mesmo dolorosas, são as únicas que valem a pena.
A poesia não morre
Na última semana celebrou-se a poesia, mas a verdade é que ela nunca precisou de um dia marcado no calendário. Está na história dos povos, na voz dos inconformados, nos amores que se recusam a ser esquecidos. Pode ser grito ou sussurro, faca ou carícia – mas nunca deixa de ser.
Nestes cinco poemas, estão cinco formas de resistir: à tirania, à censura, à passagem do tempo, à hipocrisia e à ausência. E, enquanto houver quem os leia, haverá sempre algo que nunca se poderá apagar.




