Balsemão: Homenagem a um líder

Penso ser escusado fazer aquele disclaimer inicial: Francisco Balsemão foi meu patrão 30 anos e, em parte, continua a ser, uma vez que é no Expresso, de que fui diretor, que mais colaboro. Além disso, fiz parte de um Conselho de Administração (como não executivo) por ele presidido. E somos amigos.

Posto isto, escuso de revelar o que escreve nas suas ‘Memórias’, livro que chegou a semana passada às livrarias; os jornais já se encarregaram de dizer o que entendem, embora do meu ponto de vista se interessem muito pelos conflitos pessoais da sua vida, e quase nada pelos seus feitos.

Não pensem que é a amizade a falar. Por muito que goste dele e admire muitas facetas suas, não sou cego aos seus defeitos, que também os tem, como todos. Mas o que ele construiu foi importante para o país. Da sua ação como político, remeto para a magnífica intervenção de João Bosco Mota Amaral na cerimónia da homenagem que o atual Governo entendeu prestar-lhe; e também para as intervenções do próprio (muito prospetiva) e do primeiro-ministro (muito correta).

Prefiro referir-me à sua ação como jornalista e proprietário de órgãos de Comunicação Social.

Balsemão, além de autor da primeira lei democrática de Imprensa, ainda nos tempos da chamada ‘Ala Liberal’, conseguiu  apesar do chumbo que o regime impôs à sua proposta (e de Sá Carneiro) que o Governo deixasse cair a imposição de os diretores serem aprovados pelo Executivo, podendo apenas ser nomeados (como é normal) pelos proprietários do órgão de Comunicação Social. Essa pequena, mas significativa, alteração permitiu-lhe criar o Expresso e ser seu diretor, coisa que jamais seria se o Governo tivesse de aprovar o seu nome.

A partir da experiência adquirida no vespertino ‘Diário Popular’, que foi da sua família, criou o Expresso, primeiro jornal moderno em Portugal; depois, com todas as vicissitudes que se conhecem, construiu a primeira televisão privada do país, a SIC, que hoje além do canal free-to-air tem mais cinco canais por cabo e dois ou três internacionais, mormente para Angola e Moçambique, com destaque para SIC Notícias.

Porém, se isto dá a dimensão da importância como empresário da Comunicação Social, o único (os restantes, além da CS têm outros negócios complementares, além daqueles que nem se sabe quem são, algo que contraria a Lei), a homenagem que os jornalistas lhe devem prestar tem a ver com aspetos menos materiais, mas não menos relevantes.

Quando refiro a homenagem que os jornalistas lhe devem prestar, confesso que não entendo por que motivo organizações que se consideram representativas de jornalistas não o fazem. Mas adiante: Balsemão foi o primeiro a defender e a colocar em prática os Conselhos de Redação, órgãos eleitos pelos jornalistas de uma redação que, em conjunto com o diretor, debatem a orientação do OCS e a fidelidade dessa orientação ao Estatuto Editorial. E, por falar neste Estatuto, convém lembrar que foi, igualmente, Balsemão o percussor de tal prática, hoje comum. Quando era diretor, revi com ele o Estatuto do Expresso e concluímos, satisfeitos, que pouco havia a mudar; até o desígnio europeu de Portugal lá estava desde o longínquo ano de 1973, data em que o Expresso se começou a publicar (a 6 de janeiro).

Foi, ainda, no Expresso e com o seu impulso, que os Códigos de Conduta do jornalistas viram a luz. Estes códigos determinam, à luz da Deontologia, do Estatuto do Jornalista e da tradição e prática de cada redação, quais as regras a seguir para qualquer situação. Podem vê-lo, tal como ao Estatuto Editorial, no sítio do Expresso. Por exemplo, sabia que os jornalistas do Expresso estão obrigados a devolver qualquer oferta cujo valor ultrapasse os 10% do salário mínimo?

Ser líder é mais do que dirigir um conjunto de pessoas. É querer que elas participem, que elas se comprometam, que tenham boas práticas, honestas e rigorosas.

Tem sido esse o exemplo da liderança de Balsemão e, por isso, quase todos os jornalistas da minha geração quiseram trabalhar com ele. Eu fui dos que tiveram essa possibilidade e essa honra.


Por Henrique Monteiro, Jornalista e antigo Diretor do Expresso

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