Os riscos geopolíticos e financeiros dominam a agenda económica europeia, e um novo alerta vindo do universo dos bancos centrais introduz um fator menos imediato, mas potencialmente mais estrutural: a degradação ambiental. Um estudo recente associado ao Banco Central Europeu (BCE) conclui que a deterioração de ecossistemas — em particular a escassez e a qualidade da água — pode colocar até 24% da produção económica da zona euro em risco em cenários extremos de seca.
A conclusão surge num trabalho científico desenvolvido por investigadores ligados ao BCE em colaboração com especialistas da Universidade de Oxford e da London School of Economics, que procura medir de forma mais rigorosa a dependência da economia europeia em relação aos chamados serviços dos ecossistemas, isto é, os recursos e funções naturais que sustentam atividades económicas fundamentais — desde a disponibilidade de água e solos férteis até à proteção contra inundações ou à regulação climática.
Casos concretos já visíveis na economia europeia
Em Portugal, na região de Leiria, fortes tempestades registadas no início do ano provocaram inundações em vários concelhos e deixaram um rasto de prejuízos em habitações, comércio e infraestruturas. Municípios como Alcácer do Sal, embora localizados noutras zonas do país, enfrentaram igualmente episódios de cheias associados a precipitação intensa, obrigando à mobilização de meios de proteção civil e causando interrupções na atividade económica local.
Em Espanha, onde a seca prolongada levou as autoridades da Catalunha a declarar situação de emergência hídrica em mais de 230 municípios, incluindo Barcelona, afetando cerca de seis milhões de pessoas. As restrições impostas incluíram cortes no uso de água para agricultura e indústria e limitações ao consumo urbano, medidas que ilustram a forma como um choque ambiental pode rapidamente transformar-se num problema económico e social.
Os impactos não se limitam, contudo, à Península Ibérica. Um estudo europeu recente estima que as ondas de calor, secas e inundações registadas no continente provocaram perdas económicas imediatas de cerca de 43 mil milhões de euros, o equivalente a aproximadamente 0,26% da produção económica da União Europeia num único ano. Países do sul da Europa, como Espanha, Itália, Portugal e Grécia, surgem entre os mais afetados devido à maior exposição a secas e temperaturas extremas.
Em França, por exemplo, uma sucessão de ondas de calor em 2025 teve impacto direto na atividade económica, levando à interrupção de processos industriais e a restrições operacionais em vários setores, incluindo construção e agricultura. Estimativas citadas por analistas apontam para perdas económicas equivalentes a cerca de 0,3% do PIB francês.
A economia europeia depende mais da natureza do que parece
A investigação parte de uma premissa simples, mas muitas vezes ignorada na análise económica tradicional: grande parte da atividade produtiva depende diretamente de condições ambientais estáveis. A agricultura, a indústria transformadora, a produção de energia ou mesmo o setor imobiliário são exemplos claros de setores cuja atividade depende, em maior ou menor grau, da disponibilidade de recursos naturais.
Segundo os autores do estudo, a escassez de água superficial, associada a secas prolongadas, captação excessiva ou degradação ambiental, representa atualmente o risco ambiental mais significativo para a economia da zona euro. Num cenário de seca severa com uma probabilidade estatística de ocorrência de uma vez em cada cem anos, cerca de 24% da produção económica europeia poderia ficar exposta a perdas ou disrupções relevantes.
O impacto não se limita, contudo, à agricultura. A análise mostra que diversos setores industriais e de serviços dependem fortemente de água em quantidade e qualidade suficientes. Entre os mais vulneráveis encontram-se a indústria transformadora, o comércio, a construção ou o setor imobiliário, que podem enfrentar perturbações significativas em cenários de stress ambiental prolongado.
Este tipo de choque, explicam os investigadores, tende a propagar-se ao longo das cadeias de abastecimento e a gerar efeitos indiretos que podem amplificar o impacto inicial. Uma quebra na produção agrícola, por exemplo, pode provocar aumentos nos preços alimentares; uma redução da disponibilidade de água pode afetar processos industriais; e níveis mais baixos nos rios podem perturbar o transporte fluvial ou a produção hidroelétrica.
Um risco também para os bancos
O estudo introduz também um ângulo particularmente relevante para os bancos centrais: o impacto potencial na estabilidade financeira. Ao cruzar dados económicos com a base de dados AnaCredit, que reúne informação detalhada sobre empréstimos bancários na zona euro, os investigadores estimaram que uma parte significativa do crédito concedido pelos bancos está exposta a riscos ambientais relacionados com a água.
De acordo com a análise, cerca de 19% dos empréstimos bancários estão expostos à escassez de água superficial, proporção que pode subir para 22% quando se inclui também a escassez de águas subterrâneas.
Este tipo de exposição significa que choques ambientais podem transformar-se rapidamente em risco de crédito, caso empresas afetadas por fenómenos como secas, degradação de solos ou poluição da água vejam a sua capacidade produtiva reduzida e enfrentem dificuldades em cumprir as suas obrigações financeiras.
Para o BCE, esta ligação entre natureza e sistema financeiro torna claro que a degradação ambiental é, cada vez mais, um tema indissociável de política económica e financeira.
O papel crescente da natureza na política económica
Nos últimos anos, os bancos centrais têm vindo a integrar cada vez mais os riscos climáticos e ambientais nos seus modelos de análise macroeconómica. A perda de biodiversidade, a degradação de solos, as alterações no regime das chuvas ou o aumento da frequência de fenómenos extremos podem afetar variáveis tão centrais como o crescimento económico, a inflação ou a estabilidade do sistema financeiro.
Segundo o BCE, a relação entre ecossistemas e economia é particularmente relevante na Europa, onde uma parte significativa da produção depende de cadeias de abastecimento internacionais e de recursos naturais distribuídos globalmente. De facto, cerca de metade do risco económico associado à degradação ambiental pode ter origem fora da própria zona euro, através de perturbações em fornecedores ou parceiros comerciais.
Este efeito de interdependência reforça a ideia de que os riscos ambientais têm um carácter sistémico e podem materializar-se de forma inesperada, através de canais comerciais, financeiros ou produtivos.
A investigação sublinha ainda que choques ambientais podem ter consequências diretas sobre os preços. Estudos recentes citados pelo BCE mostram que a degradação de ecossistemas ou fenómenos extremos podem provocar aumentos nos preços alimentares e pressões inflacionistas adicionais, um tema particularmente sensível para bancos centrais cuja principal missão continua a ser a estabilidade de preços.
A economia e a natureza cada vez mais interligadas
Para os autores, a economia europeia está mais dependente dos ecossistemas do que muitas análises tradicionais sugerem, e essa dependência representa uma vulnerabilidade crescente à medida que os sistemas naturais se degradam.
O desafio passa agora por desenvolver instrumentos mais sofisticados para medir estes riscos — incluindo modelos capazes de avaliar o impacto de choques ambientais nas empresas, nos bancos e na economia no seu conjunto.
À medida que os fenómenos climáticos extremos deixam de ser exceção e passam a integrar a nova normalidade, a fronteira entre política ambiental e política económica vai-se dissolvendo, revelando uma interdependência cada vez mais evidente entre o equilíbrio dos ecossistemas e a estabilidade das economias.


