O DJ, produtor e fundador da editora Enchufada subiu ao palco do Coala Festival, a 30 de maio, para um concerto com a banda brasileira Tuyo. Em entrevista à Líder, refletiu sobre a influência dos ritmos africanos na identidade cultural portuguesa, a evolução da lusofonia e o papel da música na construção de pontes entre geografias e gerações.
João Barbosa cresceu na Amadora dos anos 80, mas foi como Branko que conquistou reconhecimento nacional e internacional, levando os ritmos da diáspora lusófona e as sonoridades africanas aos maiores palcos do mundo. Membro e fundador dos Buraka Som Sistema, afirmou-se como produtor, DJ, curador e empreendedor cultural, construindo uma carreira a solo marcada pela exploração de ritmos africanos e brasileiros.
Muito antes de conceitos como diversidade cultural, afrodescendência ou lusofonia ocuparem espaço no debate público, Branko já transportava para a música a realidade que vivia diariamente. Há mais de duas décadas, começou a cruzar géneros, geografias e identidades sonoras ainda estranhas para muitos ouvidos portugueses.
Após o seu concerto no Coala Festival, em Cascais, refletiu, em exclusivo para a Líder, sobre a identidade da lusofonia, da evolução da música cantada em português, com vários sotaques, e de como os seus ritmos transcenderam as pistas de dança.

A editora Enchufada faz 20 anos. Que balanço fazes destes anos e o que é que ainda está por vir?
Tem sido uma celebração muito fixe e especial, acima de tudo. Escolhemos celebrar os vinte anos com uma compilação, a Lisbon Club Story, que já saiu, e virá agora num vinil lindíssimo. Deu-nos muito prazer a todos, enquanto Enchufada, fazer esta curadoria de temas e tentar construir o momento, tentar apostar em coisas que, por um lado, demonstrem o arquivo e o catálogo da editora e, por outro, mostrem o sangue novo, que também está a construir esse som de Lisboa e esta Lisbon Club Story.
Já fizemos alguns eventos, mas tudo isto acaba por ser emocionante também pelo regresso aos palcos dos Buraka Som Sistema, que também fazem vinte anos. Há aqui uma energia, um feitiço muito grande, que está a ser lançado este ano e que tem estado a fazer com que todos os momentos e todos os passos de 2026 estejam a ser especiais.
Os ritmos africanos estão na moda, mas nem sempre foi assim. Como é que tem sido esta evolução e como é que Portugal está a abraçar estas sonoridades?
Há uma identidade cultural que nasce de um cruzamento. Focando mais em Lisboa, há uma identidade cultural que é inegável que nasce aqui e que constrói. Falaste de música africana, eu falo de música de Lisboa. Tudo é influenciado, pelo kuduro, pelo semba, pela morna, etc. Não existiria um Dino d’Santiago sem funaná, por exemplo. Inevitavelmente as coisas são transformadas, modificadas, e passam por um processo de metamorfose que inclui Lisboa e a traz para esta conversa.
Eu vivo isso todos os dias e para mim não há Portugal, não há identidade cultural sem isso, sem essa presença e contaminação, no bom sentido da palavra. Para mim, é o que nós somos. Isto é cultura.
Daí um festival como o Coala ser um espaço tão importante, em que a tudo isto ainda se junta o Brasil, e esta metamorfose ganha ainda mais força e mais audiência também. É um sonho tornado realidade. Imaginar este sonho que estava lá em 2006, quando começou Buraka, Enchufada e tudo isso, e de repente foi ganhando a sua própria dinâmica e a sua própria vida.
Achas que a cultura e a música têm unido mais os países que falam língua portuguesa?
Sem dúvida. Música é cultura, não há como dissociar as duas coisas. Quando pensamos em cultura, se calhar vem-nos logo à cabeça algo mais erudito, artes em geral, mas a música é o tecido cultural, o ADN das pessoas. É algo partilhado, seja numa discoteca às quatro da manhã, seja num festival às quatro da tarde. Estas partilhas que existem numa pista de dança ou na audiência de um festival, são partilhas que marcam e que fazem com que as pessoas se aproximem mais de quem está a viver o momento com elas. É como viajar, é exatamente a mesma coisa.
E acho que quando um festival como o Coala traz essa narrativa para cima da mesa, é inegável que deveria existir há mais anos e ser maior ainda. Bem-vindo, Coala! Fico mais feliz ainda por poder tocar e participar neste diálogo.
Consideras que a tua música já transcende a pista de dança?
Eu acho que sim, que já transcendeu a ideia da pista de dança, do clube, do álcool, dessa associação. Já transcendeu a ideia meio simples de ser apenas uma festa. Eu tentei sempre sair dessa ideia escura da pista de dança. Tenho atuado em teatros, em auditórios, e isso tem sido especial, entender que as pessoas se relacionam com a música também nesse sentido. Tem cadeiras e se calhar não dá assim tanto jeito para dançar, mas quando as pessoas criam seu próprio espaço e a sua dinâmica, entendem que há uma sonoridade especial. Participar nos locais onde acontece cultura com música eletrónica acaba por ser disruptivo. Tenho tentado trazer essa conversa para cima da mesa e fico feliz que já esteja a acontecer, cada vez mais. Isto é algo que sempre fez parte do meu discurso e daquilo que eu celebro.
Para mim, um produtor de dezessete anos num quarto, com um software de produção de música, se calhar é a coisa mais pura que existe na música. Ele não é influenciado pela indústria nem por nada socialmente. É influenciado pelos amigos, pela música que os pais ouvem, e o que nasce ali é algo muito especial. Talvez seja um dos pontos de contacto culturais mais diretos que existem no mundo.
Há dois anos, neste sítio atuaram os Ezra Collective, que disseram que, nos tempos turbulentos que vivemos, momentos em que nos possamos juntar para dançar são cada vez mais importantes, que também são uma forma de revolução. Achas que a cultura tem esse poder, quer do ponto de vista dos artistas, quer de quem dança?
Acho que sim e há artistas que mantêm isso muito vivo no seu discurso. Tens outros que o fazem de forma mais subtil, através da música ou de uma letra, mas sem dúvida que esse espelho do que se vive social e politicamente é real. Inevitavelmente acaba por passar para a cultura e para a música, principalmente para a pop, que é das coisas mais democráticas que existe.
Ninguém manda na música pop, ela só acontece, e acaba por trazer surpresas, coisas completamente fora que de repente ganham outra dimensão.
Quando nós começámos com os Buraka, especialmente em 2006, nunca houve essa tentativa de criar algo pop, como depois acabou por acontecer com a Kalemba (Wegue Wegue), uma canção que suplantou completamente o intuito com que foi feita. Aconteceu, as pessoas adotaram-na. Quando isso acontece, acaba por haver um crossover cultural. Uma marca que é ultrapassada e passa para uma realidade diferente. Inevitavelmente, essas novas realidades enriquecem as pessoas, seja a dançar, seja a ouvir, seja sentadas num auditório. Trazem um discurso novo para cima da mesa. No meio de extremas-direitas, guerras e conflitos, é importante haver essa voz e que participemos da forma que sentimos ser a certa para participar.
A história da música é por vezes feita de usurpação ou apropriação de ritmos africanos. Achas que estamos mais próximos de uma celebração e colaboração?
Eu não utilizaria a palavra usurpação. O techno nasce em Detroit com pessoas negras a fazer música influenciada por Kraftwerk na Alemanha. O house nasce em Chicago com uma dinâmica parecida e essa construção sempre teve algo único e construtivo. Sempre foi algo que trouxe coisas novas para cima da mesa.
Talvez não tenha sido intelectualizado na altura, esse caminho não foi explicado, virou apenas música para ser consumida a alta velocidade, a altas horas da noite. Ninguém parou para explicar exatamente o que estava a acontecer. Mas, felizmente, nos últimos trinta anos essa explicação tem acontecido.
Na celebração daquilo que era a house music de Chicago até New Jersey, depois a forma como influenciou a partir de Nova York o mundo inteiro, o soulful house, daí voltando para a África do Sul, acho que a música fez o seu caminho. Fico feliz que hoje em dia se consiga intelectualizar melhor estes fenómenos porque, acima de tudo, quando fazes música aberta e colaborativa, o contexto é a coisa mais importante. Saber chamar as pessoas para participar, dar os créditos certos, explicar o que é que cada um fez, o que trouxe para o diálogo.
Em vez da palavra usurpação quero pensar na palavra de construção, que nos faz chegar a um lugar novo e a uma coisa mais bonita.
Se tivesses de escolher uma música ou banda que represente a lusofonia em 2026, qual escolherias e porquê?
Pensando na perspetiva de uma música que represente este cordão umbilical da língua portuguesa, enquanto statement musical e os países de expressão portuguesa, é inevitável que seja do Brasil. É a maior potência, a maior audiência e o maior público. O Brasil ganhou todo e qualquer campeonato que exista, não há concorrência. O tamanho da indústria deles é muito grande. Por exemplo, o Coala é muito grande em São Paulo e agora também em Lisboa.
Se eu tivesse de olhar para alguém que está a fazer esse trabalho de uma forma muito bonita, mais do que dizer uma música, vou escolher um grupo, os BaianaSystem. Eles estão a conseguir construir um diálogo muito interessante entre o passado, o presente e o futuro e todas estas latitudes e coordenadas geográficas que temos hoje na música. Acho que eles são a banda que melhor consegue juntar todos esses ingredientes na conversa.
Fotografia de destaque: Facebook Branko
Fotografia texto: Vai Véi


