Brasil não é só Bolsonaro, é também Cortella

Do Brasil estamos habituados a ouvir as pouco refletidas intervenções de Jair Bolsonaro. No domínio do pensamento, Felizmente, o país vai muito além desta figura da política sui generis. Está repleto de figuras enormes que olham para a realidade com a prudência e a perspicácia que este momento histórico exige. Mario Sérgio Cortella, nasceu em Londrina, no Estado do Paraná, Brasil. É filósofo, escritor e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É também professor convidado da Fundação Dom Cabral e ainda consegue ser comentador habitual de rádio e televisão. Com mais de quarenta livros publicados, a Líder falou com o filósofo que é uma referência incontestável do panorama intelectual, do Brasil, e que cita Luís de Camões com grande paixão e devoção.

Como podemos renascer neste mundo pós- -apocalítico e voltar a olhar para o Homem enquanto projeto de desenvolvimento civilizacional? Como retomar a velocidade num mundo em abrandamento? Que velocidade importa agora retomar?

É preciso, agora, bastante paciência e não se confunda paciência com lerdice; ser paciente é ser capaz de engendrar, rever, maturar e empreender com mais densidade e cautela, com menos pressa. Vale bastante o conselho de Epicteto, nas suas dissertações, “Nada do que é grande surge repentinamente, nem mesmo a uva, nem os figos. Se agora me disseres ‘Quero um figo’, respondo-te: ‘É preciso tempo’. Antes de tudo, deixa virem as flores, depois que se desenvolvam os frutos e que amadureçam”.

A pressa desenfreada que nos acometia, até sermos interrompidos de modo abrupto por um vírus, serve de ameaça e de alerta; a escolha sobre qual destas forças vai possuir-nos dependerá da nossa competência cognoscente e da nossa persistência inteligente. Khalil Gibran já nos ensinou que “tartarugas conhecem melhor as estradas do que os coelhos”; então, neste momento mais lento, aprender com as tartarugas para, depois, ganharmos velocidade como os coelhos. A confiança é um bem tão essencial como a alimentação que nos mantém vivos, ou a saúde que nos mantém fortes. Ela permite que as pessoas, as empresas, as organizações e os Estados consigam desenvolver-se e prosperar, só ela torna o futuro possível.

 A confiança permite- -nos acreditar em nós e nos outros. E quando isso falha? Quando já nada é garantido, até mesmo a verdade? Quando somos colocados num novo mundo onde o campo de visão é reduzido e nublado? No que podemos verdadeiramente confiar?

A confiança não é, de modo algum, uma virtude de convivência e um valor negocial que se apresente invulnerável e imutável; historicamente vai-se construindo nas práticas e nas reinvenções quotidianas e, por isso, não estrutura uma essencialidade perene e está sempre em referência ao seu tempo histórico e à sociedade na qual é criada.

A humanidade já confiou em conhecimentos e atitudes que não só, depois, se mostraram desacreditadas, como até recusáveis por serem malévolas ou tolas. Quando a confiança falha é preciso ir buscar aquilo que seja menos desconfiável para, a partir daí, erigir uma nova estrutura confidente e confiante que só se mostrará correta quando se transformar em conhecimento validado; por isso, neste momento, o menos desconfiável é a perceção da nossa fragilidade coletiva (o que reforça a humildade intelectual como instrumento de aprendizagem) e a perceção da nossa inteligência coletiva (o que requer a colaboração como instrumento de resistência). Afinal, como se diz no Brasil, “se ficar, o bicho come e se correr, o bicho pega”; então, só nos resta confiar na terceira alternativa: “se juntar, o bicho foge”…

Depois da tempestade o que vão os líderes fazer de forma diferente? Que lições podem ser retiradas desta pandemia?

Diante de uma ameaça robusta a liderança enfrenta sempre uma dupla alternativa de ataque: aquela que oferece um resultado mais imediato, mas adiante resulta num isolamento perigoso, fundada na lógica do “cada um por si e Deus por todos” ou, outra que é mais demorada e complexa na operação, mas mais consistente na longevidade, apoiada no princípio do “um por todos e todos por um”.

(…)

Entrevista a Mario Sérgio Cortella. Para Leitura integral, subscreva aqui.

 

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