Breve história de Inglaterra

Os ingleses nunca foram bons a descrever-se a si próprios. Na época da confiança imperial, não sentiam necessidade disso. Hoje em dia, quase nenhum deles gosta de se ver a si próprio como europeu, mas a melhor forma de se definirem a si próprios é como adversários dos seus vizinhos celtas. Empreenderam guerras de supressão contra o País de Gales, a Escócia e, com particular brutalidade, contra a Irlanda. No início do século xxi, dão consigo praticamente separados da Irlanda e parcialmente separados da Escócia e do País de Gales, tanto em termos políticos como culturais. A componente inglesa do Reino Unido é deixada, assim, num limbo estranhamente anémico.

Não tem parlamento nem instituições políticas próprias que a caracterizem. Referirmo-nos à Inglaterra e aos ingleses como sendo distintos da Grã-Bretanha e dos britânicos é muitas vezes visto como um ato hostil ao cosmopolitismo associado à união, ou até como um ato racista. A bandeira inglesa de São Jorge adquiriu uma conotação chauvinista e xenofóbica, tendo sido adotada pela extrema direita. Parece-me absurdo. A Inglaterra é um país que tem o direito de se definir a si próprio e de se orgulhar ao fazê-lo. Creio que essa definição deveria começar pela narração da sua história.

Para alguns, a história é uma questão de oportunidade, para outros, é moldada por heróis e vilãos, para outros ainda, está enterrada na geografia, na economia e até na antropologia. Há muitas maneiras de contar a história de uma nação, com uma tendência atual para destacar os factos atuais e controversos. Há histórias sociais, culturais, “populares” e, no caso de Inglaterra, imperiais. Contudo, uma breve história não pode deixar de ser seletiva, e essa seleção dará a primazia sobretudo à política. Uma nação é uma entidade política, e o seu nascimento e desenvolvimento formam uma narrativa sobre aqueles que detiveram o poder dentro dela, quer se trate de monarcas, de soldados, de políticos ou da turba da rua ou, em época mais recente, da massa dos eleitores. Eu vejo a história, mais do que como uma cronologia linear, como elos de uma corrente formada por causas e efeitos. É essa corrente que encerra o segredo da forma pela qual a Inglaterra chegou ao lugar que hoje ocupa.

Autor: Simon Jenkins

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