Bruno Sambado é o fundador e CEO da Tale House, a maior produtora nacional de audiobooks, uma empresa de conteúdos que atua no universo do áudio e da narrativa e também como mediadora cultural. Escolher que histórias contar, autores amplificar e temas explorar é um ato editorial com impacto no debate público, para além de aportar uma responsabilidade no campo da literacia mediática. O cruzamento entre tecnologia e a tradição oral de contar histórias conhece um novo capítulo com o crescimento dos audiolivros a refletir uma transformação cultural.
Nesta entrevista, Bruno Sambado explica como muitos ouvintes já eram leitores e utilizam o áudio como complemento, impulsionados pelo interesse em aprendizagem contínua e pela popularidade dos podcasts. Discorda quanto ao empobrecimento da experiência humana, pelo facto de a leitura ser posta de lado, e deixa-nos o desafio de ouvir o poema Anoitecer do livro de Sóror Saudade de Florbela Espanca, pela atriz Mia Tomé.
Num mundo cada vez mais acelerado,o áudio responde a uma necessidade tecnológica ou a uma necessidade humana?
O áudio encaixa-se perfeitamente na lógica do nosso dia a dia; podemos ouvir enquanto conduzimos, no ginásio, enquanto cozinhamos e fazemos tarefas em casa ou quando caminhamos – pessoalmente oiço muito enquanto caminho. Plataformas como o Kobo da LeYa, a Wook, o Skeelo, Spotify e Audible, entre muitas outras, transformaram o áudio numa experiência com formato portátil e acessível em termos de facilidade. Mas antes da tecnologia veio a voz, os audiolivros não são recentes. Muito antes da escrita, as histórias eram contadas oralmente. A voz carrega emoção, intenção, silêncio, respiração, elementos que criam ligações emocionais. O sucesso dos audiolivros no mundo inteiro mostra que as pessoas não querem apenas informação, querem proximidade, querem narrativa, querem presença. O audiobook cria uma sensação íntima, alguém fala diretamente ao seu ouvido. Num mundo ‘permanentemente ligado’, mas emocionalmente muito fragmentado, os audiobooks respondem a uma necessidade profundamente humana de escuta e sensação de pertença. O áudio prospera porque está dotado da eficiência tecnológica aliado à intimidade humana.
O crescimento dos audiolivros representa uma inovação de formato?
O crescimento dos audiolivros representa mais do que uma inovação de formato, é um sinal claro de transformação cultural. O ouvinte típico vive numa lógica de mobilidade: ouve enquanto se desloca do ponto A para o ponto B, treina ou realiza tarefas, integrando a leitura na sua rotina diária. As plataformas de streaming de audiolivros consolidaram esse hábito ao tornar o livro acessível em qualquer momento e a qualquer hora. Mas não se trata apenas de otimização do tempo. Muitos ouvintes já eram leitores e usam o áudio como complemento, não substituição. Além disso, há um público interessado numa aprendizagem contínua, especialmente em não ficção, e uma geração habituada a consumir narrativas em voz, muito influenciada pelo universo e enorme sucesso dos podcasts. No fundo, o audiobook combina tecnologia e tradição: responde ao ritmo acelerado da vida contemporânea e, ao mesmo tempo, recupera a força ancestral da oralidade. É menos uma mudança no ato de ler e mais uma ampliação da forma como experienciamos a cultura, a leitura e, não menos importante, a acessibilidade para pessoas com dificuldades visuais.
Quando a tecnologia facilita o acesso ao conteúdo podemos afirmar que empobrece a experiência humana?
Não estou de acordo. Quando a tecnologia facilita o acesso ao conteúdo, ela transforma a experiência humana, mas esta transformação não é sinónimo de empobrecimento. Por um lado, há um risco real, excesso de oferta pode eventualmente gerar superficialidade, dispersão e consumo acelerado. A lógica do scroll rápido e infinito nas plataformas digitais privilegia muitas vezes velocidade em detrimento da profundidade do conteúdo. Nesse sentido, a experiência pode tornar-se mais fragmentada, é certo. Por outro lado, nunca foi tão fácil ter acesso à cultura. Hoje é muito fácil aceder a livros, música, cursos, filmes ou debates de diferentes culturas e épocas. Plataformas como Spotify, Netflix, Kobo da LeYa, Wook, Skeelo ou Audible democratizaram o acesso e ampliaram repertórios.
«A inteligência artificial pode resumir um livro em segundos, mas não pode substituir o que acontece a um ser humano enquanto o lê». Esta afirmação é uma verdade ou um sinal de perigo?
Essa afirmação é, ao mesmo tempo, uma verdade e um sinal de alerta. É verdade porque a leitura não é apenas absorção de informação. Quando alguém lê um livro, acontece um processo interno: imaginação, identificação, conflito, silêncio, tempo. Um resumo feito por uma pessoa ou por uma ferramenta de IA entrega conteúdo, mas não reproduz a experiência subjetiva de atravessar e viver a narrativa, página a página. Mas também é um sinal de perigo. Se passarmos a valorizar apenas a eficiência, ‘saber do que se trata’ em vez de ‘viver o que o livro, a narrativa nos provoca’, podemos reduzir a cultura a informação utilitária. O ponto essencial não é se a IA substitui a leitura, porque não substitui o processo humano de interpretação e emoção. O risco está em nós, se começarmos a trocar experiência por síntese e, mais importante ainda, profundidade por velocidade. A tecnologia oferece-nos atalhos, a questão é decidir que estrada devemos tomar.
Quem define os limites éticos da utilização de vozes sintéticas?
Os limites éticos das vozes sintéticas não são definidos por um único ator, são resultado de um equilíbrio entre lei, mercado, tecnologia e cultura. Costumo dizer que a IA, no que diz respeito à voz, é uma espécie de ‘desodorizante’, e a voz humana é um ‘perfume caro’. Estou em crer que num futuro não muito longínquo o leitor ou ouvinte vai preferir pagar mais caro para aceder a uma obra com voz humana em detrimento de uma voz mecânica. Os limites éticos não são fixos nem exclusivamente tecnológicos, são negociados continuamente entre regulação, inovação, interesses económicos e valores culturais. A pergunta talvez não seja “quem define?”, mas “como garantimos que todos os envolvidos têm voz nessa definição?”.
O áudio aproxima-nos da tradição oral, a forma mais ancestral de partilha humana. A proliferação de podcasts é como o regresso das conversas ao serão? Eu (pareço velho) ainda sou do tempo em que gostava de ouvir a Dina Aguiar à meia-noite na Rádio Renascença. A única coisa que fazia, e não era pouco, era conversar todos os dias com os ouvintes, e isto era no ano 2000. Mas, em certo sentido, sim, a proliferação de podcasts pode ser vista como um regresso simbólico ao serão, mas mediado pela tecnologia. Durante séculos, histórias, memórias e conhecimento circularam pela voz, em contextos íntimos e familiares.
O podcast recupera algo dessa lógica, alguém fala, alguém ouve, cria-se uma sensação de proximidade e de genuinidade uma vez que não deverá ter cortes (um falso direto). Em Portugal temos ótimos exemplos, como Páginas com Graça, E o Resto é História ou A Beleza das Pequenas Coisas. No entanto, há uma diferença importante: o serão tradicional era partilhado no mesmo espaço físico. O podcast cria uma intimidade individualizada, muitas vezes solitária, através de auscultadores. A comunidade não desaparece, transforma-se; em vez da roda à volta da lareira, da mesa da casa de jantar, temos redes distribuídas de ouvintes que partilham referências, comentários e episódios. Mais do que um regresso ao passado, os podcasts representam uma atualização da tradição oral. É menos nostalgia e mais reinvenção da conversa.
Estamos a assistir a uma democratização cultural ou a uma nova disputa pela atenção?
Estamos a assistir às duas coisas e elas acontecem em simultâneo. Por um lado, há uma clara democratização cultural, nunca foi tão fácil produzir, distribuir e consumir conteúdo. Qualquer pessoa com um investimento em equipamento reduzido pode lançar um podcast, um audiobook ou uma série sem depender exclusivamente dos grandes meios tradicionais. Plataformas como o YouTube e o Spotify abriram espaço para vozes independentes, nichos e novas geografias culturais. Algoritmos, notificações e métricas competem por segundos de permanência e a economia da atenção redefine quem consegue ser ouvido. Há aqui um paradoxo contemporâneo: temos mais vozes do que nunca e menos tempo para ouvi-las.
Que responsabilidade cultural tem uma empresa como a Tale House na formação do pensamento crítico?
Somos o maior produtor nacional de audiobooks, gosto de acreditar que somos também mediadores culturais. Empresas como a Tale House podem contribuir para educar o público a consumir informação, explicar contextos e incentivar à reflexão. Neste enquadramento surge a nossa intenção de produzir 50 obras de grandes clássicos de autores portugueses, em domínio público, integrados no Plano Nacional de Leitura, e disponibilizá las gratuitamente através da BiblioLed. Democratizar é garantir que referências da literatura estão acessíveis, em formatos contemporâneos, às novas gerações e a todos que as queiram ouvir. A responsabilidade da Tale House não é dizer às pessoas o que pensar, mas criar condições para que pensem melhor oferecendo contexto, profundidade e acesso qualificado ao património cultural.
Quais são os principais desafios no setor da produção de conteúdos?
Os principais desafios passam por conciliar qualidade com quantidade, enfrentar a intensa disputa pela atenção do público, garantir sustentabili ade económica e ética na utilização de novas tecnologias, e ao mesmo tempo tornar o conteúdo acessível e inclusivo.
Se o futuro é cada vez mais algorítmico, como preservar a autenticidade dos nossos sentidos?
Passa por um consumo consciente, diversidade de fontes e experiências diretas. A tecnologia pode mediar o que vemos ou ouvimos, mas cabe a cada um escolher, refletir e experienciar de forma plena, garantindo que a interpretação e a emoção continuam a ser humanas.
Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.


